O CAÇADOR PROVIDENCIAL

  • Pelo espírito: Irmão X
  • Pela mediunidade de: Francisco Cândido Xavier
  • Obra: Contos e apólogos Editora FEB

Conversávamos acerca do sofrimento, quando o orientador hindu que nos acompanhava contou uma simplicidade infantil:

– O Anjo da Libertação desceu do Paraíso a este mundo, pousando num cômoro verdejante, a reduzida distância do mar.

Aproximaram-se dele um melro, um abutre, uma tartaruga e uma borboleta.

Reconhecendo que essa era a assembleia de que podia dispor para a revelação que trazia, o iluminado peregrino começou ali mesmo, a exalar as virtudes do Alto, convidando-os à Vida Superior.

Com frases convincentes, esclareceu que o melro, guindando aos cimos de luz, transformar-se-ia num pombo alvo, que o abutre seria metamorfoseado numa ave celestial, que a tartaruga receberia nova forma, suave e leve, em que lhe seria possível planar na imensidão azul e que a borboleta converter-se-ia em estrela luminescente…

Os ouvintes assinalaram as promessas com emoção; no entanto, assim que o silêncio voltou a reinar, o melro alegou:

-Anjo bom, escuse-me! Um ninho espera-me no arvoredo… Meus filhotes não me entenderiam a ausência…

E afastou-se, apressado.

O abutre confessou em tom enigmático:

-Comovente é a vossa descrição do Plano Divino, entretanto, possuo interesses valiosos no mundo. Preciso voar…

E partiu, batendo as asas, a fim de arrojar-se sobre carniça próxima.

A tartaruga moveu-se lentamente e explicou:

-Quisera seguir-vos, abandonando o cárcere sob o qual me arrasto no solo, contudo, tenho meus ovos na praia…

E regressou pachorrenta, à habitação que lhe era própria.

A borboleta achegou-se ao pregador da bem-aventurança e disse delicada:

-Santo, não pode viajar convosco. Moro num tronco florido e meus parentes não me desculpariam a fuga.

E tornou à frescura do bosque.

O anjo, que não podia violentá-los, marchou sozinho, para adiante…

A borboleta, porém, apenas avançara alguns metros, na volta a casa, viu-se defrontada por hábil caçador que lhe cobiçava as asas brilhantes.

Após longa resistência, tentou alcançar a árvore em que residia, mas, perseguida, presenciou a morte de alguns dos familiares que repousavam. Chorosa, buscou refugiar-se em velha furna, sendo facilmente desalojada pelo implacável verdugo. Ensaiou, debalde, esconder-se entre velhos barcos esquecidos na areia… Tudo em vão, porque o homem tenaz era astucioso e sabia lhe frustrar todas as tentativas de defesa, armando-lhe ciladas cada vez mais inquietantes.

Quando a pobre vítima se sentia fraquejar, lembrou-se do Anjo da Libertação e voou ao encontro dele.

O mensageiro divino recebeu-a, contente, e, oferecendo-lhe asilo nos próprios braços, garantiu-lhe a salvação.

O narrador fez pequena pausa e considerou:

-O sofrimento é assim como um caçador providencial em nossas experiências. Sem ele, a Humanidade não se elevaria à renovação e ao progresso. Quem se acomoda com os planos inferiores, dificilmente consegue descortinar a Vida Mais Alta, sem o concurso da dor. Saibamos, assim, tolerar a aflição e aproveitá-la. Quando a criatura se vê na condição da borboleta aflita e desajustada, aprende a receber na Terra o socorro do céu.

Calou-se o mentor sábio, e, porque ninguém comentasse o formoso apólogo, passamos todos a refletir

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