ALLAN KARDEC – O CODIFICADOR

Autor: Ramatis Allan de Oliveira

Objetivo: relembrar e conhecer o homem do advento da doutrina espírita

Ano de 2004, bicentenário da reencarnação de Allan Kardec, o codificador da doutrina espírita. Junto com a lembrança, o desejo de mais uma vez o homenagear. Deferência, cujos benefícios se revertem, como forma de reviver, relembrar, o homem que cumpriu os desígnios da providência divina, na forma da colaboração e cooperação no desenvolvimento da evolução do pensamento da humanidade, na dimensão cósmica espírito/matéria.

Nesse sentido, perguntamos:

1) – A codificação espírita é acontecimento fortuito ou um planejamento da providência divina?

Se me amais, guardai os meus mandamentos; e eu rogarei a meu Pai e ele vos enviará outro consolador, a fim de que fique eternamente convosco: – o Espírito de Verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê e absolutamente o não conhece. Mas, quanto a vós, vós o conhecereis porque permanecerá convosco e estará em vós. – Porém, o consolador, que é o Santo Espírito, que meu Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas e vos fará recordar todo o que vos tenho dito.

A providência divina, desde o início dos tempos, tem ajudado o progresso da humanidade. Principalmente, ao permitir a reencarnação de espíritos sábios que contribuem para com o progresso, e que são bússola nos caminhos que levam ao Pai. Com o fito de relembrar alguns momentos históricos, citaremos:

  • Vinda de Moisés, com os dez mandamentos – (1300 A/C);
  • Vinda de filósofos: Sócrates, Platão, Aristóteles – (+ ou – 600 A/C);
  • Vinda de Jesus;
  • Consolidação do cristianismo nos primeiros quatro séculos da era cristã;
  • Apogeu da civilização grega, que contribui para formação de base do pensamento do homem, até o ano 450 da nossa era;
  • Vinda de Francisco de Assis (+ ou – 1200 DC);
  • Movimento Renascentista a partir de 1500, quando ocorreu verdadeira explosão do conhecimento humano:
    • no campo da ciência: (Galileu, Newton, Descartes);
    • no campo das artes: (Da Vinci);
    • música: (Beethoven);
    • literatura: (Goethe, Balzac).
  • No progresso humano, os grandes descobrimentos, Gutemberg, com a imprensa; Fulton, com o navio a vapor; Edison com a lâmpada e etc. tudo, culminando na revolução industrial no final do século XIX;
  • Advento da doutrina espírita, em 1857.

Para entender a dimensão e o significado do trabalho do professor Hippolyte Léon Denizard Rivail, faz-se necessário relembrar sua biografia, que pode ser dividida em duas fases:

No século XVIII, quando a França se erguia como farol intelectual da civilização ocidental, Paris foi, durante muito tempo, a capital européia atrativa para os intelectivos. Juntamente com a Alemanha, dirigiam os rumos do intelecto humano. O homem era incentivado a ser independente, a pensar por si; “todos os homens são iguais”, era o lema do Iluminismo.

A Revolução Francesa teve o mérito de despertar a bandeira contagiante da “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, e da “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão”. Evidentemente, a efervescência do período desembocou num paradoxo com o aparecimento do império napoleônico. Todavia, se os frutos intelectuais da Revolução permitiram livrar a Europa dos hábitos aristocráticos, forçou a melhoria dos direitos sociais em todas as nações do Ocidente, fortalecendo o papel do direito.

E, é neste cenário, nesse clima de renovação, que reencarna Hippolyte Léon Denizard Rivail.

2) – Quem é Hippolyte Léon Denizard Rivail? Qual seu perfil? Qual sua formação?

Hippolyte Léon Denizard Rivail, nasceu em Lião, a 3 de outubro de 1804, filho de Jean Baptiste Antoine Rivail e Jeanne Duhamel, uma família que se distinguia na magistratura e na advocacia. Desde a primeira juventude, sentiu-se inclinado para o estudo da ciência e da filosofia. Educado na Escola de Pestalozzi, em Yverdun (Suíça), tornou-se um dos eminentes discípulos desse célebre professor e um dos zelosos continuadores do seu sistema de educação, que tão grande influência exercerá sobre a reforma do ensino na França. Dotado de notável inteligência é atraído para o campo pedagógico. Na escola aos catorze anos, destaca-se dentre os seus condiscípulos, auxiliando-os em suas dificuldades. Foi nessa escola que se lhe desabrocharam as idéias que mais tarde o colocariam na classe dos homens progressistas e livres-pensadores. Nascido em lar católico, educado num país protestante, presenciou atos de intolerância religiosa. Concluídos seus estudos, voltou para a França. Conhecendo a fundo a língua alemã, traduzia para este idioma diferentes obras de educação e moral; as obras de Fénelon o tinham seduzido de modo particular. Falava, além do francês, alemão, italiano e espanhol.

Em 1832, casa-se, com a senhorita Amélie Gabrielle Boudet, uma jovem culta. Professora, poetisa e pintora, que conhecera no “Instituto Educacional Técnico”. Ela lecionava letras e belas-artes.

Nessa época, o Professor Rivail era membro de várias sociedades culturais, entre outras, da Academia Real de Arras, que, no concurso de 1831, o premiou na dissertação da seguinte questão: Qual o sistema de estudos que mais se harmoniza com as necessidades da época?
De 1835 a 1840, abriu, em sua casa, à rua de Sèvres, cursos gratuitos de química, física, anatomia comparada, astronomia, etc., numa época em que só um número reduzido de inteligências ousava enveredar por esse caminho. Preocupado sempre com o tornar atraentes e interessantes os sistemas de educação, criou, ao mesmo tempo, um método engenhoso de ensinar a contar e um quadro mnemônico sobre a história da França, tendo por objetivo fixar na memória as datas dos acontecimentos de maior relevo e as descobertas que iluminaram cada reinado.

Entre as suas numerosas obras de educação, citaremos as seguintes: curso prático e teórico de aritmética, segundo o método de Pestalozzi, para uso dos professores e das mães de família (1824); plano proposto para melhoramento da Instrução pública (1828); gramática francesa clássica (1831); manual dos exames para os títulos de capacidade; soluções racionais das questões e problemas de aritmética e de geometria (1846); catecismo gramatical da língua francesa (1848); programa dos cursos usuais de química, física, astronomia, fisiologia, que ele professava no Liceu Polimático; ditados normais dos exames da Municipalidade e da Sorbone, seguidos de ditados especiais sobre as dificuldades ortográficas (1849), obra muito apreciada na época do seu aparecimento e da qual ainda recentemente eram tiradas novas edições.

Alguns o apresentam como doutor em medicina, e disto se aproveitou a crítica adversária para denegrir a memória do codificador, acoimando-o de embusteiro.

Kardec nunca se fez passar por médico, sendo a sua profissão a de mestre-escola. O equivoco provém de que costumava tratar os enfermos pelo hipnotismo e com aplicações de passes magnéticos.

3) – Qual foi a missão do professor Rivail? Quem é Allan Kardec?

A explosão dos fenômenos espíritas em 1848, na cidadezinha de Hydesville, com as irmãs Fox, Estados Unidos movimenta a opinião pública. Na Alemanha e França, as atenções voltavam-se para os fenômenos das chamadas “mesas girantes”. Pessoas de todos os níveis culturais e sociais, indiferentemente de suas convicções religiosas, estavam às voltas com sessões em que se realizavam fenômenos de efeitos físicos.
Nessas sessões, as mesas eram movimentadas por entidades espirituais, respondendo, por códigos, às perguntas feitas pelos participantes.
Muitas pessoas sérias, orientadas por espíritos bondosos e sábios, obtinham comunicações elevadas e interessantes. Mas em geral, esses fenômenos se davam para o divertimento dos salões parisienses, alheios para compreender a extensão do novo fenômeno.

Do ceticismo à investigação criteriosa.

Foi o magnetizador Fortier quem falou ao professor Rivail sobre esses espantosos fatos. Outro amigo, companheiro de juventude, um corso de nome Carloti, também lhe chamou a atenção sobre tais acontecimentos inexplicáveis. O professor Rivail, acreditou tratar-se de um fenômeno magnético, e isso não lhe pareceu impossível, pois o fluido magnético, que é uma propriedade da eletricidade, pode perfeitamente atuar sobre os corpos inertes e fazer com que objetos se movam.
Esse entendimento do prof. Rivail, decorre dos estudos de muitos anos sobre o magnetismo mesmeriano, quando jovem, tinha entrado em contato com a nova ciência do magnetismo que se introduzira na França pelas mãos do médico e cientista alemão, formado em Viena, Franz Anton Mesmer.
Descobrira, através de múltiplas experimentações, que o magnetismo é uma energia também produzida pelo próprio homem e que se exterioriza pelo poder da vontade. E que, direcionada para o bem, produz efeitos curativos.
Constataram os adeptos da nova ciência que extraordinários tratamentos se efetuam através da imposição das mãos dos magnetizadores.
Essa ciência nada mais faz do que revelar a lei, embora desconhecida dos homens, utilizada por Jesus na cura de doentes e obsidiados, durante sua peregrinação terrena. Rivail, com grande interesse, acompanha o desenvolvimento desse fenômeno ao lado de inúmeros magnetizadores que compõem o rol de seus amigos.
Mais tarde, o professor Rivail, associa o fluido magnético à doutrina espírita, como elemento indispensável ao tratamento do corpo e da alma, bem como sua ação nos processos obsessivos, destacando sua importância na comunicabilidade dos espíritos.
Logo mais tarde o magnetizador Fortier volta a falar com Rivail e lhe diz que as mesas não só se movem, mas pensam, respondem perguntas. O cético Rivail diz a Fortier: “Só acreditarei quando o vir e quando me provarem que uma mesa tem cérebro para pensar, nervos para sentir e que pode se tornar uma sonâmbula”.
No início do ano de 1855 o Sr. Carlotti diz a Rivail que, no fenômeno das mesas, há influência das almas dos mortos, ou espíritos.
Em razão de sua mentalidade crítica e científica, o respeitado professor manteve-se reservado e distante. Até que em oito de maio, aceita o convite que lhe é feito e vai à casa da senhora Plainemaison. Aí assiste a diversos fenômenos, onde as mesas saltavam e corriam sozinhas. O professor vai além e mais tarde, diria Allan Kardec: “Entrevi naquelas aparentes futilidades, no passatempo que faziam daqueles fenômenos, qualquer coisa de sério, como que a revelação de uma nova lei, que tomei a mim mesmo investigar a fundo”, percebendo assim que os fenômenos eram motivados por um fato inteligente.
“O mais notável acontecimento da minha vida”, declarará ele. Rivail passou a frequentar as reuniões, no entanto não se sentia à vontade, pois enquanto muitos se entretinham em questionar sobre as insignificâncias do mundo material, Rivail desejara de transformar aquela mesa numa cátedra. Ele via, ali, uma revelação, além de mera manifestação mecânica.
Assim, Rivail mudaria o rumo dos acontecimentos, dirigindo perguntas sérias sobre todos os ângulos do conhecimento reunindo-as em conjunto metódico e sistemático onde uma informação já se abre em novo questionamento, recolhendo informações, comparando, categorizando. Em sessões especiais, utilizaria a mediunidade de duas meninas, filhas de seu amigo Baudin, Caroline e Julie, quando compila a maior parte dos ensinamentos contidos em “O Livro dos Espíritos”.
Uma noite, manifestou-se Zéfiro, declarando-se seu espírito protetor. Contou-lhe que o conhecera em uma existência anterior, no tempo dos druidas, na Gália, quando Rivail se chamara Allan Kardec. Zéfiro revelou a Rivail sua missão de codificador da doutrina espírita, para a qual seria convocado pelo Espírito da Verdade.
Certa feita, perguntou a Zéfiro se lhe era possível evocar o espírito de Sócrates.
Para espanto dos presentes, a resposta foi positiva. “Você já o consulta amiúde mentalmente”, diz Zéfiro.
Em seguida, recebem, através da “Tupia”, (um tipo de cesta de vime) a mensagem de Sócrates: “A verdadeira filosofia dos espíritos adiantados só poderá ser revelada ao que for digno de receber a verdade“. Semanas mais tarde, Kardec lhe pergunta o que deve fazer para receber a missão, e obtém como resposta: “O bem, e dispor-se a suportar corajosamente qualquer provação para defender a verdade, ainda que precise… beber cicuta”.
Kardec insiste em saber se está apto ao cometimento e questiona ao Espírito Verdade, que responde: “A nossa assistência não te faltará, mas será inútil se não fizeres o que for necessário. Suscitarás contra ti ódios terríveis; inimigos encarniçados se conjurarão para tua perda; ver-te-ás a braços com a malevolência, com a calúnia, com a traição mesma dos que te parecerão os mais dedicados; terás de sustentar uma luta quase contínua, com sacrifício de teu repouso, da tua saúde, da tua vida.”,
O professor Rivail, responde simplesmente: “Aceito tudo, sem restrição e sem ideia preconcebida. Está em tuas mãos a minha vida. Dispõe do teu servo.”.
Após 50 anos de preparação acadêmica, Hippolyte Léon Denizard Rivail convocado pela espiritualidade codifica a doutrina espírita. Iniciando-se assim a segunda fase de sua vida.

4) – Qual foi o método adotado?

Observador, o professor percebe que atrás daquele movimento das mesas havia um fator inteligente e essa causa inteligente é que leva a pesquisar procurando conhecer.
De seus estudos percebe então, que os espíritos eram apenas as almas dos mortos, e que não diferiam das almas dos vivos. Alguns sérios, outros galhofeiros; uns sábios, outros ignorantes, e que, aos consulentes que demonstravam apenas curiosidade, respondiam espíritos pouco evoluídos, também interessados em divertir-se.
“Fazia-se mister andar com a maior circunspecção e não levianamente; ser positivista e não idealista, para não me deixar iludir”, diz Kardec.
Passou a se reunir em casa do Sr. Baudin, pois percebia que a seriedade dos objetivos favorecia a serenidade do ambiente para a manifestação dos bons espíritos.
O método experimental baseado na observação e raciocínio transformou-se no método da própria Doutrina, e tem na sua própria simplicidade, a garantia da sua eficiência. Podemos resumi-lo assim:
a) Escolha de colaboradores mediúnicos insuspeitos, do ponto de vista moral;
b) Análise rigorosa das comunicações, do ponto de vista lógico, bem como do seu confronto com as verdades científicas demonstradas, pondo-se de lado tudo aquilo que não possa ser logicamente justificado;
c) Controle dos Espíritos comunicantes, através da coerência de suas comunicações e do teor de sua linguagem;
d) Consenso universal, ou seja, concordância de várias comunicações, dadas por médiuns diferentes, ao mesmo tempo e em vários lugares, sobre o mesmo assunto.

Sob esses princípios, escudado rigorosamente nesse critério, Kardec pôde realizar a tarefa de reunir a série de informações que lhe permitiram organizar “O Livro dos Espíritos” que foi lançado em dezoito de abril de mil oitocentos e cinquenta e sete, e onde ele se assina Allan Kardec.

5) – Qual foi o processo?

“Investigação e analise”. O professor Rivail utilizou, para a composição do livro, especialmente as médiuns Caroline Baudin, 18 anos, Julie Baudin, 14 anos e Ruth Japhet, que auxiliou especialmente na revisão da obra.
Caroline Baudin pode contar como tudo aconteceu:
“Quem compôs a obra foram os guias, o professor Rivail e o ‘Roc’”.
“Amarrava-se o ‘Roc’ na ‘Tupia’ (cesta de vime), Julie ou eu, com outras pessoas consulentes, encostávamos alguns dedos. O resto era obra dos espíritos.
‘Roc’ era o lápis de pedra com que os Espíritos riscavam diretamente as respostas numa ardósia comum”.
“Zéfiro, nosso espírito familiar riscava as respostas dos consulentes. A casa se enchia de curiosos, num ambiente de alegria, sem formalismos”.
“Certo dia, o professor propôs que a sessão seria aberta à hora certa, iniciada com uma prece e teria recolhimento respeitoso para merecer a presença de espíritos adiantados”.
“Dia primeiro de janeiro de 1856 teve início o novo método”.
“Muitos consulentes que só vinham para perguntar tolices sobre casos domésticos não voltaram mais. Ficaram, porém, alguns mais dispostos a aprender”.
“Algumas vezes o professor Rivail recusou lições. Ele conversava e argumentava com os espíritos como se fossem homens. Não aceitava o que não estivesse conforme a razão”.
“Nas sugestões mais sérias, quando surgia um impasse, evocava o Espírito Verdade”.

6) – Recebeu alguma colaboração na revisão das informações dos espíritos?

Colaborou decisivamente na elaboração da obra a médium Srta. Ruth Japhet, médium sonâmbula. Kardec se reunia com a família Japhet freqüentemente, para revisar as respostas dadas pelos espíritos. Todas as perguntas e respostas eram lidas, revistas e corrigidas, se necessário.
A conselho dos próprios espíritos, outros médiuns, mais de dez, foram utilizados para confirmação das orientações espirituais.
Era indispensável que nada ficasse incorreto, obscuro, duvidoso.
O mestre lionês tinha plena consciência do alcance moral da nova doutrina e de sua missão.
“Observar, comparar e julgar, essa a regra que constantemente segui”, afirma.

7) – Qual o resultado da informação/conhecimento advindo dos espíritos?

Esse conhecimento veio a público com a edição de “O Livro dos Espíritos”, onde temos o código para uma nova fase da evolução humana, e que causa grande repercussão na França. Homens de ciências e artes como o astrônomo Camille Flammarion, o poeta Victor Hugo, os escritores Balzac e Teophile Gautier, o pensador Léon Denis, além de inúmeros outros filósofos e literatos se sentiram atraídos pela luz da nova revelação.
O próprio imperador da França, Napoleão III, sobrinho de Napoleão Bonaparte, solicita a presença de Kardec no Palácio das Tulherias e mantém longas conversações com o codificador sobre “O Livro dos Espíritos”.
Esta obra é o marco inicial, a pedra fundamental do spiritismo. Mais do que isso, é também o código de uma nova fase da evolução humana.
Sobre “O Livro dos Espíritos”, explica J. Herculano Pires: “O livro começa pela metafísica, passando em seguida à cosmologia, à psicologia, aos problemas propriamente espíritas da origem e natureza do espírito e suas ligações com o corpo, bem como aos da vida após a morte, para chegar, com as leis morais, à sociologia e à ética e concluir, no Livro IV, com as considerações de ordem teológica sobre as penas e gozos futuros e a intervenção de Deus na vida humana”.

8) – Qual a característica do corpo doutrinário?

Seu corpo doutrinário é esotérico (isto é, exposto ao público) e didático, desfazendo a aura de mistério, de sobrenatural e de maravilhoso, que tanto impressiona os incautos, mas que também fascina os orgulhosos e manipuladores do bom-senso.

9) – Qual outro meio que utilizou Kardec, para a codificação da doutrina espírita?

La Revue Spirite constitui rico manancial doutrinário, pouco explorado pelos espíritas. Os originais franceses, ainda necessários para pesquisas cuidadosas, são raríssimos em todo o mundo. Kardec discorre sobre a ideia da criação da revista em “Obras Póstumas”. Em suas própria palavras, ela se tornou “poderoso auxiliar” na elaboração da doutrina e na implantação do movimento espírita. Seus objetivos principais eram:
a) Veicular relatos e análises espíritas de fenômenos espíritas, psicológicos, sociológicos e etc.;
b) Publicar produções mediúnicas selecionadas, obtidas na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas ou enviadas por correspondentes;
c) Sondar a opinião dos homens e dos espíritos sobre princípios em elaboração;
d) Comentar, à luz do espiritismo, artigos de jornais, obras literárias, filosóficas e científicas.

Kardec editou a Revue até o número de abril de 1869, inclusive. Após seu desencarne em 31 de março de 1869, a revista continuou sendo publicada, graças ao idealismo da senhora Allan Kardec, de Pierre-Gaëtan Leymarie e de Jean Meyer, principalmente¹.

10) – Qual o objetivo da fundação da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas?

Em primeiro de abril de 1858, Allan Kardec funda a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, primeiro centro espírita, que tinha por objetivo:
a) o estudo de todos os fenômenos relativos às manifestações espíritas e suas aplicações às ciências morais, físicas, históricas e psicológicas.
b) Não era intenção de Kardec fundar uma religião, como ocorreu posteriormente a partir do seu legado. Para ele “A ciência espírita compreende duas partes: uma experimental, relativa às manifestações em geral; a outra, filosófica, relativa às manifestações inteligentes e suas conseqüências”

11) – O que dificulta o reconhecimento a Allan Kardec e a compreensão de sua mensagem?

A missão de Allan Kardec ainda é pouco conhecida em nossos dias, bem como sua mensagem, que oferece uma lógica moralizante para o homem contemporâneo, mais emancipado de atavismos. Apresentam-se tais dificuldades, a nosso ver, nas seguintes situações:
a) Pessoas de mentalidade materialista, ainda incapacitados para compreender, algo que transcenda o limitado alcance dos cinco sentidos.
b) Pessoas bem intencionadas, porém, presas a dogmas de fé, ainda inaptas a apreender a essência abrangente de sua mensagem. São sinceros em suas convicções, embora estas sejam frágeis, embasadas na fé cega e no comportamento imediatista, hipertrofiado pelo excessivo enfoque ao culto exterior.
c) Pessoas que reconhecem mas temem o alcance e a profundidade de sua revelação, em função de interesses pessoais e materiais. Às vezes também, por estarem atados, consciente ou inconscientemente, a convicções próprias e, assim, preferem o combater e repudiar, acomodadas que estão ao radicalismo de seus preconceitos.

Falando à mente e ao coração a mensagem espírita é libertadora, com impacto direto sobre o sentimento, pelas vias do raciocínio, a todo ser humano isento de preconceitos, com disposição para estudá-la, discerni-la, senti-la, praticá-la.

12) – Como podemos dimensionar o significado da tarefa de  Kardec?

Para entendermos a dimensão do significado de sua tarefa, relembramos a mensagem de Emmanuel, que é imperioso que estejamos alerta em nossos deveres fundamentais. Convençamos-nos de que é necessário:

Sentir Kardec;
Compreender, entender, perceber

Estudar Kardec;
Dedicar-se à apreciação, análise ou compreensão de; examinar, analisar

Anotar Kardec
Tomar nota ou apontamento de; apontar

Meditar Kardec;
Estudar, ponderar, considerar

Analisar Kardec;
Observar, examinar com minúcia; esquadrinhar: Entender a situação, antes de opinar.

Comentar Kardec;
Explicar, interpretando e/ou anotando, popularizar.

Interpretar Kardec;
Explicar, explanar ou aclarar o sentido de (palavra, texto, lei, etc.), a partir do conhecimento.

Cultivar Kardec;
Entregar-se a, dedicar-se, educar-se.

Ensinar Kardec
Transmitir conhecimentos a; instruir, educar.

Dar a conhecer; indicar.

Divulgar Kardec.
Tornar público ou notório; publicar; propagar, difundir.

Analisando, percebemos num primeiro momento, que todas as palavras são verbos transitivos diretos e estão no Infinitivo, que é uma forma verbal imperativa, instando o adepto a inteirar-se no cometimento da aprendizagem o esforço da renovação mental e moral, para a abertura da nova forma de pensar e agir, na ligação do homem com Deus, numa relação conceitual de religião.
O pensamento de Emmanuel, em alusão ao codificador não foge a regra, que se compreendido e vivido poderá o espiritismo surtir o efeito desejado na promessa de Jesus.

13) – Qual a participação do professor Rivail no advento da doutrina espírita?

O fato de Kardec ter sido um educador conferiu à doutrina espírita um caráter pedagógico, de educação do espírito.
A forma que ele escreveu é uma forma didática. Outra influência é a simplicidade, através de perguntas e respostas com que apresenta o conhecimento. Como educador tinha uma visão de síntese. Se fosse apenas cientista, ou um filósofo, ou um sacerdote, teria destacado apenas aspectos específicos. Como professor, uniu todas as áreas do conhecimento.

Conclusão

14) – Qual foi a contribuição de Allan Kardec, com o advento da doutrina espírita, para o pensamento humano?

a) Desmistificou a morte, provando que morrer é somente mudar de forma de viver sem transformação intrínseca por parte daquele que se transfere de um plano para outro.
b) Retirou a fantasia e o medo de tudo quanto se acerca à vida espiritual, comprovando que o inabitual é normal, jamais sobrenatural ou fantástico.
c) Corrigiu o conceito em torno do culto aos mortos, até então cercado por excentricidades e liturgias, fundamentando as instruções libertadoras na informação correta dos próprios mortos, sempre vivos além da cortina carnal.
d) Antecipou, através do exame de fatos e das informações, incontáveis labores da Ciência, que os vem confirmando no suceder das décadas, havendo oferecido à Doutrina Espírita uma estrutura firme e científica, no contexto das suas afirmações.
e) A mediunidade, é apresentada em perfeita metodologia para o seu exercício, oferecendo instruções de segurança, ao mesmo tempo em que analisa os problemas e dificuldades com um critério justo e seguro.
f) Situou, e distinguiu as posições do médium e dos espíritos, as diferenças entre opiniões isoladas e a universalidade do ensinamento espírita, não se arrogando quaisquer situações de relevo ou chefia.
g) No momento em que variam as técnicas das “ciências da alma”, no estudo da personalidade humana dos problemas que lhe são correlatos, o espiritismo conforme a codificação kardecista, é a resposta clara e insofismável para as aflições que se abatem sobre o homem, dando cumprimento à promessa de Jesus quanto ao consolador, de que este, em vindo à Terra, não somente lhe recordaria as lições, como também esclareceria, confortaria e conduziria o ser através dos tempos.
h) A possibilidade de ser e tornar-se cada vez mais e melhor, a mensagem espírita, bem compreendida em teoria e prática, descortina a seus adeptos um vasto horizonte religioso-filosófico-científico, proporcionando um gradativo refinamento de cogitações e conseqüente elevação de aspirações. Uma educação espiritual consistente, não coercitiva, racional e consoladora — este é o legado de Allan Kardec, o antigo druida ressurgido. Sua mensagem é destinada às gerações mais despojadas e sublimadas pela dor do milenar desengano resultante da pertinente transgressão às leis divinas. Estas gerações compreenderão a terceira revelação, pois que a viverão em profundidade. A evidência da vida ultra física se imporá, irrefutavelmente, convergindo a humanidade para a religião interior, cósmica, referida por Jesus como a que seria vivenciada “em espírito e verdade” — unificando o rebanho disperso em torno do único pastor.
i) Mesmo assim, ainda hoje, se adotarmos por base a noção do ser pensante, como o fez Descartes, temos nos princípios essenciais do espiritismo os meios concisos de desenvolver essa noção, desdobrá-la, pois poderemos afirmar com Léon Denis:
“O primeiro princípio do conhecimento é a ideia do ser (inteligência e vida). A ideia do ser impõe-se: Eu sou! Esta afirmação é indiscutível. Não podemos duvidar de nós mesmos. Mas, esta ideia, só, não pode bastar; deve complementar-se com a ideia de ação e vida progressiva: Eu sou e quero ser, cada vez mais e melhor!”
Ao que a voz do próprio Mestre, pelo decorrer das eras, continua a ressoar, exortando: “Sede perfeitos, como perfeito é vosso Pai que está nos céus…”.
j) A codificação da doutrina espírita colocou Kardec na galeria dos grandes missionários e benfeitores da humanidade. Pelo seu profundo e inexcedível amor ao bem e à verdade, Allan Kardec edificou o maior monumento de sabedoria que a Humanidade poderia ambicionar, desvendando os grandes mistérios da vida, pela compreensão racional e positiva das múltiplas existências, tudo, à luz dos postulados singelos das primícias do cristianismo, cumprindo realmente a promessa de Jesus de envio do consolador prometido.

Bibliografia:

BÍBLIA. São João. cap. XIV e VV (15 a 17 e 26). Bíblia sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Sociedade Bíblica do Brasil, 1966

 COS, F., MARQUES, A. M., FARIA, R. M.Livro de História. Vol. III. Belo Horizonte: editora Lê, 1993.

DENIS, L. Profissão de fé do Século XX. In: O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Brasília: FEB, 1995.

FRANCO, D. P. (Vianna de Carvalho). A Tarefa de Allan Kardec. Reformador. recebida em 04/06/1977. Brasília. n.1785. ano 95. p. 368-369, dezembro de 1977.

KARDEC, A.  Introdução (item XVII) e Lei do Progresso. In: O Livro dos Espíritos. Brasília: FEB, 1984.

______. Obras Póstumas. Brasília: FEB, 1987

______. Capítulos I a IV. In: O Livro dos Médiuns. Brasília: FEB, 1983.

PIRES, J. H. 100 anos de “O Livro dos Espíritos”. Disponível em: <www.espirito.com.br/portal/codificacao/100-anos-de-ole.html>. Acesso em: março de 2015.

Reformador. Brasília. n.1938. ano 108. p. 286, setembro de 1990.

THIESEN, F., WATUIL, Z. Allan Kardec. vol. I, II, e III. Brasília: FEB, 1982.

XAVIER, F.C. (Emmanuel). Kardec. Reformador. recebida em 03/10/1960. Brasília. n.3. ano 79. p. 57, março de 1961.


¹A partir de 1913, editou-se ao título da revista o artigo ‘la’ (‘a’), que ficou, desde então “La Revue Spirite“. Em lamentável decisão, foi extinta em 1976 por André Dumas, junto com a Union Spirite Française, para dar lugar a Renaître 2000 e a Union des Sociétés Francophones pour l’Investigation Psychique et l’Étude de la Survivance (USFIPES), ambas de cunho não espírita. Sob a lúcida e firme direção de Francisco Thiesen, a FEB envidou esforços para salvá-la em 1977, não obtendo sucesso. Felizmente, em 11 de maio de 1989 a Union Spirite Française et Francophone, com sede em Tours, conseguiu judicialmente recuperar o título, retomando a publicação da Revue, com periodicidade trimestral.

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