centro espíritacaminhos do amor

Estudos
...o estudo do Espiritismo é imenso; interessa a todas as questões da metafísica e da ordem social; é um mundo que se abre diante de nós.
O Livro dos Espíritos - Introdução
O LIVRO DOS ESPÍRITOS (clique para ir no último estudo publicado)
Estudo de: Eurípedes Kühl




PALAVRAS INICIAIS

Em Out/2003, fomos convidados pelos amigos do CECA - Centro Espírita Caminhos do Amor", de Ribeirão Preto/SP, para mensalmente elaborarmos texto de análise dos temas de "O Livro dos Espíritos".

O encargo, necessariamente, é superior à nossa capacidade.

Recusar, de pronto nos acorreu.

Contudo, simultaneamente, nos lembramos de Emmanuel:

"Nossa maior gratidão para com a Doutrina dos Espíritos (O Espiritismo) será divulgá-lo...".


Por isso aceitamos a honrosa quanto difícil incumbência, dentro do princípio de participar, o quanto possível, da divulgação do Espiritismo.

Assim, com o "nosso possível", aqui estamos.


LIVRO ESPÍRITA NÚMERO UM!

Nossos pensamentos volvem a 18/4/1857, no lançamento de "O Livro dos Espíritos", pedra angular da Doutrina dos Espíritos.

Tamanha e tanta é a luz que emana dessa obra, que dela, com gratidão profunda, reverenciamos seu autor fundamental: o Mestre Jesus, eis que nela recorda aquilo que já havia dito e exemplificado, derramando ensinamentos morais, cumprindo o prometido quanto ao Consolador espiritual dos tempos modernos.

Naturalmente, Jesus incumbiu prepostos de repassarem a Allan Kardec - investigador emérito - as respostas que iluminariam a dúvida humana, consubstanciada nas reflexões filosóficas de todos os tempos: de onde vim, a que estou, para onde irei?

A essas três perguntas fundamentais da existência humana, bem como a centenas de outras, O Livro dos Espíritos responde, com lógica irretorquível. É por isso que reafirmamos:

O Livro dos Espíritos: livro espírita número um!


Antes de realizar nosso rasteiro vôo sobre as páginas de tão abençoada obra, alicerce para todas as demais obras literárias espíritas, pedimos licença aos amigos internautas para lucubrarmos sobre o "pré-Espiritismo", o que, em linhas gerais, significa passarmos em revista o mundo "pré-Allan Kardec":
  • Em Moisés, com a Bíblia, temos uma primeira revelação.

  • Jesus, sol brilhante nas almas, nos trouxe o Evangelho, que podemos considerar como a segunda revelação. Deixou-nos uma promessa...

  • Depois de Moisés e de Jesus, a História registra que a humanidade, conquanto o progresso material, mergulhou por várias vezes, em séculos que cobriram de trevas morais o progresso moral:

  • martírio dos cristãos nas arenas romanas

  • as "Cruzadas"

  • a Inquisição.


  • Então... soou a hora de um farol bendito iluminar a mente humana.


    O CONSOLADOR
    (Prometido por Jesus: João, Cap 14, v. 15 a 17 e 26)

    O Espiritismo é o Consolador prometido, que veio, no devido tempo, recordar e complementar o que Jesus ensinou, "restabelecendo todas as coisas no seu verdadeiro sentido", trazendo, dessa forma, à Humanidade, as bases reais para sua espiritualização - estávamos na segunda metade do séc. XIX;

    Para cumprir o que Jesus houvera prometido, o Espiritismo realiza:

  • conhecimento das coisas, fazendo que o homem saiba donde vem, para onde vai e por que está na Terra;

  • atrai para os verdadeiros princípios da lei de Deus e consola pela fé e pela esperança.


  • Indubitavelmente, a Doutrina dos Espíritos é a terceira revelação!


    ENSINAMENTOS ESPÍRITAS

    Complementando essa rápida volta ao passado, apresentamos (á guisa de pequeno "trailler") breve sinopse dos assuntos abordados no O Livro dos Espíritos - primeiro livro da série denominada "Obras Básicas do Espiritismo".


    Pontos Fundamentais:

  • DEUS: é a inteligência suprema e causa primária de todas as coisas. É eterno, imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente bom e justo;

  • O UNIVERSO: é criação de DEUS. Abrange todos os seres racionais e irracionais, animados e inanimados, materiais e imateriais;

  • MUNDO ESPIRITUAL: além do mundo corporal, habitação dos Espíritos encarnados (homens), existe o mundo espiritual, habitação dos Espíritos desencarnados;

  • OUTROS MUNDOS HABITADOS: No Universo há outros mundos habitados, com seres de diferentes graus de evolução: iguais, mais evoluídos e menos evoluídos do que os homens;

  • LEIS DIVINAS: todas as Leis da Natureza são leis divinas, pois que Deus é o seu autor. Perfeitas, eternas, imutáveis, abrangem:

  • a. Leis físicas - minerais;

    b. Leis naturais - vegetais;

    c. Leis da conservação das espécies: animais;

    d. Leis Morais: homens.


    Reencarnação - Vidas sucessivas

    "A doutrina da reencarnação, isto é, a que consiste em admitir para o Espírito muitas existências sucessivas:

    a. É a única que corresponde à idéia que formamos da justiça de DEUS para com os homens que se acham em condição moral inferior;

    b. É a única que pode explicar o futuro e firmar as nossas esperanças, pois que nos oferece os meios de resgatarmos os nossos erros por novas provações;

    c. A razão no-la indica e os Espíritos a ensinam"


    Jesus - Modelo e Guia

  • Jesus é o guia e modelo para toda a Humanidade;
  • A doutrina que ensinou e exemplificou é a expressão mais pura da Lei de Deus - o Amor!

  • A moral do Cristo, contida no Evangelho, é o roteiro para a evolução segura de todos os homens;

  • A prática dos ensinamentos do Mestre Jesus é a solução para todos os problemas humanos e o objetivo a ser atingido pela humanidade;

  • Lei Áurea Cristã : "Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo".


  • Livre-Arbítrio

    O homem tem livre-arbítrio para agir, mas responde pelas conseqüências de suas ações. A essa responsabilidade podemos denominar:

  • Lei de Causa e Efeito

  • Lei de Ação e Reação

  • Choque de retorno

  • Carma (expressão sânscrita) - bom ou mau.


  • Para auxiliar o homem a decidir, pelo bem ou pelo mal, quando o situou nas faixas inaugurais da razão, Deus dotou-o de:

  • Inteligência: entendimento / análise / decisão

  • Consciência: bússola infalível da direção moral a seguir

  • Livre-arbítrio: atributo individual de decidir.


  • A Prece

  • É um ato de adoração a Deus;

  • Está na Lei Natural, e é o resultado de um sentimento inato do homem, assim como é inata a idéia da existência do Criador;

  • Torna melhor o homem: aquele que ora com fervor e confiança as faz mais forte contra as tentações do mal e Deus lhe envia bons Espíritos para assisti-lo;

  • A prece é um socorro que jamais a Providência Divina se lhe recusa, quando pedido com sinceridade.


  • Princípios Espíritas

  • Toda a prática espírita é gratuita, dentro do princípio do Evangelho: "Dai de graça o que de graça recebeste";

  • O Espiritismo não impõe os seus princípios: convida os interessados em conhecê-los, a submeter os seus ensinos ao crivo da razão, antes de aceitá-los;

  • O Espiritismo respeita todas as religiões, valoriza todos os esforços para a prática do bem e trabalha pela confraternização entre todos os homens, independentemente de sua raça, cor, nacionalidade, crença, nível cultural ou social;

  • O Espiritismo reconhece que "o verdadeiro homem de bem é do que cumpre a lei de justiça, de amor e de caridade, na sua maior pureza".



    AOS AMIGOS INTERNAUTAS


    "O Livro dos Espíritos" é composto de:

  • INTRODUÇÃO

  • PROLEGÔMENOS

  • PARTE PRIMEIRA: 4 capítulos

  • PARTE SEGUNDA: 11 capítulos

  • PARTE TERCEIRA: 12 capítulos

  • PARTE QUARTA: 2 capítulos

  • CONCLUSÃO.


  • Assim, além desta primeira apresentação ("que começa pelo começo"), na próxima estaremos comentando aspectos biográficos de Allan Kardec, de forma sintética, para que já na terceira adentremos efetivamente a comentar as luzes desta sublime obra.

    Nosso pensamento para assim proceder, prioriza um singelo alicerce, para que eventuais internautas não-espíritas, que eventualmente venham a navegar nas nossas páginas, encontrem notas iniciais, indicadoras do que se trata e do que virá adiante.



    Ribeirão Preto/SP - Primavera de 2003




    KARDEC: Defensor do Espiritismo

    A data de nascimento do Espiritismo é a mesma da de Allan Kardec: 18.Abril.1857. Certidão de ambos inexistem, em termos cartorários.

    Com efeito, ninguém jamais encontrará nos registros cíveis da França o nome de Allan Kardec, e entretanto, esse personagem francês é bem conhecido pela História mundial...

    Explica-se: em 03.Outubro.1804, na cidade de Lyon (França), nasceu Hippolyte Leon Denizard Rivail, descendente de antiga família lionesa, católica, de nobres e dignas tradições. Ele se tornaria famoso pelos seus invulgares dotes morais e intelectuais, inteiramente voltados para a Educação, como professor e tradutor, além de autor de inúmeras obras pedagógicas, destinadas à instrução primária, secundária e até mesmo superior, algumas com aplicação até hoje na França.

    Aos 50 anos de idade, o Professor Hippolyte era membro efetivo de 12 (doze) associações culturais francesas — sociedades sábias. Foi por essa época que teve a atenção voltada para os espetáculos públicos das chamadas "mesas girantes e dançantes" (mesas que se erguiam nos ares, desenhavam movimentos e respondiam, por pancadas, às perguntas dos circunstantes).

    Tais espetáculos, então, eram verdadeira epidemia no mundo.

    Investigando o insólito fenômeno, seu cérebro privilegiado detectou que só por forças desconhecidas aquilo poderia acontecer: forças pensantes...

    Daí a atinar serem espíritos, que através de intermediação com encarnados "davam vida e inteligência" à matéria, foi uma brilhante dedução, tão desapercebida à maioria das pessoas, quanto simples, qual o "ovo de Colombo".

    Decidido a "pôr em pratos limpos" tais fenômenos, valendo-se do invulgar tirocínio que abrilhantava sua mente e trilhando metodologia científica, não tardou a comprovar que os chamados "mortos" viviam além-túmulo; e mais: que esses tais, em circunstâncias naturais, com intermediação de encarnados (médiuns), podiam dialogar com aqueles que ainda não tinham ido para o reino "das sombras".

    A esse intercâmbio entre o plano material e o espiritual, denominou mediunidade. Descobriu, logo, que "do lado de lá" não existiam apenas "sombras", bem ao contrário: de lá promanavam muitas luzes, permanentemente, disponíveis àqueles que concedessem à razão uma chance de comprová-lo. Ele concedeu!

    Num trabalho altamente didático, valendo-se de vários médiuns, desconhecidos entre si, formulou centenas de perguntas "aos mortos" e deles obteve resposta para todas, paralelas no conteúdo, consentâneas com a lógica.

    Com impecável pedagogia garimpou esse farto material e catalogou-o em código, daí resultando as chamadas "obras básicas" (são cinco).

    Não querendo comprometer a Doutrina dos Espíritos à sua já enaltecida carreira de homem público, houve por bem adotar o pseudônimo de Allan Kardec.

    Porém, ali se inaugurava um ciclo de grandes dificuldades para ele e esposa...


    Intolerância e perseguições (1)


    Em todos campos da atividade humana, em todos os tempos, idéias novas sempre não são aceitas "a priori", senão sim, após duros embates daqueles que as formulam, ou após a Vida diplomá-las com o selo da Verdade.

    O Espiritismo não ficou indene a tais investidas.

    Mas, como não existe força no Universo superior à "força da Razão", que será sempre vitoriosa nos embates contra aqueles que querem ter "razão à força", também as multiplicadas críticas ao Espiritismo, eivadas de injúrias e controvérsias, não resistiram. Como jamais resistirão!

    Allan Kardec codificou o Espiritismo e nele palmilhou por 12 anos.

    Foram anos difíceis, de permanentes ataques à nova ordem filosófica, bem como a ele próprio, "que não foi poupado, sequer, nos assuntos de sua vida pessoal, privada. Um escândalo que envolvesse dinheiro, riquezas, bem que serviria para ferir fundo os propósitos que o animavam, da implantação por tantos indesejada de uma Doutrina como a do Consolador prometido por Jesus. As acusações partiram de toda parte, de sacerdotes e de vários indivíduos e organizações (...) Houve até verdadeiros traidores, criaturas perturbadas e de intenções as mais sórdidas e torpes no movimento nascente, na própria Sociedade de Paris".

    Sentindo que o Alto o credenciara para tão glorioso cometimento, Kardec manteve-se intimorato, atento, "o capitão e o alferes", como ele próprio o diria, uma vez, num desabafo.

    Kardec rebateu às inúmeras ofensas ao Espiritismo (e a ele próprio), a todas, apelando sempre para o bom senso e para a lógica, clareando com o ensino dos Espíritos às mentes agressoras. Aqui, vamos elencar, com síntese, apenas alguns desagravos, mostrando como a inteligência e evolução espiritual do Codificador tornaram-no inigualável defensor do Espiritismo.

    Nosso objetivo não é remoer o passado infeliz, mas sim, pôr a descoberto para os espíritas de hoje, como Kardec é-nos modelo-defensor, a toda vez que o Espiritismo seja alvo de aleivosias, que infelizmente ainda ocorrem amiúde.

  • na Revista Espírita de Dezembro/1859, responde a um articulista que lançara o ridículo sobre a ação dos Espíritos que voluteavam mesas, sobre a "nova doutrina" (o Espiritismo), bem como e aos seus partidários dizendo-lhe:

  • (...) parece que não amais as doutrinas; cada um com seu gosto; todo o mundo não gosta da mesma coisa: somente direi que não sei muito a qual papel intelectual o homem seria reduzido se, desde que está sobre a Terra, não tivesse doutrinas que, fazendo-o refletir, o tirasse do estado passivo da brutalidade;

  • ainda na mesma Revista, Kardec assim respondeu a um sacerdote que por volta de 1859, discorrendo sobre o Espiritismo dissera que há os que em nada crêem:

  • é prudente não nos pronunciarmos com muita leviandade a respeito de coisas que não conhecemos;

  • na Revista Espírita de 1860, Kardec se expressou:

  • deixando aos nossos contraditores o triste privilégio das injúrias e das alusões ofensivas, não os seguiremos no terreno de uma controvérsia sem objetivo (...) Estudai primeiro e veremos em seguida. Temos outras coisas a fazer do que falar àqueles que não querem ouvir;


    Na Revista Espírita de Dezembro/1861, há a narração do tenebroso "Auto-de-fé de Barcelona", (Espanha), pelo qual, em 9.Outubro.1861, justamente no local onde eram executados os criminosos condenados à pena de morte, a Inquisição espanhola, representada por um padre revestido dos trajes sacerdotais próprios para o ato, tendo numa das mãos uma cruz, e na outra uma tocha, queimou em praça pública centenas de livros espíritas, dentre os quais: "O Livro dos Espíritos", "O Livro dos Médiuns", "O que é o Espiritismo", todos de Allan Kardec; coleções da "Revue Spiritualiste", redigida por Piérat; "Fragmento de Sonata", ditado pelo Espírito de Mozart ao médium Sr Bryon-Dorgeval; "Carta de um católico sobre o Espiritismo", pelo Dr. Grand, antigo vice-cônsul de França; "História de Joana D’Arc", ditada por ela mesma à Srta. Ermance Dufaux, de 14 anos de idade; e, por fim, "A realidade dos Espíritos demonstrada pela escrita direta", do barão de Guldenstubbé.

    O século não mais comportava aquela bizarra quão ridícula cena, mas a praça estava atravancada por multidão que a tudo assistia, espantada...

    Para não nos alongarmos, apenas uma frase ad hoc, de Kardec:

    Se examinarmos este processo sob o ponto de vista de suas conseqüências, desde logo vemos que todos são unânimes em dizer que nada podia ter sido mais útil para o Espiritismo.

    E como foi! No mundo todo, mentes se agitaram e buscaram avidamente conhecer o conteúdo de tão "pernicioso material" destruído naquelas "chamas salvadoras"...

    na Revista Espírita de 1862, pp.179/183, num artigo intitulado "Eis como escrevem a história!, e subintitulado "Os milhões de Allan Kardec", o mestre responde a um eclesiástico de grande cidade comercial (Lyon, provavelmente), o qual propalava existir uma fabulosa fortuna amealhada por Allan Kardec, mediante o Espiritismo. Chegava o padre V... ao disparate de dizer que Kardec pisava, em sua casa, os mais belos tapetes de Aubusson, tinha carruagem puxada por quatro cavalos e gastava principescamente em Paris. (...) Assoalhava o padre que toda a fortuna de Kardec lhe vinha da Inglaterra (?) e que ele vendia caro os manuscritos de suas obras, cobrando ainda, sobre elas, uma percentagem. E outras coisas mais, absurdas, verdadeiras sandices.

    Respondendo à história ultraleviana dos "milhões" registrou Kardec:

  • carruagem de quatro cavalos: minhas viagens, faço-as por trem;

  • vida principesca: (...) minhas refeições são bem mais magras que a magra de certos dignitários da Igreja;

  • venda de seus manuscritos: isto entra no domínio privado, onde não reconheço a quem quer que seja o direito de se imiscuir (...) se tivesse vendido meus manuscritos nada mais faria que usar do direito que todo trabalhador tem de vender o produto do seu trabalho: mas, não vendi nenhum: há mesmo os que dei pura e simplesmente no interesse da causa, e que vendem como querem sem que me caiba um soldo. Revela, ainda:

  • a primeira edição de "O Livro dos Espíritos" foi feita por minha conta e risco total, pois não encontrei editor que dela quisesse encarregar-se;

  • na Revista Espírita de Junho/1863 encontramos:


  • a. um padre considerando que "nada mais é abjeto, mais degradante, mais vazias de fundo e de atrativo na forma do que essas publicações (espíritas)", logo bradando o padre: "destruí-os, pois, com isso não perdereis nada. Com o dinheiro que se dispensa em Lyon por essas enépcias, ter-se-iam facilmente fundado alguns lugares a mais nos hospícios de alienados, atravancados depois da invasão do Espiritismo".

    Em magistral resposta, eis Kardec, enérgico, mas pacificador:

    Lede, e se isto vos convém, retornais a nós; fazemos mais, dizemos: lede o pró e o contra e comparai. Respondemos aos vossos ataques sem fel, sem animosidade, sem amargor, porque não temos cóleras.


    b. texto de antigo oficial reformado, ex-representante do povo na Assembléia Constituinte de 1848, que publicou em Argel uma brochura de calúnias, injúrias, invenções e ofensas pessoais, dirigidas ao Espiritismo e ao mestre lionês.

    Sobre a Revista Espírita, assacou: "existe uma revista mensal espírita, publicada pelo Sr. Allan Kardec, coletânea indigesta que ultrapassa de longe as lendas maravilhosas da antiguidade e da Idade Média"...

    Procurava o difamador provar que a finalidade do Espiritismo era uma gigantesca especulação. Para tanto, alinhavou uma série de cálculos absurdos, de que resultaram, para Kardec, rendimentos fabulosos que "deixavam bem para trás os "milhões" com que certo padre de Lyon (item acima) generosamente o gratificara".

    Arrematou o indigitado oficial, expondo quantias absurdas coletadas por Kardec: "se a Europa se deixar infestar, não será mais por milhões que a renda (do proprietário da Revue e soberano pontífice) se avaliará, mas sim por bilhões".

    Sem se abalar, Kardec demonstra que do balanço anual da Sociedade de Paris, apenas restaram 429 fr. 40 cent, sendo que de tudo ali jamais fora cobrado algo a quem quer que fosse. E que, ao invés dos 3.000 membros, o número não chegava a 100, dos quais apenas alguns eram pagantes (voluntários); que o que ali se arrecadava era gerido por uma comissão de despesas, sem jamais qualquer valor passar pelas mãos do presidente (ele, Kardec);

  • na Revista Espírita de Junho/1864 há a notícia de que a Sagrada Congregação do Index ,da corte de Roma, voltara suas vistas às obras de Kardec, sobre Espiritismo.

  • Assinalou Kardec:

    se uma coisa surpreendeu os espíritas, é que tal decisão não tenha sido tomada mais cedo, sendo que essa medida da Igreja, uma das que já esperava, só traria bons efeitos, e, segundo notícias por ele recebidas, a maioria das livrarias se apressaram em dar maior evidência às obras proibidas;


  • na Revista Espírita de 1869, lendo num jornal a frase "Na França o ridículo sempre mata", faz várias considerações a respeito e arremata:

  • Na França, ridículo sempre mata o que é ridículo. Isto explica porque o ridículo, derramado em profusão sobre o Espiritismo, não matou;


    Há muito mais, porém o espaço e a própria valia não o aconselham.

    - E também, apresentar outras diatribes... para quê?

    Contudo, se algum pesquisador quiser inteirar-se das incontáveis atribulações por que passou Allan Kardec, sendo ferozmente atacado por todo tipo de calúnia, há mais notas na obra da Federação Espírita Brasileira citada na nota de rodapé deste capítulo (mas essa própria obra não se alonga em tais disparates).

    Quem tiver o cuidado de percorrer a coleção da Revista Espírita se espantará, ante outros tantos absurdos e cruéis ataques desferidos contra Kardec, que a todos ripostou valente e doutrinariamente, esgrimindo sabedoria e amor, sobretudo.

    A certa altura da sua vida, disse ele, na Revista Espírita de 1865, p. 163:

    (...) jamais pedi nada a ninguém, ninguém jamais me deu algo para mim pessoalmente; nenhuma coleta de um "ceitil sequer" veio prover minhas necessidades; numa palavra, não vivo "a expensas de ninguém", pois, quanto às quantias que voluntariamente me foram confiadas no interesse do Espiritismo, nenhuma parcela foi desviada em meu proveito.

    (...) O Espiritismo foi a obra de minha vida. Dei-lhe todo o meu tempo, sacrifiquei-lhe meu repouso, minha saúde, porque diante de mim o futuro estava escrito em caracteres irrecusáveis. Eu o fiz de ´motu proprio", e minha mulher, que não é nem mais ambiciosa, nem mais interessada do que eu, aderiu plenamente aos meus intentos e me secundou na minha laboriosa tarefa.

    NOTAS
    1ª - Notas extraídas da coleção "Revista Espírita"/1858-1869 e da obra "ALLAN KARDEC – Pesquisa Biobibliográfica e Ensaios de Interpretação" (II Volume), de Zêus Wantuil e Francisco Thiesen, 1973, Ed. FEB, RJ/RJ.
    2ª - Amelie Gabrielle Boudet (1795-1883), esposa de Kardec, nos 40 anos em que esteve com Kardec, e mesmo após a morte do marido, nos 14 anos em que esteve encarnada, prosseguiu corajosamente sustentando "a obra Espiritismo", em todas as frentes de trabalho, particularmente na publicação da Revue Spirite. Nós, os espíritas do mundo todo, muito devemos a ela!

    3ª - Apenas como breve registro, vejam a barbaridade perpetrada contra a viúva de Allan Kardec, já bem idosa: teve que enfrentar a tempestade de um processo contra a Revista Espírita, devido Pierre-Gaëtan Leymarie (editor das obras de Kardec) ter acolhido o trabalho de um fotógrafo, que dizia produzir fotografias transcendentais, ou seja, ao fotografar uma pessoa, parentes e amigos, desencarnados, do fotografado, apareciam na foto.

    O fotógrafo fez um acordo com o juiz, assinou uma confissão de fraude, escapando assim da prisão. Leymarie, contudo, foi condenado e cumpriu um ano de prisão na Penitenciária de Paris.

    Intimada como testemunha, a velha senhora foi desrespeitada pelo juiz, aviltando a memória de Allan Kardec, o que provocou viva reação da viúva do Codificador, exigindo respeito à memória de seu esposo.


    * * *
    Caros internautas: perdoem-nos, se esticamos nossos comentários.

    Nosso intuito foi o de trazer Kardec para a nossa companhia nos próximos artigos, com nossos capítulos de "O Livro dos Espíritos".

    Será sempre útil conhecermos o acendrado amor que Kardec dedicou à elaboração dessa obra e as lutas que teve que porfiar em sua defesa.

    Seu exemplo não pode de maneira alguma deixar de ser seguido, sempre que idênticas ocasiões se nos apresentem, a nós, os espíritas — esse é um dever e mesmo um compromisso a que não deveremos jamais recusar ou omitir...

    Sendo o Espiritismo verdadeira bússola para nossas rotas e farol a dissipar as brumas dos nossos limites, relembrando das lutas íntimas e das defesas intransigentes daquele que o codificou, certamente nosso coração, de par com a mente, estará murmurando:

    - Kardec, Kardec: Deus lhe pague!



    CONCEITOS DE ALLAN KARDEC

    "Nascer, morrer, renascer ainda, e progredir sempre: tal é a lei!"

    "Fé inabalável só o é a que pode encarar frente a frente a razão, em todas as épocas da Humanidade"

    "Fora da Caridade não há salvação"

    "Trabalho, Solidariedade, Tolerância"

    "Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más"
    (Esta, a pedra angular da evolução moral: a AUTO-REFORMA!)




    O LIVRO DOS ESPÍRITOS
    PARTE PRIMEIRA - Das causas primárias
    CAPÍTULO I — De Deus


    Itens:
  • Deus e o infinito
  • Provas da existência de Deus
  • Atributos da Divindade

    P: “1. Que é Deus?”


    Assim perguntando aos Espíritos iluminados, Kardec iniciou o assentamento da pedra literária angular do Espiritismo — “O Livro dos Espíritos”.
    Não registrou “quem”, mas sim “que”...
    Por si só este subliminar detalhe já traz à nossa reflexão o cuidado com o qual a tarefa seria executada! Sim, porque o “quem” individualiza o sujeito da oração, ao passo que o “que” abre um leque infinito de tentativas de possibilidades de responder à questão. (“Quem” pode ser pronome interativo ou relativo; mas o “que” pode ser: pronome interrogativo, pronome relativo, advérbio, conjunção subordinativa, conjunção coordenativa, partícula expletiva, substantivo masculino e finalmente, interjeição).
    Responderam-lhe os próceres celestiais:


    —“Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas”.
    (Segundo nota da FEB – Fed.Espírita Brasileira – há traduções, além da sua, grafando “causa primeira”. A questão, esclarece, é de semântica).


    Daí em diante, o capítulo engloba mais 15 questões e respostas.
    Comentar sobre Deus é ingressar num labirinto. Não obstante, só mesmo ouvindo mais reflexões daqueles Amigos do Plano Maior, e pobremente de nossa parte, falando mais pelo sentimento do que pela razão, eis o que podemos inferir sobre Deus:


    - é eterno (sem começo ou fim)
    - é infinito (sem possibilidades de ser dimensionado)
    - é imutável (a estabilidade do Universo o prova)
    - é imaterial (sua natureza difere de toda a matéria conhecida)
    - é único (se outros similares houvesse, a unidade de decisões e a unidade de poder estariam sujeitas a diferente ordenação universal)
    - é onipotente (tudo pode: seu poder é absoluto porque é único; caso não dispusesse de soberano poder, algo poderia haver tão ou mais poderoso)
    - é onipresente (presente em todos os lugares, simultaneamente)
    - é onisciente (tudo sabe, tudo conhece: presente, passado, futuro)
    - é soberanamente justo e bom (leis divinas, naturais, irretocáveis no micro e no macro o atestam)
    - é perfeito (perfeição, aqui, no nível inigualável, o que, por si só caracteriza pureza inatingível).


    As reflexões acima são algumas das possíveis, em se considerando o conhecimento humano e sua capacidade de o expressar.
    Todos os pensadores, de todos os tempos, algo disseram sobre Deus.
    Vamos registrar pequenas lembranças nossas:


    - Moisés: No decálogo, já no primeiro mandamento são expostas notas sobre Deus; no segundo, há séria advertência para que Seu nome jamais fosse pronunciado em vão.
    - o Mestre Jesus — o maior de todos os pensadores, o Espírito mais puro jamais encarnado, referindo-se a Deus disse:


    a. “Pai Nosso que estais nos céus, santificado seja o vosso nome!” (Mateus, 6:9);
    NOTA: Allan Kardec, considerando a concisão da “Oração Dominical” elaborada pelo próprio Jesus, houve por bem acrescentar comentários após cada frase (vide “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, Cap XXVIII). Assim, à primeira frase do “Pai Nosso” (acima), adjuntou as reflexões:
    "Cremos em vós, Senhor, porque tudo revela o vosso poder e a vossa bondade! A harmonia do Universo testemunha uma sabedoria, uma prudência e uma previdência que suplantam todas as faculdades humanas; o nome de um ser soberanamente grande e sábio está inscrito em todas as obras da Criação, desde o ramo de erva e no menor inseto, até os astros que se movem no espaço; por toda parte vemos a prova de uma solicitude paternal; por isso, cego é aquele que não vos reconhece em vossas obras, orgulhoso aquele que não vos glorifica e ingrato aquele que não vos rende ações de graça."


    b. “Bom, só existe um” (Mateus, 19:17).
    c. “A Deus todas as coisas são possíveis” (Mateus, 19:26).


    - o Apóstolo João: Deus é amor! (1 João, 4:8).
    - Santo Agostinho: teria dito que, no íntimo, sentia e sabia como era Deus, contudo, se alguém pedisse para dizê-lo, aí já não saberia;
    - Leonardo Da Vinci: perguntado sobre o que pensava sobre Deus, respondeu que só podia compará-Lo assim: o Sol é a sombra d’Ele;
    - Um sábio estava na praia e um discípulo perguntou-lhe como era Deus, obtendo como resposta: “é mais fácil colocar toda a água do mar num dedal do que descrever como é Deus...”
    - Sir Isaac Newton, toda vez que pronunciava o nome de Deus, antes, tirava o chapéu, em sinal de profundo respeito;
    Ainda sobre Newton, dizem ... e talvez não passe de folclore, que estando certa vez sob a “famosa macieira” (aquela da qual certa vez, ao ver se desprender uma maçã, argutamente enunciou a “Lei da Gravidade”), perguntou a um menino:


    — "Você sabe quem fez esta maçã?"
    — "Foi Deus!!!", respondeu o menino.
    Newton, então, propôs:
    — Se você me provar que Deus existe eu lhe dou a maçã de presente...
    — E se o senhor me provar que Deus não existe, eu subo nessa macieira e apanho todas as maçãs para lhe dar... (pano rápido).


    - o Espírito Emmanuel, que para nós é um dos mais consagrados filósofos da Espiritualidade a serviço do Espiritismo, registrou: “O servidor que confia na Lei da Vida reconhece que todos os patrimônios e glórias do Universo pertencem a Deus” (mensagem n° 26, in “Fonte Viva”, 28ª Ed., 2002, FEB, Brasília/DF).
    - Eurípedes Barsanulfo: deixou-nos a prece denominada “Deus”, um poema de raríssima suavidade espiritual, do qual vamos transcrever apenas dois parágrafos:


    "O Universo é obra inteligentíssima; obra que transcende a mais genial inteligência humana; e como todo efeito inteligente tem uma causa inteligente, é forçoso inferir que a do Universo é superior a toda inteligência; é a inteligência das inteligências; a Causa das causas; a Lei das leis; o Princípio dos princípios; a Razão das razões; a Consciência das consciências; é DEUS! Nome mil vezes Santo que Newton jamais pronunciava sem se descobrir. (...)
    DEUS! Reconheço-vos eu, Senhor! com Jesus, quando ora: ‘PAI NOSSO QUE ESTAIS NOS CÉUS’... ou com os anjos quando cantam: ‘GLÓRIA A DEUS NAS ALTURAS’... Aleluia!"


    Panteísmo
    Doutrina ou crença segundo a qual tudo o que existe é identificado com Deus; e ainda uma forma de sensibilidade que vê Deus manifesto em toda a natureza: Deus seria a soma de tudo o que existe.
    Como vemos, conceituação que de forma embora vaga, algo se aproxima da resposta à primeira questão de “O Livro dos Espíritos”, acima comentada.
    Mas há um intransponível ponto de desencontro entre essa doutrina (o Panteísmo) e o Espiritismo: ao configurar Deus como um ser material e possuidor de suprema inteligência, estabelece um paralelo entre o todo (o macro: ele, Deus) e as partículas que o formam (o micro: o homem, por exemplo, uma delas).
    Esse paralelismo não resiste à menor análise, quando sabemos que a matéria se acha em contínua transformação e o homem, em infinita evolução moral...
    — Ora: como podemos imaginar um deus alterável (quanto à matéria) e em permanente escala evolutiva (no Espírito)?
    Francamente, não dá...



    O LIVRO DOS ESPÍRITOS
    PARTE PRIMEIRA - Das causas primárias
    CAPÍTULO II — Dos elementos gerais do Universo


    Conhecimento do princípio das coisas

    Este capítulo engloba vinte perguntas e respostas: n°s 17 a 36.

    Às três primeiras, prosseguem os Espíritos sem condições de respon-dê-las (tratam, em síntese, da revelação do “princípio das coisas”, cujo mistério o homem ainda não tem faculdades para compreender, mesmo porque a ciência tem limites estabelecidos por Deus).

    Embora paradoxal, justamente os homens de ciência, aqueles que mais e mais se jactanciam de enunciar e comprovar as leis da física, da química, da astronomia, da biologia, etc., são esses os que mais se aproximam da percepção da grandeza da Criação — de Deus!

    Contudo, seja por orgulho, seja por presunção, declaram não terem qualquer crença, menos ainda a concepção de um criador universal.

    O Espiritismo tem como premissa que todas as coisas emanam de Deus. Assim, Deus, espírito e a matéria, constituem a trindade univer-sal: o princípio de tudo o que existe.


    Matéria

    Só Deus sabe se a matéria existe desde sempre — a eternidade.

    Antigamente havia o conceito de que matéria era tudo aquilo que tinha densidade, consubstancialidade, peso e forma, regular ou irregular, mas sempre tangível. Vejamos a questão n° 22:


    “— Define-se geralmente a matéria como sendo o que tem extensão, o que é ca-paz de nos impressionar os sentidos, o que é impenetrável. São exatas estas definições?

    — Do vosso ponto de vista, elas o são, porque não falais senão do que conheceis. Mas a matéria existe em estados que ignorais. Pode ser, por exemplo, tão etérea e sutil, que nenhuma impressão vos cause aos sentidos. Contudo, é sempre matéria. Para vós, porém, não o seria.


    Ainda com essa questão, nós, espíritas, aprendemos que “matéria é o laço que prende o espírito; é o instrumento de que este se serve e so-bre o qual, ao mesmo tempo, exerce sua ação”.


    Espírito

    Como o princípio inteligente do Universo, para manifestar-se no âmbi-to do plano terreno, o espírito necessita de unir-se à matéria.

    Nessa união, a matéria bruta, grosseira, se junta ao fluido universal (ou universal, ou primitivo), que tem propriedades especiais e age co-mo intermediário, possibilita incontáveis combinações materiais, sob comando do espírito. Assim, o espírito “intelectualiza” a matéria!


    Propriedades da matéria

    São inúmeras as propriedades da matéria, a qual, por leis naturais e físicas, divinas, sábias, se modifica de modo a atender à organização física (e aos gostos) dos diversos seres vivos do planeta Terra.


    NOTA: Quando se pensar em “gostos”, reflitamos na bondade divina que proporciona que na Terra existam tantos sons, tantas cores, tantas frutas, tantas hortaliças, tantos grãos, tantos climas, etc. etc.

    Isso, para que ninguém venha algum dia a reclamar do agudo, porque existe o grave; do preto, porque existe o branco; do limão, porque existe a laranja lima; do jenipapo, porque existe o abacate; do jiló, já que existe o maracujá; do chuchu, já que existe a abobrinha; do quiabo, já que existe a vagem; da chicória, já que existe o almeirão; do frio, porque existe o calor; da lentilha, porque existe o feijão; e por aí vai...


    A gama de transformações e combinações materiais possíveis praticamente vai ao infinito e é justamente isso que possibilita ao homem exercitar a inteligência e tornar seu viver mais confortável.

    Como exemplo, citamos as incontáveis utilizações: do fogo, da energia potencial da água, da fissão atômica, etc. etc.


    Espaço universal

    Dimensionar o espaço universal, estabelecendo-lhe fronteiras, bem como, conceder-lhe certidão de nascimento, é absolutamente impossível ao homem, que pode, apenas, concebê-lo infinito — sem limites.

    Vácuo, por definição, seria o “espaço ocupado por coisa alguma”.

    Kardec perguntou (questão n° 36) e obteve como resposta:


    — O vácuo absoluto existe em alguma parte do Espaço universal?

    — Não, não há o vácuo. O que te parece vazio está ocupado por matéria que te escapa aos sentidos e aos instrumentos.


    Estávamos em 1857...

    A Ciência oficial tinha como verdade que entre os corpos celestes ha-via, sim, o vácuo absoluto...

    Eis que...

    Só nos fins do século XIX, início do XX, concorde com aquilo que Kar-dec registrou à já mencionada questão n° 22, foi que a existência dos átomos e das moléculas foi definitivamente aceita pela ciência.

    Aí, passou a ser “oficial” a suspeita da ciência de que o vácuo — a i-mensa área escura do espaço — estava repleto de matéria, tanto quanto um copo vazio está sempre cheio de ar.

    — Mas, como prová-lo?!


    O ESPIRITISMO E A CIÊNCIA...

    Em 1905, Albert Einstein, físico alemão (1879-1955), de paralelo com a física clássica, enuncia o conceito de fóton (quantum específico da luz) e que uma onda luminosa monocromática é formada de fótons, que têm massa de repouso nula, propagando-se no vácuo à velocida-de da luz.

    Fóton (do grego = photos, luz) : quantum específico da luz;

    Quantum (do latim = quantidade que toca a cada um em uma partilha). O plu-ral de quantum é quanta.

    Estava inaugurada a mecânica (teoria) quântica!

    A partir daí, as descobertas foram se sobrepondo, umas às outras.

    Após o reconhecimento da existência dos átomos, colocou-se a ques-tão de sua estrutura. Um primeiro modelo, baseado nos quanta (dis-positivo planetário: elétrons gravitando em torno de um núcleo) foi a-perfeiçoado, com a descoberta do nêutron, em 1930-1932.

    Elétrons e nêutrons, em termos de física, passaram a ser considera-dos como partículas subatômicas fundamentais da família dos leptons (do grego = miúdos).

    Vários são os leptons conhecidos: os elétrons, os múons, os neutrinos (nome dado a pequenos nêutrons, por Enrico Fermi, físico italiano — 1901-1954), e outros.

    Desde então, muitos físicos se debruçaram na pesquisa dos neutri-nos, talvez as partículas mais intrigantes do mundo subatômico.

    Intrigantes por possuírem propriedades misteriosas, fantasmagóricas até! Sim: são capazes de atravessar toda a Terra sem uma única coli-são... Quais se fossem fantasmas...

    Atravessam objetos sólidos, inclusive o corpo humano, felizmente sem nenhum dano. O espantoso disso tudo é que trilhões (!) deles, a cada segundo, nos atravessam! E no entanto, quando tudo, mas tudo mes-mo, indicava que não possuíssem massa, eis o que aconteceu: dando um salto de Kardec aos nossos tempos, no início de Junho de 1998, no Japão, um grupo de cento e vinte (!) cientistas, buscando entender o que pudesse ajudar a entender algo que eventualmente existisse na escuridão do universo, e principalmente tentando comprovar que os neutrinos possuem massa, realizou um experimento no observatório japonês Super-Kamiokande (nota):

    1. num tanque de aço inoxidável com 12,5 milhões de galões de água ultrapurificada (!!!), colocado 1,6 quilômetro abaixo da superfície da terra (um ambiente de estabilidade perfeita), foram instalados de-tectores de luz;

    2. observou-se que às vezes, um neutrino colide com uma molé-cula de água e produz um lampejo azul;

    3. os cientistas verificaram que os lampejos variam de intensida-de, o que significa que os neutrinos mudam de forma, logo, devem possuir massa.

    Criados a partir do processo de desagregação do núcleo do átomo, os neutrinos podem ser milhões de vezes menores do que um elétron, até hoje a partícula com menor massa conhecida. Quando visto por outra partícula em experiências de espalhamento parece como um disco de 10-38cm2.

    NOTA: Só para comparar: um elétron é visto por outro elétron (via interações magnéticas) como um disco da ordem de 10-30cm2.


    Atualmente se sabe que existem ao menos três neutrinos, cada um associado a uma partícula diferente: o neutrino do elétron, o do múon e o do tau, descoberto há três anos. E mais intrigante ainda: eles po-dem intercambiar, entre si, as formas. Marcelo Gleiser, brasileiro, físi-co mundialmente respeitado, chamou a essas trocas de formas como sendo “o samba do neutrino doido” (nota) (o carnaval se aproximava...).

    E isso ainda não é tudo: desde 1995, nos EUA, um experimento indi-cou a possível existência de um quarto neutrino, chamado de “neutrino estéril”.

    Neutrinos são forjados no centro de estrelas como o Sol, em desinte-grações de núcleos radioativos e em raios cósmicos. Em conseqüên-cia, todo o sistema solar, e particularmente a psicosfera terrena, estão saturados deles. Ora:

    — Isso não lembra o que o Espiritismo fala do fluido cósmico, em uma de suas infinitas transformações, particularmente aquela que constitui o envoltório atmosférico dos corpos celestes?

    — No caso da Terra, vindo os neutrinos do Sol, isso não parece confirmar a informação de Emmanuel (nota), sobre a formação da Terra?

    — E, em termos de envoltório sutil e etéreo da atmosfera dos corpos celestes, não é dali que os Espíritos retiram a “matéria-prima” com a qual organizam seu perispírito, para atuarem nesse corpo celeste específico, no qual irão estagiar, ora encarnados, ora desencar-nados, na longa rota evolutiva?

    — Se neutrinos contêm massa, mas são tão infinitamente pe-quenos que podem, aos trilhões, atravessar todos os corpos sólidos, isso também não lembra uma das propriedades do perispírito, que mesmo ainda sendo matéria (segundo as questões n° 93 e 94 de “O Livro dos Espíritos” e o item n° 23 do Cap XIV de “A gênese”), atravessa corpos sólidos sem a menor dificuldade e se desloca instanta-neamente a grandes distâncias?

    — A interatividade nas formas dos neutrinos, também não nos lembram as diferentes constituições perispirituais a que Kardec se re-fere, quando registrou as diferentes classes de espíritos, com as res-pectivas densidades dos perispíritos que os recobrem?

    — Essa mesma interatividade dos quatro neutrinos conhecidos, não teriam ação psicossomática naquilo que a Biologia denomina de “genoma humano” (o código da vida) — o DNA?

    NOTA: – O DNA tem quatro constituintes, e tem si escrito o código genético, na forma de pares de bases, ou letras químicas:

    A (adenina) : liga-se à T (Timina) e

    C (citosina) : liga-se à G (Guanina).


    Terminamos por aqui nossos comentários, rogando aos que nos lêem que relevem nosso pretensioso vôo rasante sobre a Ciência.

    Conquanto não temos formação de físico ou químico nuclear, nem por isso nos vemos impedidos de ao menos conjeturar.

    A propósito, rogamos, ao menos, concedam o favor da lembran-ça das palavras proféticas de Kardec e teçam suas deduções:

    Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará.

    De nossa parte, estamos testemunhando que a humildade de Kardec bem que pode ser configurada de outra forma: o tempo permi-tirá à Ciência comprovar o que os Espíritos já sabem há muito tempo...


    Notas
    1. Reportagem científica da Revista VEJA de 17.Junho.1998: O VAZIO ESTÁ CHEIO.
    2. GLEISER, Marcelo, em texto especial para o caderno “Mais” da Folha de S.Paulo, em 15.Fev.04.
    3. Espírito EMMANUEL, em “O Caminho da Luz”, psicografia de F.C.Xavier, ª Ed., 1999, FEB, Ri-o/RJ, no capítulo I, “A gênese planetária”, registra que a Terra seria “um bloco de matéria informe deslocada do Sol”, fato que hoje a ciência tem como a melhor de todas as probabilidades.


    O LIVRO DOS ESPÍRITOS
    PARTE PRIMEIRA - Das causas primárias
    CAPÍTULO III — Da Criação (questões 37 a 59)


    Formação dos mundos

    A quantidade de corpos celestes existentes, que juntos formam o Universo, é um número que foge absolutamente do conhecimento humano.

    Desde quando existem esses mundos, essa é outra incógnita cosmológica, conquanto a razão nos diga que foram criados por Deus, num tempo distante, indeterminado — e pela condensação do fluido cósmico universal, asseguraram os Espíritos a Kardec.

    Temos nos cometas o exemplo de mundos na fase inicial da sua formação, tanto quanto a astronomia já comprovou que mundos “velhos” se extinguem, dando origem a outros mundos, num processo de renovação semelhante ao dos seres vivos.

    Ganha corpo perante alguns estudiosos do Espiritismo a teoria da existência de vários universos... A vida no plano espiritual, para nós espíritas, parece ser prova cabal de que ao menos há mais um Universo.


    NOTA: Em cosmologia há um “modelo”, ou “teoria”, apelidado de BIG-BANG, especulando o estado em que se encontrava o Universo há 13 bilhões de anos, ou mais. Àquela remota época, estando temperatura e densidade extremamente altas, o modelo relativístico determinou a expansão do Universo, em um processo que lembra o de uma grande explosão; bola de fogo primordial; grande explosão (“big-bang”).


    Formação dos seres vivos

    Às questões n° 43 a 45 vemos que tão logo este planeta foi criado para aqui foram trazidos átomos em suspensão no Espaço, e mesmo de outros planetas, para serem os formadores do protoplasma — tudo isso, sob supervisão de Espíritos Siderais, cumprindo desígnios divinos;

    - por aproximadamente um bilhão de anos tais átomos foram se agregando, até formarem os germens de todos os seres vivos, que permaneceriam em estado latente, aguardando que o momento sublime da eclosão da vida os animasse;

    - a relativa acomodação dos elementos, até então sacudidos e fustigados durante mais ou menos um bilhão de anos, proporcionou que a mônada celeste (“princípio espiritual”, ou “princípio inteligente” — criação de Deus) iniciasse sua trajetória evolutiva rumo à eternidade;

    - essa a trajetória da mônada divina, indo do protoplasma à angelitude, isto é, estagiando desde o reino mineral, o vegetal, o animal, o hominal, até aportar na pátria dos Espíritos puros;

    - esse o sublime roteiro de todos os Espíritos! Todos!


    NOTA: O Espírito André Luiz, no cap. III de “Evolução em Dois Mundos”, discorre maravilhosamente sobre essa fase inicial e suas conseqüências.

    Aqui, precisamos sintetizar essa descrição:

    - em ambiente de mares mornos e de grande massa viscosa cobrindo a paisagem terrestre verte o princípio inteligente;

    - séculos e séculos, milênios e milênios se passaram, silenciosos e sucessivos, nos quais a mônada celeste pôde se exprimir através do protoplasma;

    - surgem os vírus, evidenciam-se as bactérias lavrando os minerais, são plasmadas as primeiras células, que se responsabilizariam pelas eclosões do reino vegetal, em seu início;

    - formam-se as algas, em formas unicelulares — a mônada já está em estágio superior (!)

    - em sucessão, surgem as algas verdes, pluricelulares, inaugurando-se a reprodução sexuada;

    - de sucesso em sucesso, a mônada ingressa no reino animal;

    - decorrem os milênios, com multiplicados ensaios e estágios, possibilitando à mônada, primeiro conquistar o instinto, depois a razão;

    - pelo menos um bilhão e meio de anos após, o título de homem é alcançado (!!!)


    Pois é, caros leitores: eis a nossa idade, quantificada com lógica por André Luiz: 15 milhões de séculos, ou, 1.500.000.000 de anos!


    Povoamento da Terra. Adão

    A Ciência demonstra que não seria possível que o progresso humano, comprovadamente alcançado muito antes do Cristo, se tenha realizado apenas desde os séculos que distam do mito adâmico.


    Diversidade das raças humanas

    As condições climáticas foram as condicionantes das formações das raças: para viver na África, se nasce negro para proteção contra a inclemência do sol equatorial, com cabelos encarapinhados para reter o suor e “refrigerar” o couro cabeludo; para viver na Europa, a necessidade é ter a pele branca, para melhor captar os raios ultravioleta e suprir a carência de vitamina D, com narinas estreitas, de forma a permitir o aquecimento do ar antes da chegada aos pulmões; para viver no Oriente, tem que apresentar adiposidade em torno dos olhos, com aproximação das pálpebras, com isso tendo proteção aos ventos provenientes da proximidade com as geleiras.

    E, principalmente, pelas sucessivas migrações, os povos foram se adaptando às diferentes condições climáticas.

    Por isso é que há diversidade de raças humanas, as quais se caracterizam por diferenças fisiológicas, decorrentes, como vimos, das necessárias e naturais condições físicas aos diferentes meios, nos quais tenham se agrupado e se fixado os primeiros habitantes da Terra. Considerando que tenhamos originalmente pertencido a uma única raça existente na superfície terrena, o fato é que com o aumento da população, houve dispersão de grupos que ao longo dos séculos partiram para novas paisagens, nas quais, em climas diferentes, novos ajuntamentos foram se formando.

    A miscigenação sempre esteve presente na vida.

    Dessa forma, de início, o cruzamento de indivíduos da raça-mãe, com a segunda raça, por exemplo, por si só, já terá criado uma terceira raça. E assim sucessivamente.

    Para o Espiritismo “branca”, “negra”, “amarela” etc., são raças, sem diferenças espirituais no ser humano, apenas com elementos corantes adicionados ou subtraídos pelos Espíritos “técnicos da reencarnação”, além de caracterizar pequenas particularidades físicas (cabelos, olhos, nariz, lábios, etc.) no indivíduo que deverá renascer.

    Essas particularidades dizem respeito ao meio ambiente no qual foi projetado o programa reencarnatório desse indivíduo.

    Suponhamos, por exemplo, um indivíduo que deverá nascer e viver no interior da sofrida “África Negra”: a cor da pele e os traços fisionômicos terão aquela manipulação perispiritual, para que o genoma seja consentâneo com as leis da hereditariedade, bem como da raça local de nascimento.


    Pluralidade dos mundos

    A razão nos indica que todos os mundos são habitados.

    Porém, os Espíritos disseram a Kardec que a constituição física dos outros mundos, bem como a organização, também física, dos seres que os habitam, não se assemelha à terrena e que nas imensidões siderais existem fontes de luz e de calor, além do Sol, sendo que a eletricidade, em muitos mundos, desempenha papel que o homem desconhece.


    Considerações e concordâncias bíblicas no tocante à Criação

    Quanto aos mitos bíblicos de Adão, bem como o da formação do mundo em seis dias, não resistem à menor análise, admitindo-se:

    - que Adão tenha mesmo povoado uma região ainda desabitada;

    - que o dilúvio de Noé foi uma catástrofe parcial.


    Por fim, Kardec reflete que as doutrinas e as idéias religiosas que defendem, se engrandecerão se caminharem de par com a Ciência.




    O LIVRO DOS ESPÍRITOS
    PARTE PRIMEIRA - Das causas primárias
    CAPÍTULO IV — Do princípio vital (questões 60 a 75)


    Seres orgânicos e inorgânicos
    Este capítulo é de fácil assimilação quanto ao que os Espíritos responderam a Kardec. De uma forma bastante simples eles definem os seres orgânicos como sendo aqueles que “têm vida”, vida essa, claramente perceptível e que se desdobra em nascimento, crescimento, reprodução por si mesmos e finalmente, extinção, isto é, a morte.

    Comparando a dinâmica dos seres orgânicos com a inércia dos inorgânicos, logo deduzimos que estes últimos são aqueles que aos nossos sentidos constituem a matéria em estado bruto, sem atividade própria, isto é, sem movimento. Quase podemos dizer que estão “mortos”...

    Mas não é bem assim, pois a física bem já comprovou que toda a matéria existente é composta de átomos; e estes, de um núcleo, em volta do qual circulam em órbitas cativas miríades de prótons e elétrons, carregados de energia, positiva e negativa; e mais: que no turbilhão dos átomos que formam um objeto, em cada um desses átomos, trilhões de partículas subatômicas, de infinitesimais proporções, têm também atividade incessante.

    Tal é a grandeza da Criação, a demonstrar como Deus, Inteligência Suprema do Universo se faz presente tanto no macro quanto no micro!

    É nesse ponto que o Espiritismo inaugura um novo conceito de seres orgânicos e inorgânicos, ao enunciar que são todos constituídos da mesma essência (o “fluido universal”), mas que os primeiros são aqueles que, por assim dizer, estão (durante a vida terrena) animalizados, ativados, por uma energia toda especial, que denomina de “princípio vital”, não-humana, senão sim divina (também oriunda do “fluido universal”).

    Esse princípio vital, como tudo o que existe — exceção do Espírito —, sendo uma das variantes da matéria universal modificada, desdobra-se por sua vez em outras formas, de modo a adequar-se à incontável gama de espécies de seres orgânicos existentes (homens, animais, plantas).


    A Vida e a Morte
    Ao tratar desse tema — nascer e morrer —, inexorável para todos os seres orgânicos, o Espiritismo traz à nossa compreensão, que a vida (física) inicia quando o princípio vital se une à matéria e que a morte ocorre quando esse princípio se esgota, num órgão vital ou nos demais órgãos.

    Tal conceito, obviamente verdadeiro, se reveste de amplidão, se dirigirmos o foco para os seres humanos, onde sabemos que muitas mortes ocorrem sem que os órgãos do ser estejam esgotados (caso, por exemplo, dos suicídios).

    Mas este não é foro adequado a essa ilação, que expomos tão-somente para que observemos como é impróprio radicalizar nas respostas às perguntas de Kardec. Aliás, de resto, consideramos temerário radicalizar sobre qualquer outra opinião, sobre qualquer outro assunto, seja qual seja.


    NOTA: Mais à frente, isso se tornará bem mais compreensível, bastando, por enquanto, apenas adiantarmos que o Espiritismo tem como premissa que a vida se inicia na fecundação.

    Demonstrando como o Espiritismo caminha de par em par com a Ciência, vejamos a questão n° 70 de “O Livro dos Espíritos” e a resposta:


    70. Que é feito da matéria e do princípio vital dos seres orgânicos, quando estes morrem?

    R: A matéria inerte se decompõe e vai formar novos organismos.


    (— Não foi exatamente isso que disse Antoine Laurent de Lavoisier (1743-1794), notável químico francês, ao enunciar lei da química sobre a conservação da massa: “Na natureza nada se cria e nada se perde, tudo se transforma”?).

    Complementaram os Espíritos a resposta:


    “O princípio vital volta à massa donde saiu”.


    A seguir, em longa exposição, Kardec reflete que o princípio vital se expressa por determinada quantidade de fluido vital, segundo cada ser humano ou segundo cada espécie; diz mais: esse fluido pode ser transferido, de quem tem mais para quem dele está carente (uma forma bem simples disso se dá pelo passe magnético).

    Usando de um simples exemplo, tornando definitivamente simples a compreensão da vida e da morte, Kardec compara-as a um aparelho elétrico com ou sem a energia elétrica acionada.


    Inteligência e instinto
    Definir inteligência e instinto é tarefa que corre o risco de abrir um leque de infinitas hastes, posto que muitos são os componentes de ambas as faculdades. Contudo, neste estudo, vamos nos amparar nas judiciosas reflexões de Kardec, para podermos laborar algumas reflexões sobre ambos.

    A inteligência:

    - A inteligência (contínua) é um atributo especial, outorgado por Deus ao ser quando ele ingressa no reino hominal, após seu princípio inteligente ter estagiado longamente nos reinos mineral, vegetal e animal, adquirindo inexoráveis aprendizados evolutivos, aliados a méritos que certamente conquista, a pouco e pouco.

    - Na categoria de faculdade especial, como parte integrante do Espírito, a inteligência necessita igualmente de condições especiais para poder se desenvolver e mais que isso, se expressar: a principal dessas condições é unir-se à matéria (já animalizada), para então intelectualizá-la.

    - O “quantum” de inteligência de cada ser é variável, quando considerado o momento da análise, mas na origem, face a Justiça Divina, com toda certeza o Criador dispensa absolutamente porção igual a cada um, sem exceção.

    - Para nós, espíritas, uma pessoa muito ou pouco inteligente, está a indicar que tal reflete o número acumulado de vivências, experiências e aprendizados, num ou noutro caso, na longa fieira de reencarnações que culminaram com a presente. Em outras palavras, na primeira, deduzimos que se trata de um Espírito criado bem antes desse outro — nada mais.


    NOTAS DA PSICOLOGIA, SOBRE A INTELIGÊNCIA:
    a. Há uma relação da idade mental com a idade cronológica de um indivíduo, o que estabelece o respectivo quociente de inteligência (Q.I.), expresso através de um número multiplicado por 100 (P.ex., uma criança com idade mental igual a 12 e idade cronológica igual a 10 tem um Q.I. de 120. (O Q.I. médium de um grupo de crianças representativa da população de certa idade é, por definição, igual a 100). Durante muito tempo esse conceito prevaleceu como fator decisivo na hora de um candidato ser escolhido em determinado emprego.

    b. Há poucos anos, as Empresas vêm aliando um segundo quociente ao Q.I.: o “quociente emocional” (Q.E.), determinado pela forma como um candidato se comporta diante das várias situações profissionais (relacionamento com chefes, colegas e subalternos, postura diante de crises, etc.).

    c. Mais modernamente ainda, está se incorporando um terceiro quociente aos candidatos a emprego: o S.Q. (do inglês: “spiritual quotient” = quociente espiritual). Isso mesmo: averiguação das virtudes do candidato, tais como religiosidade, fraternidade, caridade, humildade, compaixão, etc.) O S.Q. surgiu quando os cientistas, analisando como ocorrem as experiências espirituais do indivíduo, descobriram uma determinada área no cérebro, que denominaram “Ponto de Deus”!!!

    d. Concebendo-se a inteligência como a capacidade de resolver problemas, isso caracterizando a “inteligência contínua”, ou raciocínio lógico (do ser humano), da “inteligência fracionária” (dos animais), a inteligência humana permite a chamada “reversibilidade”, isto é, uma operação pode ser anulada pela sua inversa sem que essa volta ao ponto de partida a modifique ou modifique seu objeto. Por exemplo: em uma operação como A + B = C, a reversibilidade permite que o sujeito realize a operação inversa, C – B = A. Assim, as funções intelectuais alcançam um conhecimento do mundo.


    O instinto:
    - O instinto é atributo essencial à preservação do ser: nunca falha!

    - Ele se exprime na ausência de aprendizado, contudo, é, ao mesmo tempo, a principal ferramenta da inteligência, ainda embrionária nas formas rudimentares dos seres orgânicos, nos quais sua ação é quase que integralmente dominante.

    - À medida que os seres orgânicos vão palmilhando a longa fieira de experiências, que lhes vai ofertando aprendizado inconsciente, o instinto vai dando lugar à inteligência, que de início, se manifesta fragmentária.

    - Ao atingirem o grau que os credencia à ascensão ao reino hominal, os seres orgânicos, sem perderem o instinto, são então contemplados com a inteligência contínua. À medida que o Espírito progride o instinto vai se tornando cada vez mais evanescente, embora sem desaparecer de todo.

    - De posse do instinto e da inteligência, o homem tem condições de optar tanto pela prática do bem quanto do mal, decorrendo dessa opção, respectivamente, mais cedo ingressar no reino da angelitude, sendo feliz, ou retardar isso, por trilhar em descaminhos morais, mas cedo ou tarde tendo por companhia inexorável a dor, que o reconduzirá às vias conducentes à felicidade.




    O LIVRO DOS ESPÍRITOS
    PARTE SEGUNDA - Do mundo espírita ou mundo dos Espíritos
    CAPÍTULO I — Dos Espíritos (questões 76 a 131)


    Ao iniciar a parte segunda, após ter analisado meticulosamente as “causas primárias” — Deus e Seus atributos —, Kardec ingressa agora nas reflexões referentes aos Espíritos: nós!

    Nunca será demais exaltar o senso prático e o processo altamente pedagógico do Mestre lionês, empregados nesta obra, o que diz bem da sua competência, a serviço da alevantada missão que lhe foi atribuída pelos prepostos do Espírito de Verdade — Jesus!

    Este capítulo é um tanto quanto diferente dos anteriores, revestindo-se de um caráter mais “técnico”, por isso vamos apresentá-lo de forma a contemplar a essência das respostas-informações que os Espíritos prestaram a Kardec:


    Origem e natureza dos Espíritos - (questões 76 a 92)
    - pode dizer-se que são os seres inteligentes da Criação;

    - existem em todo o Universo, povoando-o;

    - tiveram princípio, mas quando e como ninguém o sabe: eis aí o mistério;

    - sua existência não tem fim;

    - são constituídos de matéria quintessenciada, extremamente etérea,

    - sua forma é qual uma chama, um clarão, ou uma centelha etérea; (observamos por esta resposta que é um equívoco se dizer ou pensar que os videntes “vêem Espíritos”; na verdade, o que vêem é o perispírito...)

    - sua coloração vai do colorido escuro e opaco a uma cor brilhante, qual o rubi, segundo maior ou menor pureza;

    - percorrem o espaço com a velocidade do pensamento;

    - têm a propriedade de irradiar: sem se dividir, enviam seus raios em várias direções.


    Perispírito - (questões 93 a 95)
    - o Espírito está sempre envolvido por uma substância vaporosa: o perispírito;

    - esse invólucro, semimaterial, é extraído do fluido universal de cada globo, que aliás é diferente, de mundo para mundo; (dessa informação talvez possamos inferir que jamais um ser humano, encarnado, terá condições de ir e mais ainda de permanecer em outro mundo... quanto aos desencarnados, a literatura espírita tem dito que existe tal possibilidade, mas nesse caso os “visitantes” estarão sempre acompanhados de Espíritos evoluídos, que lhes proporcionam tal “passaporte fluídico”, de duração episódica — apenas o tempo da visita);

    - o perispírito tem a propriedade de tomar a aparência desejada pelo Espírito; (muitas outras características do perispírito serão vistas mais à frente).


    Diferentes ordens de Espíritos / Escala espírita - (questões 96 a 113)
    Para melhor expor o pensamento de Kardec, vamos acoplar algumas informações do Cap 3 de “O Evangelho Segundo o Espiritismo” (Há muitas moradas na casa de meu Pai), apresentando abaixo um quadro sinótico, resumido:


    Ordem Classe Nível Evolutivo
    Espiritual
    Atributos Morais Mundos em
    que Residem
    1a. 1a. (Única) Espíritos Puros Ministros de DEUS
    Superioridade moral absoluta
    Celestes ou Divinos
      2a. Espíritos Superiores Ciência + Sabedoria + Bondade Felizes
      3a. Espíritos de Sabedoria Conhecimento + Juízo reto Felizes
    2a. 4a. Espíritos sábios Conhecimento voltado para questões científicas Felizes
      5a. Espíritos benévolos Bondade + Conhecimentos limitados Felizes ou de Regeneração
      6a. Espíritos batedores Aptidão para coisas materiais De Regeneração
      7a. Espíritos neutros Apego às coisas do mundo (nem bons, nem maus)  
    3a.(*) 8a. Espíritos pseudo-sábios Conhecimento + orgulho Provas e expiações (**)
    3a. 9a. Espíritos levianos Ignorância + malícia  
    3a. 10a. Espíritos impuros Inclinação para o mal  
    (*) = Estes Espíritos, propriamente falando, não formam uma classe distinta pelas suas qualidades pessoais. Podem caber em todas as classes da terceira ordem.
    (**) = A Terra está configurada nessa categoria de mundos habitados.

    Como se nota, é puramente didática a classificação acima.

    Devemos levar em conta, na apreciação do pensamento kardequiano, que tanto a classificação dos Espíritos e dos mundos nos quais habitam, contemplam sua evolução espiritual. E que, de forma alguma, esse é um sistema acabado, mas tão somente uma proposição calcada nos diversos depoimentos obtidos mediunicamente por Allan Kardec, quando da Codificação do Espiritismo, além de suas próprias reflexões.


    Progressão dos Espíritos - (questões 114 a 127)
    Os Espíritos — todos, sem exceção — foram e são criados por Deus, simples e ignorantes, com destinação à felicidade, que também todos, mais cedo ou mais tarde, alcançarão, dependendo tão-somente do esforço próprio de cada um. Para tanto, já na origem do seu ingresso no reino da razão recebem o livre-arbítrio. Exercitando a inteligência e agindo ou não pelas indicações da consciência, têm condições de optar por seus atos, no bem ou no mal. Disso decorre que, pela Lei Divina de Ação e Reação — Justiça Divina —, serão responsabilizados, adquirindo créditos ou débitos.


    Os Espíritos podem permanecer bastante tempo em descaminhos, aos quais um dia terão que abandonar e trilhar as vias do progresso moral. Quando estacionados no mal, não perdem sua individualidade nem seu nível moral é rebaixado; em outras palavras, não retrogradam. Se forem renitentes, a Bondade Divina oferta-lhes a bênção da suspensão temporária do livre-arbítrio e Espíritos Siderais lhes designam existências destinadas ao despertamento moral. Obviamente, tais existências são difíceis, por colocar o Espírito diante da própria consciência, visando que ele, por si mesmo, se arrependa e reconstrua o que haja destruído, resgatando as faltas cometidas, a par de resignação, com entendimento da Bondade Divina.

    Deve ser realçado que ninguém será mau para sempre.

    Reduzindo os termos, podemos novamente inferir que há uma “lei da inexorabili-dade”, pela qual os Espíritos calcados no mal, recalcitrantes, são compelidos — a benefício deles mesmos — a receber lições de progresso moral da melhor de todas as professoras: a dor...

    Jesus, antes que a crença nos demônios se enraizasse na cultura religiosa, afirmou em alto e bom som que do redil divino nenhuma ovelha se perderia, conforme nar-ração do Evangelista Mateus, em 18:12, pela parábola da ovelha desgarrada.


    Anjos e demônios - (questões 128 a 131)
    O ser humano vem denominando de anjos, arcanjos e serafins àqueles Espíritos que, na verdade, adquiriram o mais alto grau de pureza.

    Esses Espíritos alçaram tal posição por esforço próprio, tendo trilhado todos os caminhos do aprendizado e escalado os degraus do progresso até o topo.

    Espíritos puros já os havia antes mesmo da Terra existir!

    A concepção de demônio é absolutamente falsa, mas compreensível no nosso mundo, onde por ignorância, “criamos” seres com poderes fantásticos...

    Na realidade, “demônios” não passam de Espíritos malfazejos.




    O LIVRO DOS ESPÍRITOS
    PARTE SEGUNDA - Do mundo espírita ou mundo dos Espíritos
    CAPÍTULO II — Da encarnação dos Espíritos (questões 132 a 148)


    1. Objetivo da encarnação (questões 132 e 133)
    Ao que informaram os Espíritos, o objetivo precípuo da encarnação é proporcionar ao Espírito a via pela qual ele chegará, um dia, à perfeição possível.

    A maneira como isso acontece tem por base a Bondade de Deus, ofertando ao Espírito infinitas oportunidades de participar da obra da Criação, como co-criador — numa análise simplista, Deus oferta trabalho!

    É assim que ao criar os mundos e neles alocar os Espíritos para evoluírem o Pai concede-lhes, como graça suprema, a inefável chance de ajudar o progresso, solidarizando-se uns com os outros e com a obra da Natureza.

    Como de início todos os Espíritos são criados simples e ignorantes, o progresso de cada um depende única e exclusivamente de sua ação. Mais depressa se aproximarão de Deus, com maiores ou menores atribulações, conforme optem pela integração com as Leis Divinas.


    2. A alma (questões 134 a 146)
    Nos tempos da Codificação (1858-1869), havia intensa celeuma nos meios filosóficos, em constantes embates com os meios científicos, discursando os primeiros sobre a alma, com várias “verdades acabadas”, sendo que os segundos, apegados às pipetas, fórmulas e experiências in vitro, tudo negavam, sistematicamente.

    Simplificando a discussão, Kardec anota que “o termo alma é tão elástico que cada um o interpreta ao sabor de suas fantasias” e complementa que “o homem tem, instintivamente, a convicção de que nem tudo se lhe acaba com a vida”.

    Desde a o início de “O Livro dos Espíritos” (na Introdução, § II), Kardec frisa que o vocabulário humano é por demais precário para que a alma nele obtivesse definição cabal.

    No entretanto, para que os estudiosos do Espiritismo não se perdessem em divagações ou discussões sobre qual a melhor acepção para o termo alma, Kardec pedagogicamente registra que o emprego para facilitar o entendimento será:

    alma = Espírito encarnado

    Espírito (com E maiúsculo) = Espírito desencarnado.


    Assim, nós, espíritas, chamamos de alma ao Espírito, quando este se reveste de um corpo físico.

    Nesta oportunidade, vamos abrir um leque de reflexões sobre as informações passadas pelos Espíritos, ao responderem especificamente as questões 136.a e 136.b:


    136.a: Pode o corpo existir sem a alma?

    — Pode; (...) a vida orgânica pode animar um corpo sem alma.


    136.b: Que seria o nosso corpo, se não tivesse alma?

    — Simples massa de carne sem inteligência, tudo o que quiserdes, exceto um homem.


    Nossa especificidade sobre as respostas acima se prende ao fato de que está muito em voga hoje (2004) a discussão sobre o emprego de células-tronco, existentes no ser humano, sendo que as que formam o embrião, quando ainda na fase de blastócito, são de muito melhor emprego. Por isso, a ardente discussão entre os homens de ciência e os legisladores, isso no mundo todo.

    Células-tronco, para uso na Medicina, trouxeram à tona os questionamentos:

    — Utilizar células-tronco embrionárias ou as do próprio indivíduo? Por que não as dos embriões congelados, inexoravelmente descartados pelo casal? Ou mesmo por embriões que sejam clonados?

    No Espiritismo, obviamente, não há registro de células-tronco.

    Não obstante, o mérito de qualquer ação terá sempre alguma conotação com os ensinos de Jesus, e aí sim, encontraremos no Espiritismo, alicerce seguro para opinar.

    É assim que nós, espíritas, somos radicalmente contrários à utilização do embrião, mesmo que na fase de blastócito, com utilização de células-tronco (embrionárias), para fins de clonagem terapêutica.

    Não iremos adiantar reflexões, mas citamos apenas que pela questão n° 344 de “O Livro dos Espíritos”, a concepção inicia-se a ligação da alma ao corpo. Logo, tal procedimento constitui um aborto — crime, segundo leis da Vida e por conseguinte, diante de Deus.

    Alguém poderá argumentar que o Espiritismo esclarece que há corpos sem alma (as citadas questões n° 136.a e 136.b, acima) e assim sendo, o descarte de tais embriões, após deles serem extraídas as células-tronco, não constituiria aborto...

    Muito bem.

    Contra-argumentamos, com uma pergunta: quem, na face da Terra, pode afirmar em qual embrião inexiste a ligação de um Espírito?...

    Aliás, Deus, na Sua bondade infinita, no tempo certo (antes que tal acontecesse) já permitiu à ciência descobrir que todos os indivíduos, mesmo e principalmente os adultos, têm células-tronco em si mesmos, propiciando auto-emprego com rejeição “zero”, o que dispensa as alienígenas, vindas de embriões!

    Assim, reiteramos que células-tronco constituem, num primeiro passo, uma das bênçãos até aqui alcançadas pelas pesquisas com a clonagem, abrindo um inimaginável leque de opções na cura de doenças graves, recomposição de órgãos, etc. Bênção incalculável, sublime!

    Mas, quando falarmos de clonagem, convém frisar que de nossa parte, defendemos a clonagem terapêutica, isto é, aquela pela qual células-tronco sejam retiradas dele próprio e eventualmente sido clonadas (naturalmente, em laboratório), visando número suficiente para o processo de cura.

    De forma literal e inarredável, somos contra a clonagem terapêutica pela qual haja emprego de celulas-tronco extraídas de embriões.

    NOTA: O assunto é vasto e o espaço não comporta maiores reflexões.

    Não obstante — e, por favor, não considerem que estou apropriando este abençoado espaço para auto-promoção —, informo que no próximo mês estará à disposição na literatura espírita o nosso livro “Genética... Além da Biologia”, no qual tratamos com largueza desse e de outros temas correlatos.


    3. Materialismo (questões 147 e 148)
    Comentando as considerações dos anatomistas e seus vários conceitos referentes ao tema alma, Kardec combate o materialismo (tudo se acaba com a morte...) com grande senso de oportunidade e lógica, expondo os princípios espíritas, probantes da sobrevivência do Espírito.

    Essa postura (a do nada), põe a descoberto que o homem, na verdade, a ela se agarra pelo medo que tem do abismo que a morte abre ao ignorante do mundo espiritual.

    “Tarefa dos espíritas”, realça Kardec, será ofertar-lhes “uma âncora de salvação” (informar-lhes e prestar esclarecimentos sobre a sublime engenharia da reencarnação — vidas sucessivas —, engendrada por Deus e que contempla todos os Espíritos), o que lhes retirará da mente a perniciosa idéia do “nadismo”, bem como o medo da própria morte.



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    PARTE SEGUNDA - Do mundo espírita ou mundo dos Espíritos
    CAPÍTULO III — Da volta do Espírito, extinta a vida corpórea, à vida espiritual (questões 149 a 165)


    Preocupado em obter esclarecimentos sobre o que sucede ao homem após o fenômeno da morte — inexorável, aliás, para todos os seres vivos —, Kardec elaborou uma série de perguntas que dirigiu aos Espíritos, obtendo como respostas informações extremamente claras e que de forma alguma agridem ao bom senso.
    Este capítulo, assim, interessa a todos...
    As respectivas informações, como de resto todas as demais contidas em “O Livro dos Espíritos”, de forma alguma são imposições dogmáticas, antes, convite à razão.
    Aceitá-las, ou não, eis aí outra valiosa premissa espírita: a de que tudo aquilo que se dirigir aos escaninhos da fé, que antes seja submetido à análise, seguida de demorada reflexão e julgamento, para só então, se considerado procedente, constituir-se em verdade, já então como “fé raciocinada”.

    1. A alma após a morte; sua individualidade. Vida eterna (questões 149 a 153)
    Essas questões ensejaram aos Espíritos Instrutores proclamar que a morte não existe como grande parte da humanidade imagina, isto é, um acontecimento absolutamente misterioso, impenetrável, insondável...

    De fato, pelas respostas, que por exercício de lógica são facilmente aceitas, a morte, tanto quanto o nascimento, não passa de mudança de plano para a alma, no seu longo itinerário evolutivo, onde berço e túmulo são experiências muitas vezes repetidas.

    É de se considerar que o Espírito tem princípio, mas não terá fim, isto é, ruma para a Eternidade, tal se constituindo sublime bênção; a cada desencarnação, retorna à Pátria espiritual, sempre revestido do perispírito, que também não se desfaz, um e outro não perdendo a identidade; já quanto aos corpos físicos utilizados nas sucessivas existências corpóreas, não padece dúvida de que são transitórios, quais vestimentas da alma.


    NOTA: A propósito do perispírito, recordamos que quando tratamos dele, no Cap I da 2ª Parte, ficou estabelecido que ele é constituído de matéria cósmica do planeta no qual a alma vai reencarnar; sua duração, assim, é igual ao tempo de permanência dessa alma no longo roteiro de evolução vivenciado nesse mundo.


    O fluxo: encarnação-desencarnação-reencarnação-desencarnação..., tende assim, para repetência até um distante ponto futuro, e enquanto dura citado fluxo, opera por “solução de continuidade”, podendo ser comparado a um movimento pendular.

    Cessará tal fluxo quando o Espírito adquirir todo o conhecimento e evolução moral consentâneo com o grau moral desse mundo, ocasião em que obterá mérito para transmigrar para um mais evoluído.

    NOTA: Seres angelicais, por livre escolha e abnegação, não raramente permanecem missionariamente no mundo no qual alcançaram o passaporte para mundo mais feliz.


    A mediunidade desponta como fator decisivo como demonstrativo de que alma desencarnada (denominada Espírito) mantém a individualidade, seja pelas inúmeras comunicações verbais ou até mesmo por aparições.


    2. Separação da alma e do corpo (questões 154 a 162)
    Não há dor para a alma quando se soltam os laços que a prendem ao corpo.

    O desprendimento do perispírito é realizado gradualmente, variando em razão do quantum de desprendimento material do desencarnante: as almas mais evoluídas se desprendem mais rapidamente, qual pássaro que deixa a gaiola e voa para o céu; nas almas apegadas à matéria, os laços custam mais a se desfazerem. Isso é cristalino de entender.

    A experiência vem demonstrando que almas há que deixam o corpo físico, mesmo antes do desenlace, quando ainda há alguma vida orgânica. Talvez isso seja difícil de crer, mas à questão n° 156 é bem clara a informação:

    “(...) O corpo é a máquina que o coração põe em movimento. Existe (vida orgânica) enquanto o coração faz circular nas veias o sangue, para o que não necessita da alma”.

    Algumas almas — evoluídas —, ainda presas à vida orgânica, vislumbram o Plano Espiritual e se esforçam para que ocorra o desprendimento. Isso lhes apraz.

    A chegada da alma ao mundo espiritual pode proporcionar alegria ou constrangimento, conforme haja praticado o bem ou conscientemente o mal, posto que lá estão muito mais Espíritos do que homens aqui na Terra.

    São freqüentes os reencontros com parentes, amigos ou conhecidos, tanto quanto com inimigos, vindo todos, amigável ou negativamente, recepcionar aquele que chega...

    Mortes violentas (por acidentes, por decapitação, etc.), promovem cessação da vida orgânica e podem promover separação perispiritual, simultaneamente, tanto quanto também perda ou breve manutenção da consciência. Contudo, o desprendimento se dará com grande dificuldade em casos de morte violenta nos quais as forças vitais se mantêm por algum tempo.


    3. Perturbação espiritual (questões 163 a 165)
    A perturbação espiritual da alma que chega ao Plano espiritual, decorrente do fenômeno morte do corpo físico, variará em razão do seu grau de elevação (purificação, própria do homem de bem).

    Obviamente, o conhecimento da Doutrina dos Espíritos, será de grande valia para aquele que compreende os meandros da vida, sempre pujante, a se expressar ora no espiritual, ora no material.

    Claro é que grande maioria de nós não tem preparo suficiente para administrar, sem alguma perturbação, ou de maneira confusa, esse instante inexorável, pelo qual tantas e tantas vezes já passamos e ainda passaremos.

    Mas nós, os espíritas, que já conhecemos a mecânica divina dessas abençoadas viagens da nossa alma, temos mais é que nos conscientizar que o futuro é sempre promissora oportunidade de crescimento. E que a morte faz parte da vida (não é fácil ter presente essa concepção...).

    Aliás, ouço, desde criança, que todos, sem a menor dúvida, sabem que:

    “Na festa da vida, a morte é a convidada que jamais falta, porém, quando chega, quase sempre causa surpresa”.

    De qualquer forma, sem que isso seja pessimismo, menos ainda masoquismo, devemos estar conscientes de que mais dia, menos dia, passaremos por essa transição. Tal consciência é fundamental para que, chegado esse instante, não venhamos a incorrer na infelicidade de nos mantermos iludidos, quais ébrios em terra estranha. E pior: muita vez, onerando os que ficaram na vida física, deles nos aproximando, necessariamente trazendo-lhes perturbação, fruto da ausência de uma prece sincera a Jesus.

    Sim: o exercício diário da prece deve ser incorporado no nosso programa de vida, pois em qualquer circunstância, qual a natural perturbação decorrente da morte, ela nos trará equilíbrio e apoio da Espiritualidade amiga.



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    PARTE SEGUNDA - Do mundo espírita ou mundo dos Espíritos
    CAPÍTULO IV — Da pluralidade das existências (questões 166 a 221)


    Generalidades
    A pluralidade das existências é uma dessas “verdades ocultas” tão aparentes, de tanta lógica, de tanta exaltação à Lei de Justiça Divina, que chega a ser penoso a Humanidade não tê-la ainda incorporado à vivência humana.

    Bastaria uma simples reflexão sobre o nascimento de pessoas saudáveis, algumas nascidas em famílias riquíssimas, em contraposição a outras pessoas nascidas doentes, em famílias paupérrimas; outras tantas nascidas na Europa e com acesso integral à educação, ao passo que na sofrida “África Negra” a miséria é quase que uma constante... Surgiria a ardente questão:

    — Se somos todos filhos de Deus, onde a Justiça do Pai?


    Somente pelas vertentes e justificativas de vidas passadas a resposta será convincente.

    Aliás, é bom que se diga, data de muitos milênios a crença de alguns povos na reencarnação.

    Temos aqui um fato que nem todos os espíritas têm o cuidado de divulgar, já que poucos não são os palestrantes que em suas reflexões quase chegam a afirmar que a reencarnação é uma novidade trazida ao mundo pela Doutrina dos Espíritos (o Espiritismo), cuja codificação foi feita por Allan Kardec, tendo por pedra fundamental o “O Livro dos Espíritos”, lançado em 18.04.1857, na França.

    Não, não é: com efeito, a reencarnação é uma das premissas de antigas religiões, tais como o Hinduísmo, o Jainismo, o Budismo, etc.

    O que deve ser também registrado é que somente o Espiritismo incorporou a mediunidade à reencarnação, obtendo dessa forma, relatos dos próprios Espíritos (desencarnados), sobre essa sublime bênção que comprova o Amor, Sabedoria e Justiça de Deus. Pela reencarnação, verdadeiro mecanismo de evolução espiritual, temos todos os meios necessários ao aprendizado ininterrupto.

    Por outro lado, aquele que errou, jamais será condenado às penas eternas e sim, terá sempre “n” oportunidades de se quitar perante a própria consciência, pois pelas vidas sucessivas, irá “rasgando duplicatas assinadas no passado”, no tempo que for necessário.


    1. A reencarnação (questões 166 a 170)

    Temos aqui cinco questões que nos esclarecem que o Espírito, através das várias existências como encarnado (quando nós espíritas o chamamos de “alma”, para efeito pedagógico) vão se depurando. Na vivência corporal o Espírito se transforma e por destinação divina, tende a permanentemente a evoluir moralmente, indo de “simples e ignorante” a Espírito bem-aventurado — puro Espírito.

    Naturalmente que até atingir o ápice da perfeição possível, o ser demandará grande quantidade de existências físicas. Contudo, dependendo do procedimento de cada um, obviamente os que desde logo praticarem o Bem, na sua essência divina (segundo as sublimes lições e sugestões de Jesus), o número de experiências encarnadas será bem menor do que se tal procedimento não fosse observado.


    2. Justiça da reencarnação (questão 171)

    A reencarnação, fundamentalmente, visa a evolução do Espírito, pelo acúmulo de aprendizados, decorrentes das infinitas experiências.

    Para nós, terrestres, em paralelo, contempla o arrependimento...

    Sim, porque pela Justiça, Bondade e Amor do Pai, aquele que erra não será condenado à perdição, mas tem como fanal a salvação, arrependimento surgindo dos erros acumulados, seguindo-se trabalho de reconstrução do que tenha destruído.

    Como não poderia deixar de ser, esse roteiro redentor de reabilitação terá que ser trilhado, cedo ou tarde, fruto das lições que a própria Vida lhe ofertará, através da Lei de Ação e Reação. Lições essas, quase sempre dolorosas, conquanto sempre a caridade dos Amigos Espirituais esteja presente, arrimando aquele que se quita.


    3. Encarnação nos diferentes mundos (questões 172 a 188)

    A vida física não acontece apenas na Terra, mas em outros mundos.

    Aqui, contudo, são as existências corpóreas das mais materiais e imperfeitas...

    Vivemos muitas vezes aqui neste planeta, até que por mérito sejamos transferidos para outros, de vida mais harmoniosa; também por demérito, poderemos vivenciar experiências físicas em mundos ainda mais atrasados do que o nosso...

    Mundos são solidários entre si, isto é, um mesmo espírito poderá habitar num mundo, ir para outro, voltar àquele e até mesmo ir para novos mundos. O objetivo é evoluir, sempre!

    O espírito que evolui, às vezes, por missão, reencarna em mundos atrasados.

    A pergunta de Kardec (q. 182) de como é a vida, o corpo e o estado moral em outros mundos, ficou sem resposta. Declararam os Espíritos que tal revelação, detalhada, poderia perturbar nosso equilíbrio, posto que nem todos estamos em condições de isso compreender. Mas, de forma genérica, prestaram longa informação de como se verifica a vida física, nos diferentes mundos, consentaneamente com a evolução do Espírito. (Sugerimos leitura dessa questão, a de n° 182).

    Mundos há em que os Espíritos apenas se revestem apenas de perispírito.

    Aliás, os Espíritos puros são revestidos de envoltório tão etéreo que para nós é como se isso nem existisse.

    Uma coisa ficou bem patente nas respostas a Kardec: de mundo para mundo os envoltórios dos espíritos se modificam e que cada mundo oferta material espiritual específico para os que ali irão reencarnar. Isso parece sinalizar que a ida de um ser encarnado, e mesmo desencarnado, de um mundo para outro, encontrará barreira intransponível.

    Isso não se aplica aos Espíritos puros: têm eles a propriedade de estar qualquer mundo, no qual desejarem cumprir seu apostolado de caridade...

    NOTA: A pretendida visita a Marte, ou a outros mundos, talvez nunca possam acontecer para o homem encarnado... Nós, espíritas, temos conhecimento de que somente com o amparo e em companhia de Espíritos elevados, o homem pode, em espírito, eventualmente, visitar um outro corpo celeste e por breve tempo ali permanecer.

    A propósito de Marte, segundo os Espíritos, seria ele um mundo ainda mais atrasado do que a Terra, física e moralmente, ao passo que Júpiter seria mais adiantado do que nosso mundo; neste, estariam reencarnadas personalidades que foram conhecidas na Terra.

    Nos complementos dessas informações sobre a vida em outros mundos são tratados temas tais como a longevidade e diferente forma de computar o tempo.


    4. Transmigrações progressivas (questões 189 a 196)

    Neste subtítulo os Espíritos esclarecem que o Espírito evolui gradativamente — de simples e ignorante a anjo —, “ensaiando-se a alma para a vida”, algo assim semelhante à vida corporal, que vai do embrião à infância e desta à fase adulta.

    O Espírito em novas existências não retrograda moralmente, apenas na condição social. Aliás, todos os Espíritos são submetidos a provas, havendo aqueles que desde o início resistem às tentações do mal, apenas praticando o bem.

    Tratando-se do perispírito, ele se aperfeiçoa à medida que o Espírito vai se aperfeiçoando.

    Quanto ao corpo físico, perecível (apodrece), não é ele que influencia ao Espírito, e sim, ao contrário.


    5. Sorte das crianças após a morte (questões 197 a 199)

    O Espírito de uma criança pode ser mais adiantado do que seu pai, vez que pelas existências passadas, pode ter acumulado mais experiências e aprendizados.

    Dentro desta mesma premissa, pode ocorrer o contrário, isto é, nem sempre se poderá afirmar que uma criança tem um estado normal de inocência, eis que num corpo infantil pode estar reencarnado um Espírito de péssima índole...

    Assim, quanto ao grau de adiantamento de uma criança que morre em tenra idade, pode dar-se que o dela é até maior do que o de um adulto.

    A morte de uma criança, além de representar prova para os pais, pode também configurar que se tratou (este curto tempo de vida terrena) de um complemento a uma existência anterior, interrompida antes do término previsto (caso do suicídio, por exemplo).


    6. Sexo nos Espíritos (questões 200 a 202)

    Segundo o entendimento terreno, os Espíritos não têm sexo, havendo entre eles sintonia de sentimentos.

    Para conquistar conhecimento em tudo o Espírito reencarnará existências como homem e outras tantas como mulher, integralizando, dessa forma, o progresso que a vida física em cada sexo proporciona.


    7. Parentesco, filiação (questões 203 a 206)

    Pais dão vida física ao filho, sem nada acrescentar na constituição do Espírito dele, pois todos os Espíritos são indivisíveis.

    Pela reencarnação temos que nossos parentes não são apenas os da vida presente: isso faz com que a família de cada um de nós seja bem maior do que imaginamos...

    Deus, ao engendrar os sagrados laços familiares, formulou leis da Natureza que são deslembradas e até irreconhecidas bênçãos, para tantas pessoas que se julgam solitárias no mundo...

    Na verdade, nenhum de nós jamais está sozinho, a começar do Anjo Guardião que cada um recebe de presente da Vida.


    8. Parecenças físicas e morais (questões 207 a 217)

    O Espiritismo esclarece com muito bom senso uma questão crucial para o entendimento da herança que os pais transferem para os filhos, tanto do ponto de vista físico, quanto moral:

    - aspectos morais não são transmissíveis de alma para alma

    - a ascendência paterna pode e deve contribuir para o progresso moral do filho

    - pais virtuosos podem gerar filhos de natureza perversa, pois se o corpo deriva do corpo, o Espírito não procede do Espírito

    - pais bons, que têm filhos de má índole, isso pode significar que esses maus Espíritos (tais filhos), terão suplicado apoio para se melhorar: pediram para nascer num lar equilibrado, tendo Deus os atendido (nesse caso, contaram com a caridade do casal que os acolheu)

    - irmãos de caráter semelhante ou diferente põem à mostra que tais Espíritos têm ou não, sintonia

    - irmãos xifópagos representam similaridade quase que integral de caráter...


    NOTA: Talvez nos seja permitido refletir que tal expiação, dolorosíssima, retrate comprometedora vinculação do passado entre eles, com o ódio imantando-os de tal forma, que somente assim, pelo perdão recíproco, aprenderão a conviver em harmonia...


    - famílias, e até mesmo povos, se agrupam por analogia de pendores

    - em existências futuras o Espírito apresentará os traços morais já alcançados, o que não acontecerá com as características físicas, que nenhum traço guardam do passado.


    9. Idéias inatas (questões 218 a 221)

    Considerando a multiplicidade de existências corpóreas, o Espírito (ser individual) utilizará um corpo físico a cada uma delas.

    Esses corpos serão diferentes entre si, contudo, como o Espírito é o mesmo, é de se inferir que o conhecimento adquirido nas experiências e aprendizados vivenciados permanecerá integral, em cada uma delas — sem perdas.

    As chamadas “idéias inatas” nada mais representam do que pequenas lembranças que afloram no dia-a-dia da vida física, vindas da bagagem espiritual de outras vidas.

    Por Bondade divina, o homem não tem lembrança das vidas passadas, fato que poderia levar a Humanidade ao caos (esse tema será tratado mais adiante, no cap. VII).


    A cada nova existência o Espírito soma novas lições, novas ações (com suas conseqüências). Agirá e progredirá com base no que já tenha aprendido, no passado.

    Vidas passadas, assim, a bordo da lógica, trazem à tona a explicação para os gênios, possuidores de extraordinárias idéias, a facilidade que determinadas pessoas demonstram no aprendizado de línguas, artes, técnicas, etc.

    A existência de Deus, imanente a todos os povos, em todas as épocas, encontra explicação na vida espiritual, aquela vida no mundo invisível, de onde todos nós nos deslocamos rumo à paisagem terrestre, na busca contínua da evolução.




    O LIVRO DOS ESPÍRITOS
    PARTE SEGUNDA - Do mundo espírita ou mundo dos Espíritos
    CAPÍTULO V — Considerações sobre a pluralidade das existências (questão 222)


    A nosso ver este capítulo representa, praticamente, a pedra angular do Espiritismo — a reencarnação! Sim, pois pelos desdobramentos vivenciais da reencarnação o homem consegue aproximar-se um pouco mais do entendimento da Justiça Divina.

    Além disso, como se não bastasse tão espetacular processualística da evolução, que só mesmo a Sabedoria e Amor de Deus poderia engendrar, é por ela (a reencarnação) que se dá o intercâmbio entre o Plano Espiritual e o Plano Material.

    Aliás, no capítulo anterior, Kardec já registrara à questão 171 que todas as premissas da reencarnação se fundam na Justiça Divina.

    Agora, utilizando um capítulo inteiro, cujas considerações emanam de apenas uma questão — a de n° 222 —, o Codificador volta ao tema, com amplitude.

    (O capítulo é longo e por isso vamos tentar sintetizá-lo, sem prejuízo do seu fulcro).


    - A nós espíritas jamais acorreu proclamar que o Espiritismo teria “inventado” o dogma da reencarnação, ou mesmo que o teríamos ressuscitado da doutrina de Pitágoras. E não apenas dos gregos: também os egípcios e os hindus sabiam da volta da alma a um novo corpo físico. Com efeito, o Hinduísmo (2000 a.C.) e depois o Budismo e o Jainismo tinham a reencarnação como realidade. Na verdade, algumas distorções foram introduzidas no conceito remoto, preconizando que a alma humana, que mal procedesse, ao ter que reencarnar, para recuperar-se poderia reencarnar no corpo de um animal (metempsicose).

    - Demonstrando justeza e boa vontade para com todos, Kardec sugere a neutralidade nesse tema, de forma a que a existência terrena possa acontecer várias vezes, ou, ao contrário, apenas uma vez, daí resultando que ou a reencarnação existe, ou não existe.


    - Vejamos os desdobramentos da unicidade da existência física:

    a. se a reencarnação não existe, obviamente só há uma existência corporal e nesse caso, a alma de cada criatura humana só pode ter sido criada na ocasião do seu nascimento, pois mesmo que a alma já existisse, onde estava? Fazendo o quê? Tinha consciência? Se não tinha, não progredia e nesse caso por que foi criada para a inércia mental?

    b. havendo apenas uma vida física, como explicar, diante da Justiça Divina:

    - a aptidão extranormal de algumas crianças, para estas ou aquelas artes ou ciências, ao lado de outras crianças que já nascem com impedimentos irreversíveis?

    - por que uns nascem pobres e outros ricos?

    - por que uns nascem na Europa e outros junto a tribos indígenas?

    - o que determina à alma nascer homem ou mulher?

    - o que dizer ou pensar das crianças que nascem mortas?

    Seria Deus parcimonioso a tal grau?...

    Qual filosofia resolveria tais enigmas?


    - Reflitamos, a seguir, sobre a existência das várias vidas para a mesma alma:

    a. existindo a reencarnação, com ou sem crença dos homens, ela se processará, porque emana da vontade de Deus, como tudo o mais no Universo e nesse caso raciocinemos:

    - no nascimento, cada alma já traz consigo intuição de aprendizados anteriores;

    - tal adiantamento será meritório porque proporcional ao esforço próprio;

    - na maioria, as almas criadas há mais tempo, terão condições de apresentar maior evolução, com multiplicados estágios terrenos, ora como homem, ora mulher; ora rico, ora pobre; ora numa profissão, ora noutra, e assim por diante;

    - todas as desigualdades morais, mentais, intelectuais, sociais, econômicas, profissionais, familiares, etc. se auto-explicam, com lógica imbatível, porque alicerçada na Justiça de Deus — igualdade para com todos — e no mérito individual de cada alma (“A cada um segundo suas obras”, proclamou Jesus);

    b. sobretudo, pelo amor do Pai pelos Seus filhos — nós —, se erramos numa ou mais existências, não estaremos condenados ao “fogo eterno”, e sim, temos “n” oportunidades de ressarcimento de eventuais erros na(s) vida(s) futura(s), na senda inexorável rumo ao progresso moral, morada da felicidade, finalidade precípua para a qual fomos criados (vide questão n° 132, desta obra).


    * * *
    A propósito do tema “reencarnação”, vamos transcrever abaixo duas questões que constam do nosso livro “Genética...Além da Biologia”, Edição FONTE VIVA, BH/MG, 2004:


    — Como o Espiritismo explica que doenças graves, letais, algumas vezes se manifestam até mesmo em nascituros ou em crianças?

    — Quanto a adultos, sabemos que doenças em geral são resultantes de agressões físicas sofridas pelas células somáticas, ao longo da vida do indivíduo, daí resultando desarranjos no genoma (em células específicas da área física injuriada). No câncer, por exemplo, essas células são induzidas a se reproduzirem descontroladamente, numa “clonagem indesejável”.

    Inserimos aqui, como conjetura, que além das auto-agressões ao corpo, há o contexto espiritual, pelo qual o transgressor das leis morais, por atos de intemperança, agride também ao seu perispírito, mentalmente, por reverberação, com reflexos danosos nos vários departamentos do seu corpo, os quais evidenciarão repercussões infelizes, via de regra, em existências futuras.

    Essa é uma explicação que trilha pela lógica e pela Justiça Divina e que pode perfeitamente justificar o surgimento de doenças graves em pessoas (bebês, crianças ou adultos) que na atual existência nenhuma transgressão tenham cometido.

    Nós, espíritas, acreditamos que tais agressões formam as chamadas “matrizes psíquicas” no DNA das células, de onde, naquela existência ou quase sempre em outra futura, poderá eclodir uma deficiência física ou mental, como por exemplo, o câncer ou o mongolismo.

    Estamos, com isso, lucubrando sim, que o DNA tem sua matriz no astral e que passa de reencarnação para reencarnação. Arrima-nos o saudoso Prof Carlos Torres Pastorino, na sua (infelizmente esgotada) monumental obra “Técnicas da Mediunidade” (Ensaio), p. 135, item: “A bioquímica comprova a Lei do Carma”.

    Por fim, reduzindo os termos, temos que as doenças graves, na verdade, além de constituírem purificação orgânica, na maioria dos casos espelham purificação espiritual.

    Mas, ninguém que tenha sido alcançado pela dureza do sofrimento deve permitir que isso lhe roube o sabor sutil da feliz essência que é estar vivo.


    Comprovante científico da Reencarnação (!)

    Roubando parte do tempo dos leitores, vamos inserir aqui uma humilde conjetura, que nem mesmo pode ser considerada como um “ensaio”, sobre uma eventual forma de comprovar a reencarnação.

    Dirigimos essa conjetura a dois consagrados espíritas e os mesmos, conquanto a considerassem viável, sugeriram que fosse encaminhada à Federação Espírita Brasileira, o que fizemos.

    Estamos aguardando pronunciamento daquela abençoada Instituição.

    Sem mais demora, eis o que matutamos:


    - Ao escrevermos o livro GENÉTICA E ESPIRITISMO, editado em 1996 pela F.E.B., no item “DNA e Reencarnação”, às pp. 34-40, reproduzimos várias informações sobre a imortalidade da parte astral do DNA. Daí ficamos a imaginar a proposição que, talvez, pelas estruturas dos genes e particularmente do DNA (via genoma), a Ciência possa definitivamente comprovar a reencarnação “in vitro”, isto é, pelo método laboratorial de pesquisa, comprobatório, irrefutável e universal.

    Para tanto, necessário seria colher material de alguém desencarnado e comparar esse DNA, com o de alguém que, hoje, reencarnado, seja supostamente aquele indivíduo.

    Apenas como exemplo: há em Uberaba/MG, o Hospital do Fogo Selvagem, onde tempos atrás, em visita, o nosso Chico Xavier confidenciou que um dos internos era a reencarnação de um personagem (famoso quanto infeliz) da 2ª Guerra Mundial...

    Depois disso, até temos na literatura espírita um livro de famoso jornalista carioca, que afirma ter sido personagem da “revolução francesa”.

    Se fosse possível oficialmente coletar um fio de cabelo dos despojos de ao menos um desses personagens e compará-lo com o DNA dos ora encarnados, quem sabe seriam coincidentes...? Lembro que há alguns anos, nos EUA, foi examinado um fio de cabelo de Lincoln e afirmou-se que ele sofria de doença respiratória, fato que nem todos os biógrafos do grande Presidente norte-americano registraram.

    Assim, isso de coletar DNA de vultos históricos não será novidade, nem profanação. Seria, a meu ver, o casamento ideal do ESPIRITISMO com a CIÊNCIA, preconizado por Kardec e defendido por Einstein.

    Sabendo caríssima tal pesquisa, imaginamos que só mesmo poderia realizá-la alguma Entidade Científica (Fundação, Faculdade, etc).

    A bem da verdade: nossa lucubração sobre o DNA-imortal, como elemento probante terreno/científico da reencarnação, deriva-se e se escora na já citada obra de TORRES PASTORINO (Técnicas da Mediunidade), quando aventou (como ensaio) que o DNA comprova o karma...



    O LIVRO DOS ESPÍRITOS
    PARTE SEGUNDA - Do mundo espírita ou mundo dos Espíritos
    CAPÍTULO VI — Da vida espírita (questões 223 a 329)


    Interessante: o capítulo anterior era formado de apenas uma questão, ao passo que este tem mais de 100 (cem) questões, o que bem demonstra a importância que a ele Kardec conferiu. Não que o anterior ou qualquer outro não tivesse importância, mas é que este, pelo que se nota, se reveste mesmo de maior transcendentalidade.

    Atualmente os espíritas têm à sua disposição milhares(!) de obras relatando detalhes da vida espiritual.

    — Quantos teriam se detido a perquirir as dificuldades encontradas pelo Codificador, no meio do século XIX, para elaborar perguntas aos Espíritos, concatenar as respostas dos vários médiuns e com a massa de informações à mão, filtrá-la o suficiente para que, codificando-a, lançasse ao futuro tão valiosas sementes?

    Dizemos sementes porque, rigorosamente, todos os livros que hoje constituem a literatura espírita propriamente dita, isto é, pós-Kardec, nele têm respaldo, dele guardam as premissas — mormente, quando a ação se desenrola no Plano Espiritual.

    É verdade que algumas obras, quais muitas que o inolvidável Chico Xavier psicografou, ao tratar de como é a vida “do lado de lá”, acrescentaram notícias e informações inéditas. É verdade. Mas Kardec, especialmente aqui, desponta como o pioneiro de uma sublime era: a chegada à Terra do Consolador prometido — a Doutrina dos Espíritos. Consolando e instruindo, o Espiritismo particulariza o que acontece quando o encarnado transpõe a inexorável fronteira terrena e adentra na espiritual, onde continuará vivendo...

    Como se vê, há neste capítulo informações imperdíveis para todos os encarnados!

    Feitas as primeiras reflexões, vamos resumir o que os Espíritos enunciaram a Kardec sobre como é a vida espírita:

    OBS: Por oportuno, registramos que não se aplicam para os Espíritos puros todas as reflexões seguintes, pois sua evolução moral situa-os muito além das proposições humanas. Basta dizer, como exemplo, que vêem e compreendem a Deus(!), segundo a questão n° 11, deste livro.


    1. Espíritos errantes (questões 223 a 233)
    Desencarnada, a alma passa a ser Espírito errante, havendo-os de todos os graus evolutivos. Quando se diz Espírito errante se está referindo ao Espírito desencarnado, isto é, que está temporariamente na “erraticidade” e que deverá reencarnar, a breve ou longo tempo. Espíritos puros não são Espíritos errantes.

    Após a desencarnação o Espírito pode reencarnar imediatamente ou demorar longo intervalo. Tais períodos são, às vezes, “desde algumas horas até alguns milhares de séculos”.

    Sempre progridem os Espíritos errantes, ouvindo, aprendendo e ao se darem conta de suas imperfeições, buscam a vida corporal para nela colocarem em prática o aprendizado.


    2. Mundos transitórios (questões 234 a 236)
    Mundos transitórios têm superfície estéril, inadequada à vida terrena, mas propícia aos seres incorpóreos, que de nada precisam. São mundos para estágios dos Espíritos errantes, que ali se refazem, habitando-os temporariamente.

    A Terra, nos seus primórdios, foi um mundo transitório.


    3. Percepções, sensações e sofrimentos dos Espíritos (questões 237 a 256)
    O Espírito desencarnado conserva as mesmas sensações terrenas, acrescidas de outras, pois a perda do invólucro carnal dá-lhe maior liberdade: a visão, por exemplo, reside toda nele e não apenas no equipamento ótico; tem luz própria e por isso para ele não há treva, exclusive quando em expiação. Perde a noção terrena do tempo cronológico, já que na Espiritualidade outras são as condições existenciais, quando a própria memória faz incursões no passado.

    Dependendo do seu adiantamento, os Espíritos errantes são sensíveis à música e às belezas da Natureza, que no plano extrafísico são superiores ao físico. O repouso, para eles, ocorre em razão de cansaço, mas sim para dar trégua aos pensamentos, que temporariamente ficam menos ativos.

    Sentir angústias morais e dor, fome, frio, calor, etc., constituem reminiscências da vida terrena dos Espíritos errantes involuídos, sendo que tais impressões só residem em suas mentes.


    4. Ensaio teórico da sensação nos Espíritos (questão 257)
    A presente questão, quer nos parecer, é que mais espaço ocupa em “O Livro dos Espíritos” (6 páginas, em fonte reduzida).

    Aqui Kardec discorre longamente sobre a dor que se manifesta no corpo (físico), lucubrando que o perispírito é o agente principal das sensações exteriores.

    Adverte o Mestre lionês para que não se confunda sensações do perispírito com as do corpo. Estas últimas servem apenas como parâmetro, jamais por analogia, isto é, as impressões de dor ou de desconforto que o perispírito do Espírito errante registra fazem parte de um vago sentimento íntimo, sendo mais uma reminiscência do que uma realidade. Numa palavra: é uma impressão que se materializa, fato que poderia perfeitamente não ocorrer...

    Cita como exemplo o caso dos suicidas, nos quais permanece incompleta a separação do corpo ao perispírito, causando repercussão neste, daquilo que acontece com os despojos. (Essa é, talvez, de todas as infelicidades, a maior: o suicida ficar preso à desintegração dos despojos carnais, testemunhando que a vida continua...).

    OBS: Um elementar exemplo pode nos fazer compreender que a sede das sensações é mesmo o perispírito, pois em duas situações com encarnados isso resta comprovado:


    a. a ação da anestesia num paciente desloca, respectivamente, por um período de tempo, a contraparte astral na região ou, se a anestesia for total, todo o perispírito, permanecendo este, contudo, ligado ao corpo físico pelo cordão fluídico, pois do contrário ocorreria a morte;

    b. em várias situações de coma, ao cessar tal estado alterado, o paciente narra que nada sentiu com referência a vários procedimentos médicos realizados até mesmo sem anestesia e há casos em que, desdobrado, “assiste” tais procedimentos.

    Neste capítulo Kardec relembra que o perispírito é retirado da psicosfera do mundo em que o Espírito irá reencarnar.

    Finalizando tão oportunas ilações dessa única questão, retransmitimos o que Kardec disse sobre suas pesquisas junto a milhares de Espíritos desencarnados:

    “(...) Notamos sempre que os sofrimentos guardavam relação com o proceder que eles tiveram e cujas conseqüências experimentavam; que a outra vida é fonte de inefável ventura para os que seguiram o bom caminho. Deduz-se daí que, aos que sofrem, isso acontece porque o quiseram; que, portanto, só de si mesmos se devem queixar, quer no outro mundo, quer neste.”


    5. Escolha das provas (questões 258 a 273)
    Antecedendo à reencarnação, o Espírito pode escolher o gênero de provas a que será submetido. Isso devido ao seu livre-arbítrio. Quando reencarnar, o que suceder, nem sempre terá sido escolhido por ele, pois ninguém pode prever o futuro. Muitos acontecimentos surgem de atos do dia-a-dia. As primeiras existências do homem são “monitoradas” por Espíritos protetores e à medida que ele evolui, seu livre-arbítrio mais se dilata. Há existências que podem ser impostas, pelas Leis Divinas, isso estritamente em favor do Espírito mergulhado em erros. Essa imposição funciona qual freio em prolongadas existências aplicadas ao mal. Nascer entre viciados, ricos, ladrões, etc., representa dura provação a que o Espírito será submetido, isto é, aproximar-se desse clima, sem dele fazer parte. Aliás, até depois de reencarnar, o Espírito pode influenciar na escolha de suas provações.

    OBS: À questão 272 Kardec comenta “a ferocidade dentro da civilização” de alguns homens... Nos nossos dias, em que o terrorismo internacional vem realizando atos de incrível barbárie, parece que os terroristas procedem de mundos inferiores à Terra. Estão tendo sua oportunidade de evolução e estão desperdiçando-a. Pelos ensinamentos dos Espíritos, sobre a Lei do Progresso, retornarão eles aos mundos de onde vieram, ou a outros ainda mais primitivos, nos quais ainda não há a civilização, que ajudarão a erguer, no trabalho dos milênios. Ademais, esticando nossas reflexões, podemos seguramente imaginar que os terroristas-suicidas da atualidade, ao desembarcarem no Plano Espiritual, não encontrarão as benesses que lhes foram prometidas como prêmio. Ao contrário, estagiarão em dolorosos e prolongados períodos, pelas paisagens umbralinas. Aí, seus Espíritos, tomando ciência das dores causadas a tantos pelo seu ato infeliz, terão fortemente impressas em seus perispíritos as “matrizes psíquicas” de tão grande equívoco. Numa próxima existência, esse atavismo (ensinamentos duramente adquiridos através a pedagogia da dor, a mais eficiente de todas as professoras), por certo será poderoso desestimulo à repetição de erros tão nefandos.

    Por tudo isso, talvez nos seja permitido supor que antes do término do século XXI, o atual cenário de turbulência internacional desaparecerá da face da Terra... Nesse futuro, o planeta já estará mais próximo do estado de regeneração. E que os terroristas, em outros mundos ou aqui mesmo, estarão recebendo ou já receberam as duras, mas proveitosas lições no Plano Espiritual. Sem citarmos países, todos sabemos de bolsões de generalizada e extrema pobreza, onde a mortalidade infantil se mostra cruel aos olhos dos homens. Contudo, vista da Espiritualidade protetora, a vida física curta quase sempre sinaliza bênção para refazimento de perispíritos altamente danificados, seja de espíritos endurecidos, empedernidos ou malvados, ou, no caso das explosões do próprio corpo físico, com objetivo de matar inimigos.


    6. Relações de além-túmulo (questões 274 a 290)
    No Plano Espiritual a autoridade moral é irresistível. Lá, inclusive, predomina a afinidade e os Espíritos da mesma categoria reúnem-se em famílias ou grupos.

    Espíritos “pequenos” na Terra, quando desencarnados, podem ser elevados...

    Os bons Espíritos podem ir a toda parte, já os menos elevados sofrem restrições.

    Os Espíritos se comunicam pelo fluido universal, que transmite o pensamento, o qual não pode ser disfarçado.

    Ao desencarnar, o Espírito quase sempre tem alguém à sua espera: se justo, os que o amam se confraternizam com seu regresso; já os Espíritos pouco evoluídos, igualmente encontrarão desafetos ou inimigos aguardando-o, para ajuste de contas...


    7.Relações simpáticas e antipáticas dos Espíritos. Metades eternas. (questões 291 a 303)
    Espíritos sentem afeições ou ódio, segundo tenham ou não elevação moral.

    Muitas animosidades, no Plano Espiritual se desfazem logo, pois os Espíritos compreendem que tudo não passou de tolices ou melindres, recíprocos.

    Não existe metade de Espírito (nem eterna, nem temporária...). A expressão “alma gêmea”, empregada por alguns, é absolutamente imprópria. Pode, sim, haver simpatia entre dois Espíritos, mas a tendência evolucionista espiritual fará com que o amor seja universal — de todos para todos e tudo —, jamais particularizado.


    8. Lembrança da existência corporal (questões 304 a 319)
    Desencarnado, aos poucos o Espírito vai tendo acesso a recordações e particularidades de algumas vidas passadas. As existências primitivas se perdem na noite do esquecimento. O corpo físico que acaba de deixar passa a ser considerado como uma veste incômoda que o molestava.

    OBS: Aqui, a expressão “veste incômoda que o molestava”, deve ser vista como símbolo da liberdade do Espírito, pela morte física, semelhante ao pássaro que deixa a gaiola. Na verdade, o corpo físico é invólucro maravilhoso, engendrado por Deus, inapreciável bênção para que o Espírito consiga realizar seu progresso moral.

    Quanto mais evoluído for o Espírito, ao desencarnar menos memória terá dos seus pertences materiais. Trabalhos de arte ou literatura interrompidos pela morte não são alvo de lamento ao Espírito que compreende que serão completados ou refeitos por outros Espíritos, encarnados.


    9. Comemoração dos mortos. Funerais. (questões 320 a 329)
    Para nós, espíritas, o “Dia de Finados” não representa necessariamente um marco, conquanto mereça nosso maior respeito, tanto pelos encarnados que a ele se devotam, quanto pelos desencarnados, que nele são alvo de gestos de saudade e amor.

    Não desconhecemos que a maioria dos Espíritos desencarnados, egressos desse nosso mundo de provas e expiações, apreciam a lembrança que naquele dia lhe dedicam os parentes e amigos, junto aos respectivos túmulos, fato que os alegra e lhes causa bem-estar.

    Contudo, sem a dimensão de data ou lugar, entendemos e sentimos que a prece santifica a lembrança e assim, todos os dias, onde quer que seja, uma prece sincera dirigida ao ente que partiu será a melhor de todas as demonstrações de carinho, amizade e amor que lhe devotamos.

    Encerrando este longo capítulo Kardec comenta que estátuas ou monumentos erguidos em memória de alguns vultos não lhes agradam tanto como à lembrança.

    Algumas vezes o Espírito assiste ao próprio enterro, outras vezes fica perturbado; quase sempre assiste à reunião dos seus herdeiros e aí julga qual a consideração que tinham por ele; nesses momentos, a cobiça dos que ficaram costuma produzir decepções naquele que partiu...



    O LIVRO DOS ESPÍRITOS
    PARTE SEGUNDA - Do mundo espírita ou mundo dos Espíritos
    CAPÍTULO VII — Da volta do Espírito à vida corporal - (questões 330 a 399)


    Já estudamos o “O Livro dos Espíritos” várias vezes, ora em particular, ora em grupo, ora num determinado tema, ora a obra inteira...

    O médium Divaldo Franco, ao que sabemos, foi o primeiro espírita a declarar, alto e bom som, já ter lido dezenas de vezes essa obra e que, no entanto, a cada releitura, novos aprendizados vai colhendo...

    Estamos iniciando assim nossas reflexões para igualmente dizer que é impressionante a atualidade desse sublime livro, pois não é que agora estaremos nos deparando com temas ligados às atualíssimas descobertas da biologia molecular (biogenética)?

    Senão, vejamos o que este capítulo nos oferta:


    1. Prelúdio da volta (questões 330 a 343)
    Todos os Espíritos, como, aliás, todos os seres vivos, estão inexoravelmente destinados à evolução. Disso não há duvidar. Os Espíritos desencarnados pressentem a chegada da hora de retornar às lides físicas, assim como um cego se aproxima de uma fogueira e sente o calor. A junção espírito-corpo é atribuição de Espíritos elevadíssimos, sendo que o reencarnante, em razão do seu progresso e do decorrente merecimento, pode sugerir esta ou aquela particularidade física. O atendimento à sua pretensão está diretamente vinculado ao seu passivo espiritual (débitos/créditos) e os fatos mais importantes da futura existência terrena constituem o chamado “programa reencarnatório”. Esse programa não é um trilho — é uma trilha —, eis que o livre-arbítrio do Espírito pode modificá-lo, para melhor, ou , infelizmente, para pior...

    É lógica a dedução que Espíritos muito atrasados não têm condições sequer de pedir ou pensar em detalhes da própria reencarnação. Nesse caso, os Espíritos bondosos, disso encarregados, elaboram referido programa por ele, invariavelmente atendendo às melhores e possíveis condições de executá-lo.

    Num sentido figurado podemos refletir que nascer na Terra corresponde a morrer, no Plano Espiritual, algo assim como sair da liberdade e ingressar na escravidão.


    2. União da alma e do corpo. Aborto (questões 344 a 360)
    Eis aqui uma transcendental informação dos Espíritos Superiores (questão 344):

    “A união começa na concepção, mas só se completa por ocasião do nascimento. Desde o instante da concepção, o Espírito designado para habitar certo corpo a este se liga por um laço fluídico, que cada vez mais se vai apertando até ao instante em que a criança vê a luz”. Durante a gestação o feto não tem, propriamente falando, uma alma, não obstante encontrar-se ligado à alma que virá a possuir.

    Mortes prematuras evidenciam imperfeições da matéria. Quase sempre constituem provas para os pais.

    OBS: Nessa questão de mortes prematuras, ou mesmo de mortes de crianças com pouca idade, é ensinamento espírita que em alguns casos isso constitui reconstituição do perispírito que tenha sofrido lesão grave, com desagregação parcial, decorrente, por exemplo, nos casos de suicídio, quando o corpo é destroçado por veículos pesados; ou numa outra hipótese, quando o Espírito de tal forma promoveu maldades, que sua vestimenta perispiritual se danifica seriamente.

    Nesses casos, no período da gestação, o incomparável auxílio psicodinâmico maternal já estará proporcionando início da citada recuperação. Como vemos, de todo mal Deus tira um bem!

    Da concepção ao nascimento, a maioria dos Espíritos se iguala àquele que dorme; depois, ao despertar, só aos poucos recobra a consciência (da tenra idade à fase plena da consciência).


    3. Faculdades morais e intelectuais do homem (questões 361 a 366)
    Boas qualidades morais evidenciam um Espírito evoluído; más, um Espírito com pouca evolução moral. Homens inteligentes há que não têm evolução moral, mas como todos progridem, também eles, um dia, serão bons.


    4. Influência do organismo (questões 367 a 370)
    A matéria, de certa forma, cerceia a liberdade do Espírito, mas não lhe retira nenhuma faculdade que lhe seja própria. Predisposição e situação dos órgãos físicos de cada ser evidenciam efeito, cuja causa necessariamente só pode estar em vidas passadas. Isso se refere mais a dificuldades físicas. Nada objeta, porém, que Espíritos adiantados aceitem, como missão, reencarnar com essa ou aquela deficiência.


    5. Idiotismo e loucura (questões 371 a 378)
    Longe de espelhar natureza inferior, a alma dos seres com deficiências cérebro-mentais até evidenciam Espírito de grande inteligência, em provável resgate de mau emprego dela. Podem ser comparados a um excelente músico que só dispõe de um instrumento defeituoso — permanece músico excelente, mas não produzirá boa música... Essas expiações lhes são benéficas por imporem temporário impedimento de novas quedas, ao tempo que proporcionam tempo para novas disposições.


    6. A infância (questões 379 a 385)
    É engano pensar que as crianças têm Espírito mais novo do que o dos adultos, pois, não raro, dá-se o contrário. O organismo infantil, pela engenharia divina, é que oferece obstáculo à manifestação plena do potencial espiritual da criança.

    A infância pode ser comparada a um período de repouso para o Espírito, que nada tem de se preocupar, atribuição essa dos pais. Aliás, é na fase infantil que o Espírito se torna delicado, brando e acessível a novas impressões — obrigação dos pais — tendentes a lhe proporcionar mais adiantamento.


    7. Simpatia e antipatia terrenas (questões 386 a 391)
    Conquanto não se reconheçam, não é raro dois seres se encontrarem e de imediato sentirem simpatia ou antipatia, recíprocas, isso evidenciando circunstâncias de vidas anteriores. Por outro lado, nada impede que haja simpatia/antipatia em Espíritos que não se conheçam, tão logo se aproximem: impera aí, em ambos, a sintonia ou repulsa fluídica, segundo o patamar vibracional de cada um.


    8. Esquecimento do passado (questões 392 a 399)
    Benção das bênçãos divinas, o esquecimento do passado tem sido freqüentemente deslembrada pelos homens, muitos dos quais buscam mergulhar no passado, através a chamada TVP — Terapia de Vidas Passadas...

    Ouçamos Kardec:

    “Gravíssimos inconvenientes teria o nos lembrarmos das nossas individualidades anteriores. Em certos casos, humilhar-nos-ia sobremaneira. Em outros nos exaltaria o orgulho, peando-nos, em conseqüência, o livre-arbítrio. Para nos melhorarmos, dá-nos Deus exatamente o que nos é necessário e basta: a voz da consciência e os pendores instintivos. Priva-nos do que nos prejudicaria.”

    Aliás, amiúde é possível o próprio indivíduo conhecer o que foi: aquele que vivencia determinada expiação, por si só infere sobre o gênero de sua(s) existência(s) anterior(es). Isso, porém, não pode ser tido à conta de regra absoluta. As tendências instintivas são o meio mais seguro para essa auto-radiografia do nosso passado...

    Como simples roteiro, nada absoluto, das vicissitudes e das provas que sofre o indivíduo ele pode alcançar esclarecimento acerca do que foi... Por exemplo:

    - o orgulhoso será castigado no seu orgulho, mediante a humilhação de uma existência subalterna;

    - o mau-rico (avarento), pela miséria;

    - o que foi cruel para os outros, pelas crueldades sofrerá;

    - o tirano, pela escravidão;

    - o mau filho, pela ingratidão de seus filhos;

    - o preguiçoso, por um trabalho forçado;

    - etc.



    O LIVRO DOS ESPÍRITOS
    PARTE SEGUNDA - Do mundo espírita ou mundo dos Espíritos
    CAPÍTULO VIII — Da emancipação da alma - (questões 400 a 455)


    Kardec ousa bastante neste capítulo ao pesquisar o transcendental mecanismo pelo qual o ser — o Espírito imortal — se desdobra em situações ora rotineiras (sono/sonhos), ora anormais (letargia, catalepsia, etc.).

    Ousa porque vai além: indaga dos Espíritos que o arrimaram na Codificação do Espiritismo, o que, exatamente, ocorre com a alma, nessas ocasiões.

    As respostas deixaram entrever, em síntese, que:


    8.1 – O sono e os sonhos - (questões 400 a 412)

    - o Espírito encarnado sente o invólucro físico como uma roupagem grosseira, da qual gostaria de logo se ver livre...

    - no sono o Espírito se lança no espaço e vai ao encontro de outros Espíritos; tal evento é similar ao sentido durante algum tempo após a morte;

    - pelos sonhos podemos inferir que os Espíritos têm mais aguçados os sentidos; há atração, seja entre afetos e desafetos, segundo a prioridade subconsciente daquele que mantém vivas em sua memória, amizades ou inimizades, geralmente de vidas passadas;

    - Espíritos superiores, pelo sono, desligam-se da matéria e se relacionam com seus pares na Espiritualidade;

    - pesadelos sinalizam encontros com Espíritos maléficos;

    OBS: Na resposta à questão 402 está registrado que eventualmente o Espírito clarividente chega até a vislumbrar fatos e paisagens de outros mundos.

    - as preocupações da vigília, quase sempre, determinam nossos sonhos;

    - às vezes, a atividade do Espírito emancipado do corpo físico, pode onerar este, qual balão cativo ao poste que ao oscilar nele produz vibrações.


    8.2 – Visitas espíritas entre pessoas vivas - (questões 413 a 418)

    - o capítulo trata da emancipação da alma — de encarnados — e neste sub-item o que temos é a auspiciosa informação de que pessoas que estão dormindo podem se encontrar no Plano espiritual e que isso acontece amiúde;

    - embora Kardec focalize apenas encontros entre amigos, nada objeta de inferirmos que o mesmo processo se dá entre inimigos...

    - várias pessoas que no passado se relacionaram podem, também, encontrarem-se durante o sono e formar assembléia(s).


    8.3 – Transmissão oculta do pensamento - (questões 419 a 421)

    - no sono a comunicação entre Espíritos é tão ou mais intensa que na vigília, daí decorrendo que simultaneamente muitos podem ter acesso a determinada informação e divulgarem-na, ao mesmo tempo;

    - há casos em que na vigília duas pessoas se encontram e sem pronunciarem palavra, entendem-se perfeitamente;

    OBS: Talvez possamos enquadrar tais acontecimentos como reflexos de programação pré-reencarnatória, abrangendo os Espíritos que não necessitam de sinais ostensivos da linguagem para se entenderem; como exemplo, dentre muitos possíveis, nada objeta inferir que é o que acontece no chamado “amor à primeira vista”.


    8.4 – Letargia, catalepsia. Mortes aparentes - (questões 422 a 424)

    - em tais estados os pacientes têm o corpo sem condições de ação; não obstante, de retorno à normalidade física, declaram que tudo o que se passava à sua volta foi testemunhado por eles; isso vem demonstrar que além do corpo, no caso inerte, há algo além dele — o Espírito;

    OBS: A Medicina não conseguiu ainda explicar o mecanismo de tais estados alterados do organismo; o mesmo poderíamos dizer do coma natural ou induzido, do resfriamento controlado e até mesmo da própria anestesia geral; para nós, espíritas, compreendendo que nessas situações a alma está afastada do corpo, a ele se mantendo ligada pelo cordão fluídico, resta ainda uma vez sermos gratos à Engenharia Divina, que nos contemplou com a possibilidade de baixa extrema do metabolismo, sem provocar a morte.


    8.5 – Sonambulismo - (questões 425 a 438)

    - eis aqui uma palavra que ainda não devidamente explicitada perante grande parte dos espíritas;

    OBS: De nossa parte formulamos um ligeiro ensaio, propondo que o termo sonambulismo seja empregado apenas no sentido lato dessa palavra e que quando se tratar de atividade mediúnica, seja substituído por transe mediúnico.

    No livro “Magnetismo Espiritual”, de Michaelus, 6ª Ed., 1991, FEB, RJ/RJ, Cap XIX, pg. 179 encontramos notícia de que desde o século XVIII foram propostas várias outras palavras para diferenciar o sonambulismo natural (patológico) do sonambulismo magnético (o “magnético” aqui empregado se refere a “mediúnico”...). Nenhuma dessas propostas prosperaram. Nem imaginamos também que a nossa venha a prosperar.

    - assim, na vigência do termo sonambulismo, reduzindo os termos, para não nos alongarmos, podemos citar algumas espécies de sonambulismo, aditando pequenos detalhes de cada um:

    a. sonambulismo patológico: é o relatado pela Medicina, sobretudo em crianças e em jovens, que apresentam, de maneira desconexa, movimentos automáticos durante o sono (agem, caminham, falam), dos quais não se recordam ao acordar.

    Para a Doutrina dos Espíritos, o fenômeno sonambúlico está inserido em três focos:

    1. sonambulismo imperfeito: a alma, quando em sonhos;

    2. sonambulismo natural: a alma tem maior liberdade do que no sonho, eis que domina por completo o ambiente em que se encontra e suas faculdades são exercidas em plenitude;

    3. sonambulismo magnético: é o mesmo estado do sonambulismo natural, com a diferença de ter sido provocado;

    - à questão 431 Kardec registra:

    “Mostra a experiência que os sonâmbulos também recebem comunicações de outros Espíritos, que lhes transmitem o que devam dizer e suprem à incapacidade que denotam. Isto se verifica principalmente nas prescrições médicas. O Espírito do sonâmbulo vê o mal, outro lhe indica o remédio”.

    OBS: Há já trinta anos vem sendo praticado no Espiritismo, por enquanto por poucos grupos mediúnicos, um processo de diagnóstico espiritual, denominado apometria (do grego: apó=fora de, metron=medida), no qual médiuns especializados se prestam a auxiliar pessoas com problemas obsessivos graves. Desejável no grupo a presença de médicos-médiuns. Esse processo ainda não tem a universalidade que caracteriza os ensinos dos Espíritos — manifestação simultânea em vários lugares —, no entanto, é de todo possível que venha a se generalizar, tendo em vista os bons resultados já alcançados pelos que o praticam. (Maiores detalhes sobre a Apometria: “Apometria-Novos Horizontes da Medicina Espiritual”, de Vitor Ronaldo Costa, Ed.Casa Editora Clarim, Matão/SP)


    8.6 – Êxtase - (questões 439 a 446)

    - quase podemos dizer de um outro foco para o sonambulismo: o êxtase, que se caracteriza por um estado moral mais depurado, permitindo inclusive que o extático até vislumbre a felicidade de mundos superiores;

    - Kardec consignou recomendação de que o extático deva ser compelido a voltar à normalidade, eis que, teimando em permanecer no êxtase da visão dos mundos felizes, isso poderia até provocar sua desencarnação (!);


    8.7 – Dupla vista - (questões 447 a 454)

    - dupla vista, objetivamente, representa a visão espiritual, o que alma vê, fato muito comum em mundos mais adiantados moralmente do que a Terra;

    - essa faculdade pode emergir em situações extremas, como proximidade de perigo, na moléstia ou numa grande comoção;

    - pressentimentos, quase sempre, se justificam pela segunda vista;

    - dos mais expressivos fenômenos espirituais tidos à conta da emancipação da alma, no estado de vigília, é aquele no qual quem possui a dupla vista vê, ouve e sente além dos limites dos sentidos humanos. Citamos um belo exemplo:

    OBS. Eurípedes Barsanulfo (1880-19l8), que previra com muita antecedência a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), no ano de 1918, estando no interior do Estado de Minas Gerais, lecionando, quando, em meio a uma aula, entrou em transe sonambúlico e viu no Palácio de Versalhes, na célebre Sala dos Espelhos, em França, o Tratado de Paz com a assinatura de líderes políticos — assinaturas que lhe foi dado ler: Clemenceau, Presidente Wilson, e outros. Ao abrir os olhos relatou aos alunos, emocionado, o que vira:

    — Graças a Deus, em breve o mundo estará em paz! Aguardemos.

    Oito meses depois, em 28 de Junho de 1919, o Tratado de Paz foi assinado - exatamente na Sala dos Espelhos, no Palácio de Versalhes...”.

    (Do livro: “Eurípedes Barsanulfo – O Apóstolo da Caridade”, de Jorge Rizzini, 6°Capítulo, pg. 74 e 75, 1ª Ed., 1979, Edições Correio Fraterno, S.B.Campo/SP).


    8.8 – Resumo teórico do sonambulismo, do êxtase e da dupla vista - (questão 455)

    - o Espiritismo tem o sonambulismo como uma luz lançada sobre a Psicologia;

    - tais estados e faculdades são atributo exclusivo da alma

    - o sonambúlico dispensa linguagem articulada, utilizando a comunicação do seu fluido perispiritual com o fluido de outro Espírito, encarnado ou desencarnado;

    - pode ocorrer que Espíritos inferiores se aproveitem da fraqueza do sonâmbulo e por seu intermédio emitir conceitos errôneos, absurdos, até ridículos; é quando, então, mais se justifica aquela que poderíamos exaltar como sendo “lei áurea” da fé raciocinada:


    “Melhor é repelir dez verdades do que admitir uma única falsidade, uma só teoria errônea” (Espírito ERASTO, em “O Livro dos Médiuns”, Cap XX, item 230).


    O LIVRO DOS ESPÍRITOS
    PARTE SEGUNDA - Do mundo espírita ou mundo dos Espíritos
    CAPÍTULO IX — Da intervenção dos Espíritos no mundo corporal - (questões 456 a 557)


    Desde que o mundo é mundo o homem questiona se a vida continua após a morte e se de fato existem “outro mundo e outra vida” e como são as coisas por lá...

    Século XIX indo a meio encontraremos Kardec fazendo a mesma pergunta aos Espíritos amigos que, respondendo, demonstraram possuir bastante conhecimento, a par de elevação moral.

    O título dado pelo Mestre lionês ao presente capítulo registra, por si só, a resposta àquela milenar pergunta, a qual, aliás, subdivide-se em dezenas de “sub-perguntas”, que foram agrupadas em subitens.

    As respostas patentearam que existe sim o “tal outro mundo” e que os que lá habitam são os mesmos que aqui habitaram, considerando que “os de lá” influenciam grandemente “os de cá”: nós. E mais: “do lado de lá” está a vida eterna e “do lado de cá”, as existências, embora múltiplas, um dia cessarão...

    Em face da extensão do capítulo e o nosso propósito de comentar um a cada mês, precisamos nos socorrer da síntese. Mas, antecipadamente, sugerimos aos leitores interessados uma visita ao original, que é um inestimável tesouro de informações indispensáveis para o dia-a-dia, já que aqui só podemos ofertar pobre amostra.


    9.1 – Faculdade, que têm os Espíritos, de penetrar os nossos pensamentos - (questões 456 a 458)

    Só o título do subitem já traz à tona a transcendentalidade dos esclarecimentos espirituais. Mas, vamos aos resumos:

    - os Espíritos, querendo, vêem o que fazemos e conhecem nossos pensamentos — nada lhes escapa;

    - obviamente, os bons Espíritos nos amparam e os levianos, riem de nós;


    9.2 - Influência oculta dos Espíritos em nossos pensamentos e atos (questões 459 a 472)

    Vamos reproduzir a questão 459, que consideramos importantíssima:

    459. Influem os Espíritos em nossos pensamentos e em nossos atos?

    R: “Muito mais do que imaginais. Influem a tal ponto, que, de ordinário, são eles que vos dirigem”.

    - quando formulamos pensamentos é comum captarmos outros: provêm de vários Espíritos; o resultado indicará sempre qual a natureza da fonte;

    - Espíritos imperfeitos nos induzem ao mal para que soframos, como eles...

    - tanto as boas sugestões, quanto as idéias malévolas que captamos, só serão assimiladas se lhes dermos guarida, em sintonia com nosso pensamento;


    9.3 - Possessos - (questões 473 a 480)

    - como jamais dois Espíritos poderão coabitar num mesmo corpo físico, a possessão não existe; contudo, em termos espíritas, denominamos “possessão” quando um Espírito submete outro de tal forma que lhe anula a vontade;

    - a prece sincera, ao invés de exorcismos, é o mais eficaz amparo a alguém que se encontre dessa forma obsedado por um Espírito infeliz;


    9.4 - Convulsionários - (questões 481 a 483)

    Antes de anotarmos as respostas obtidas por Kardec, devemos fazer uma pequena ressalva: o termo “convulsionário” se reportava, àquela época, aos fanáticos franceses jansenistas [seguidores do Jansenismo, doutrina de Jansênio (1585-1638), que primava pela austeridade, rigor dos costumes], do começo do século XVIII, aos quais a exaltação religiosa causava convulsões.

    - a exaltação fanática: sonambulismo provocado, a insensibilidade física, a leitura do pensamento, as crises com gritos e gestos — todas essas manifestações — põem a descoberto médiuns destrambelhados, que de forma inconsciente e simultânea, podem produzi-las ou vivenciá-las.

    OBS: Considerando que está no perispírito a sede das sensações físicas, podemos inferir que a insensibilidade física (às torturas, por exemplo, como se vê em espetáculos públicos de suplícios) encontra explicação pelo “desdobramento” (parcial ou total — afastamento da porção etérea perispiritual) de quem a isso se presta.Tal demonstrador tem disposições naturais para tanto: é um médium.


    9.5 - Afeição que os Espíritos votam a certas pessoas - (questões 484 a 488)

    - tudo é uma questão de sintonia: os bons Espíritos se afeiçoam às pessoas de bom comportamento, ao passo que os Espíritos inferiores, aos homens viciosos;

    - há casos em que o Espírito nutre afeição por alguém encarnado, como saldo de ligações afetivas de ambos, em vidas passadas;

    - nossas mazelas morais afligem os bons Espíritos muito mais do que nossas dores físicas, estas, episódicas, ao passo que aquelas se demoram em nós...

    - nossos parentes, se lembrados por nós, devotam-nos simpatia; se olvidados, olvidam-nos também...

    OBS: Pode parecer estranha essa resposta. Mas não é: cabe aqui acrescentar que, pelas vidas sucessivas (reencarnações), o homem acumula inumeráveis existências corpóreas, daí resultando que há de ter pertencido e formado também incontáveis famílias. No estágio moral atual da Humanidade, nada objeta que, por enquanto, poucos ainda serão os Espíritos que têm acendrado amor por todos os familiares aos quais um dia se uniu fisicamente...


    Permitam-nos os leitores a aposição de uma reflexão nossa:

    - segundo a “Grande Enciclopédia Larousse Cultural”, 1990, Vol. 5, pg. 1675, os arqueólogos encontraram os primeiros homens do nosso tipo (atual) há cerca de 38.000 anos — “o homem de Cro-Magnon”, no Sudoeste da França;

    - fazendo cálculos primários, supomos que em média (apenas conjetura) cada existência terrena dura 100 anos e que o Espírito desencarnado, também em média, permanece outros 100 anos no Plano Espiritual;

    - temos, assim, que a cada milênio, o homem reencarna cinco vezes;

    - conclusão: apenas no período “cro-magnon” cada um de nós já reencarnou 190 vezes (!). E agora: quantos pais, mães, filhos e demais parentes tivemos? Onde está a lembrança deles?...


    9.6 - Anjos de guarda. Espíritos protetores, familiares ou simpáticos - (questões 489 a 521)

    Desde o nascimento, cada ser humano — selvagem, de inferioridade moral ou mesmo evoluído — tem um Espírito protetor (mais elevado moralmente do que ele) destinado por Deus. Esse bom Espírito acompanha seu protegido durante toda a sua existência terrena e por vezes prossegue amparando-o após a desencarnação. Nos lugares e nas situações mais difíceis da existência, jamais esse amigo se afasta daquele que protege. Isso é bênção inapreciável! Aconselha sempre a melhor conduta e se não é ouvido, jamais abandona o protegido: em respeito ao livre-arbítrio deste afasta-se até que o chame.

    Aglomerações de indivíduos (sociedades, cidades, nações) têm também Espíritos que as protegem, desde que caminhem para o bem comum.

    Além do Espírito protetor, nada objeta que o homem peça a assistência específica dos bons Espíritos, como por exemplo, no caso das artes em geral, das iniciativas que visem melhoria nessa ou naquela qualidade, etc.


    9.7 - Pressentimentos - (questões 522 a 524)

    O pressentimento pode ser considerado como um bom conselho dado por um Espírito amigo. Seja quanto ao adiantamento moral, quanto aos assuntos da vida particular, os conselhos solicitados aos Espíritos protetores poderão ser atendidos, desde que isso melhore a vida daquele que os requereu.

    Assim, os termos “sorte”, “azar”, “destino”, “coincidência” e “acaso” foram banidos por Kardec do dicionário espírita...


    9.8 - Influência dos Espíritos nos acontecimentos da vida - (questões 525 a 535)

    Os Espíritos têm ação sobre a matéria e assim, dentro das leis da Natureza, podem influenciar determinados acontecimentos da vida. Três exemplos:

    - o primeiro, o de um homem que sobe numa escada e esta estando podre se quebra, causando-lhe a morte;

    - o segundo, o de um homem que se refugia da chuva debaixo de uma árvore e morre ali fulminado por um raio;

    - o terceiro, o de alguém que tenta alvejar um homem, não o conseguindo.

    Explicaram os Espíritos a Kardec que no primeiro e no segundo caso, os desencarnantes foram inspirados/encaminhados para tais atos; já no caso do tiro, ou os Espíritos inspiraram a idéia da vítima se desviar ou então terão ofuscado o atirador, fazendo-o errar o alvo.


    OBS: Ao contrário, as chamadas “balas perdidas”, que tantas vítimas têm provocado, podem ser enquadradas no mesmo mecanismo, só que com o sinal trocado...

    Há Espíritos zombeteiros que se comprazem em nos causar aborrecimentos.

    Lição inesquecível há aqui: do que parece um mal sairá um bem muito maior!


    9.9 - Ação dos Espíritos nos fenômenos da Natureza - (questões 536 a 540)

    Ainda sob o impacto do terrível terremoto ocorrido no fundo do Oceano Índico, no dia 26.Dezembro.2004, causando a morte de aproximadamente 224.000 pessoas, registramos dois trechos em resposta às questões:

    536. São devidos a causas fortuitas, ou, ao contrário, têm todos um fim providencial, os grandes fenômenos da Natureza, os que se consideram como perturbação dos elementos?

    R: Tudo tem uma razão de ser e nada acontece sem a permissão de Deus.

    537. a) Poderá então haver Espíritos que habitem o interior da Terra e presidam aos fenômenos geológicos?

    R: Tais Espíritos não habitam positivamente a Terra. Presidem aos fenômenos e os dirigem de acordo com as atribuições que têm. Dia virá em que recebereis a explicação de todos esses fenômenos e os compreendereis melhor.

    Bem: de nossa parte, apenas acrescentamos que temos como inabalável certeza, compreensão e fé de que “Deus não coloca cruz em ombro errado!”

    Assim, as incontáveis vítimas de tais acontecimentos estarão submetidas à Lei Divina de Justiça, a se evidenciar por causa e efeito — ação e reação.

    Ademais, quem passa por tão grande expiação está se quitando de pesado débito e assim, emerge de tal resgate, liberto, pronto para alçar vôo feliz.


    9.10 - Os Espíritos durante os combates - (questões 541 a 548)

    Nas guerras há sempre o componente espiritual atuante: Espíritos existem que só se preocupam em provocar discórdia e destruição. Assim, ações bélicas, praticamente todas, têm a assessoria espiritual avalizando-as, o que é uma tristeza. Inclusive a insuflação de inimizades, em níveis coletivos (países).

    Muitos mortos em combate, o mais das vezes, prosseguem no Plano espiritual em combate, julgando-se “vivos” ainda. Aos poucos, porém, a realidade lhes surge.


    9.11 - Pactos - (questões 549 a 550)

    Não há pactos. Há sintonia... Daí que aquele que convocar Espíritos para que executem sua má intenção, atrairá maus Espíritos que irão tentar ajudá-lo. Porém... conseguindo ou não, quem pediu se torna devedor de cobradores, geralmente cruéis, impuros. Esse acoplamento é inexorável.


    9.12 - Poder oculto. Talismãs. Feiticeiros - (questões 551 a 556)

    Fórmulas, palavras sacramentais, sinais cabalísticos ou talismãs não têm ação sobre os Espíritos. Nesses casos, o que acontece é que o pensamento dos invocadores é que os atraem e não as coisas materiais.

    Os chamados “feiticeiros”, agindo para o mal (na contramão do Evangelho), ou para o bem (ajudando pessoas que os procuram), nada mais são do que médiuns desequilibrados aqueles e ignorantes estes, agindo com assessoria competente de Espíritos com os quais se afinizam.


    9.13 - Bênçãos e maldições - (questão 557)

    Bênçãos: apenas alcançam aquele que as merecem.

    Maldições: Deus não permite injustiças, assim nenhum mal intentado contra um justo prosperará.



    O LIVRO DOS ESPÍRITOS
    PARTE SEGUNDA - Do mundo espírita ou mundo dos Espíritos
    CAPÍTULO X — Das ocupações e missões dos Espíritos - (questões 558 a 584)


    Como podemos notar, logo de início, o presente capítulo é reduzido, se comparado com o anterior. Não tem subtítulo. Trata das atividades desenvolvidas pelos Espíritos (desencarnados e/ou encarnados): o que fazem, qual a finalidade, onde, como, quando, quanto, com quem.

    É, pois, tema atraente, até porque tem sido e ainda continuará por muito tempo sendo alternadamente o destino que nos aguarda — a nós, ora encarnados —, no pendular movimento de reencarnar-desencarnar...

    Nada melhor para posicionar o entendimento do que trata este capítulo do que reproduzir sua primeira questão:


    558. Alguma outra coisa incumbe aos Espíritos fazer, que não seja melhorarem-se pessoalmente?

    “Concorrem para a harmonia do Universo, executando as vontades de Deus, cujos ministros eles são. A vida espírita é uma ocupação contínua, mas que nada tem de penosa, como a vida na Terra, porque não há a fadiga corporal, nem as angústias das necessidades”.

    OBS: Devemos refletir que os Espíritos que têm competência para “executar as vontades Deus, por serem Seus ministros”, necessariamente são aqueles que poderemos considerar Espíritos Puros (vide q. 113, Cap I, 2a.Parte, desta obra).


    Não obstante, Espíritos há que por sua inferioridade moral igualmente desempenham tarefas úteis. Num exemplo figurativo, poderíamos comparar tais espíritos como o profissional menos qualificado de uma construção, cuja participação, indispensável aliás, se reveste de importância para o êxito da obra. Há a considerar, ainda, que os Espíritos, no incessante progresso que as várias existências proporcionam, cada vez mais vão acumulando aprendizados diversos. Podemos imaginar que por determinados períodos vão se especializando nesta ou naquela área, seja científica, artística, humanística, filosófica, etc. Depois, encarnados ou desencarnados ou encarnados, irão solicitando e cumprindo missões a benefício da Humanidade.

    Vamos, para efeito de comparação, comparar o conhecimento de uma determinada atividade à figura geométrica de um círculo:

    - o primeiro movimento que aciona a formação do primeiro círculo é igual ao seixo que cai no meio de um lago de águas plácidas, formando círculos concêntricos, em expansão até às margens;

    - esse primeiro movimento é a criação do princípio inteligente, por Deus;

    - o lago de águas plácidas é o universo, cujas margens simbolizam a totalização de perfeição possível de ser alcançada pelos Espíritos;

    - os círculos concêntricos que se expandem caracterizam as diversas fases evolutivas (reino mineral, vegetal, animal, hominal e angelical);

    - chegar à margem significará a totalização da pureza espiritual — integralização do saber com o exercício permanente do amor;

    - imaginemos que o saber especializado e a conquista de uma virtude constituem o trajeto que une o ponto do primeiro ao do tricentésimo sexagésimo grau de cada circunferência;

    - o percurso de cada circunferência, do 1° ao 360°, poderá ser feito em uma ou em várias existências físicas e em diversos mundos;

    - o Espírito puro será aquele que percorreu os trajetos de uma por uma das circunferências, da primeira à derradeira e alcançou a fronteira que delimita a perfeição possível à Perfeição absoluta — Deus!


    Vejamos algumas particularidades das atividades dos Espíritos.


    A. Desencarnados


    Espíritos puros:

    - recebem diretamente as ordens de Deus e as transmitem ao Universo inteiro(!);

    - conhecem a vontade de Deus, cujas ordens e missões estão fora da possibilidade humana de identificá-las;

    - vivem pelo pensamento de serem permanentemente úteis, o que lhes constitui um gozo;


    Espíritos já adiantados:

    - dentro do conhecimento que detêm (artes, por ex.), quase sempre se interessam pelos encarnados que desempenham tal atividade; desempenham missões sempre voltadas para o bem e consentâneas com seu grau de adiantamento;


    Espíritos ociosos:

    - mantêm-se assim temporariamente, contudo, tal ociosidade, cedo ou tarde lhes pesará e a inexorabilidade da Lei Divina do Progresso os retirará de tal estado;


    Espíritos vulgares:

    - comumente imiscuem-se com os encarnados nos seus prazeres, deles participando em espúria “sociedade”;

    OBS: Essa triste associação recebe a denominação espírita de “vampirismo” e é muito comum nos casos de alcoolismo, tabagismo, toxicomania, sexo desvairado e outros comportamentos infelizes.


    B. Encarnados

    - todos têm a sua missão neste mundo, desde os mais adiantados até aqueles que ainda estão em inferioridade de conhecimentos ou de elevação moral;

    - aqueles que se portam de forma inútil (os preguiçosos ou os que descumprem sua escolha pré-reencarnatória) são dignos de compaixão, eis que expiarão arduamente essa voluntária opção;

    - uma missão útil pode ser realizada sem que tenha sido predestinada, tal seja servir a um Espírito desencarnado na elaboração de um livro, de trabalhos artísticos, de muitas descobertas: quase sempre, no desdobramento do sono, ambos se encontram e o autor retransmite ao agente a idéia ou inspiração;

    - a paternidade é uma verdadeira missão, já que, na maioria dos casos, Deus coloca o pai como responsável pela evolução do filho, podendo dar-se o caso de um filho ser um Espírito mais adiantado do que seus pais;

    - um conquistador que espalha calamidades a um povo não terá desempenhado uma missão e sim servido de instrumento para que um desígnio divino se cumprisse — progresso mais rápido desse povo, por ex.



    O LIVRO DOS ESPÍRITOS
    PARTE SEGUNDA - Do mundo espírita ou mundo dos Espíritos
    CAPÍTULO XI — Dos três reinos - (questões 585 a 613)


    Para assimilarmos as orientações deste Capítulo faz-se necessário situar a época em foram prestadas a Kardec (na metade do século XIX). Lembramos, a propósito, que foi o próprio Codificador que deixou registrada a recomendação de que a Doutrina Espírita seja dinâmica e que sempre caminhe em paralelo às descobertas da Ciência.

    Faz prova disso a vasta bibliografia espírita, complementar à Codificação, com milhares de títulos, de Kardec aos nossos dias. Muitos desses títulos, elaborados via psicografia ou de lavra própria, vêm acrescentando novas informações advindas da Espiritualidade. É dessa forma que estaremos sempre captando melhor a mensagem original da obra de Kardec, com o auxílio de algumas reflexões que os Bons Espíritos e alguns estudiosos encarnados deram co-relativamente às questões deste Capítulo.

    Como aqui são contempladas em maior escala as questões relativas aos animais, permitimo-nos iniciar nossos comentários justamente apondo as últimas palavras registradas no capítulo em foco, sobre esse e outros tópicos que ora são tratados:

    “Quanto às relações misteriosas que existem entre o homem e os animais, isso, repetimos, está nos segredos de Deus, como muitas outras coisas, cujo conhecimento atual nada importa ao nosso progresso e sobre as quais seria inútil determo-nos”. (Os sublinhados são nossos).

    A propósito, lembramos que já nos Cap I e II da 1ª Parte desta obra, assinalamos as várias perguntas de Kardec que ficaram sem resposta, pela “inferioridade das faculdades do homem” (q.11), porque “há coisas que estão acima da inteligência do homem mais inteligente” (q.13), já que o homem “precisaria de faculdades que ainda não possui” (q. 18), por ser “incompleta a linguagem humana” (q.28), etc., etc., como esclareceram os Espíritos.

    Essas afirmações dão o tom deste capítulo...


    11.1 – Os minerais e as plantas - (questões 585 a 591)

    A matéria inerte (reino mineral) só tem em si uma força mecânica.

    A Natureza é composta de seres orgânicos e inorgânicos.

    Quanto aos seres inorgânicos, eis o que nos diz a “Grande Enciclopédia Larousse Cultural”, Vol 6, p. 1761:

    INORGÂNICO – 1. Que não é orgânico. Diz-se dos corpos desprovidos de vida, não organizados, que só se podem desenvolver por justaposição, como os minerais.

    Relativamente aos seres orgânicos — que têm órgãos —, no nosso estudo (espírita), para efeito moral, serão classificados em três reinos:

    - vegetais - (dotados de matéria inerte e de vitalidade);

    - animais - (têm matéria inerte, vitalidade, inteligência instintiva e a consciência de sua existência e de suas individualidades);

    - hominais – (têm tudo das plantas e dos animais, aos quais domina por sua inteligência especial, tendo ainda consciência do seu futuro, percepção das coisas extramateriais e o conhecimento de Deus).

    Quanto à questão da sensibilidade das plantas, Kardec perguntou:

    Q. 586 - Têm as plantas consciência de que existem?

    R. Não, pois que não pensam; só têm vida orgânica.

    Q. 587 – Experimentam sensações? Sofrem quando as mutilam?

    R. Recebem impressões físicas que atuam sobre a matéria, mas não têm percepções. Conseguintemente, não têm a sensação da dor.

    Tendo Kardec insistido, à q. 589, sobre a sensibilidade de algumas plantas e se elas teriam “uma espécie de vontade”, os Espíritos responderam comparando algumas ações delas com os movimentos análogos no organismo humano, sem participação da vontade e sem necessidade de percepção.

    Em última análise, seria um automatismo biológico.


    Não nos move o intuito de abrir qualquer polêmica, mas a favor da coerência, para novas análises, vamos sintetizar palavras de Fernando Worm (no seu livro Janela para a Vida, Cap IV – A Sensibilidade das plantas nos dois Planos da Vida, p. 51 a 58, 2ª Ed., 1989, LAKE, SP/SP), através de perguntas que fez a F.C.Xavier e o mesmo, ouvindo o Espírito Emmanuel, respondeu.

    F.Worm: - há secreta e insuspeitada sensibilidade dos vegetais, reagindo aos processos da vida, tanto na Terra como no Mundo Maior; de resto, aparelhamentos humanos mais sensíveis registram reações das plantas às influências do meio e às intervenções e sentimentos humanos;

    F.C.Xavier: o fenômeno da Empatia está presente em todos os seres e em todos os domínios do Universo;

    F.Worm: - você confirmaria que as plantas têm memória?

    F.C.Xavier: - as plantas possuem “MEMÓRIA EM CONSTRUÇÃO”;

    F.Worm: - HÁ ESPIRITUALIDADE NAS PLANTAS?

    F.C.Xavier: - em graus e tons diversos a Espiritualidade se encontra em qualquer partícula de vida;

    F.Worm: No que se refere aos minerais, você confirmaria existir ali certas formas de sensitividade peculiar, ou INÍCIOS DE ORGANIZAÇÃO ESPIRITUAL? (...) Seria então que o reino vegetal representaria o primeiro estágio da nossa evolução planetária?

    F.C.Xavier: - Segundo os nossos conhecimentos atuais, o início da sensitividade do reino mineral antecede as ocorrências da sensitividade ao mundo vegetal.

    Deixamos aos interessados a ida às fontes que indicamos e outras.

    De nossa parte, sem estabelecer dicotomia, fizemos demorada análise de umas e outras opiniões e sem objeção a esta(s) ou aquela(s), optamos por crer que as plantas, conquanto de forma incipiente têm sim, sensibilidade.

    Aí, surge o bloqueio (da linguagem humana, a que se referiram bastas vezes os Espíritos) para maiores definições ou entendimento, a fim de que se possa, com clareza meridiana, definir o que seria “sensibilidade incipiente”...

    Disse certa vez Santo Agostinho: “Se não me perguntam que é Deus, sei perfeitamente; se me perguntam, já não sei responder”...

    É isso.


    11.2 – Os animais e o homem - (questões 592 a 610)

    Há um debate transcendental sobre a inteligência dos animais e em alguns casos, até mesmo se eles teriam superioridade moral sobre o homem.

    Não tem sentido.

    Quanto à inteligência, animal algum, de todos os tempos, jamais conseguiu resolver qualquer problema que dependesse de encadeamento de raciocínios (inteligência contínua). Não devemos nos esquecer que Entidades Siderais, agindo em louvor da Lei Divina do Progresso, equipa as espécies animais dos meios necessários à sobrevivência, dotando-as de instinto.

    Há casos — sempre especificamente para a vida física — em que o instinto, agindo de forma insuperável, aproxima de fato algumas ações animais de um procedimento calculado.

    Teríamos, aqui, um caso de inteligência fragmentária.

    Mas isso é tudo.

    Nenhum animal tece para se vestir, cose e tempera alimentos para comer, nem fabrica calçados. Neles — nos animais —, a Natureza implantou sistemas biológicos automáticos, que lhes suprem essas e outras necessidades.

    É assim que as aves fazem primorosos ninhos, roedores fazem tocas, abelhas as colméias, os cães enterram os ossos que mais tarde comerão, etc. etc. Há que se considerar que isso vem sendo feito pelas respectivas espécies animais desde sua existência sobre a Terra. E sempre do mesmo modo!

    O homem, ao contrário, que se abrigava em cavernas e com peles de animais ou folhas de árvores, hoje constrói residências de toda espécie, bem como tecidos de infinita variedade, adequados a todas as estações do ano.

    Além do mais, e principalmente, o homem usa a inteligência não só para a vida física, mas também e até mais pode usá-la para sua vida moral!

    Os animais têm meios de se comunicarem, entre si. Sem, contudo, se tratar de linguagem articulada. Será sempre a mesma, a cada espécie.

    Só o homem tem capacidade para se expressar em inúmeras línguas.

    Macacos e papagaios, não passam de imitadores, limitadíssimos.

    Os animais têm alma, sim, mas de natureza inferior, passível de, pela evolução, alcançarem o reino hominal. Isso acontecerá com aqueles que se destaquem da sua espécie. Quando isso ocorrer, nem sempre suas primeiras existências físicas serão necessariamente na Terra, mas sim, em mundos consentâneos com a necessidade de irem aos poucos adquirindo condições morais para conviverem em nova humanidade.

    OBS: Na questão n° 597, tratando da alma dos animais, há uma frase registrada que merece maior atenção:

    “(...) Há entre a alma dos animais e a do homem distância equivalente à que medeia entre a alma do homem e Deus”.

    OBS: A benefício da luz que nossos olhos podem divisar, temos para nós mesmos que tal conceito não deve ser aceito ao pé da letra. Isso porque, pela Lei do Progresso é premissa espírita que todos os animais evoluirão e alcançarão, primeiro, o reino hominal e depois, o angelical. Mas não há a menor possibilidade de que Espírito algum possa estar, ao menos, em paralelo a Deus, que é Único — o Criador incriado! Por isso, a comparação, nós a creditamos a uma forma poética de expressão.

    Ao desencarnarem, os animais são mantidos por espécie e a breve tempo reencarnam, tudo isso a cargo de Espíritos encarregados dessa tarefa.


    11.3 – Metempsicose - (questões 611 a 613)

    Jamais poderia um Espírito humano reencarnar num corpo de animal.

    É da Lei Divina que o Espírito não retrograda!

    Pode, sim, estacionar num determinado patamar moral, enquanto adquire méritos para ascender a novos degraus evolutivos.

    Geralmente isso acontece em meio a duras provações-expiações.

    O que pode ter levado os primeiros pensadores a imaginar tal possibilidade (a da metempsicose) talvez seja o fato de animais promovidos ao reino racional atavicamente entremostrarem, por algumas existências — muitas das quais como humanóides —características das longas experiências anteriores. Isso pode sim acontecer, até porque, os animais não mudam de espécie, na sua escalada evolutiva. Renascem sempre na mesma espécie.

    A propósito, registrou Kardec, como observação à resposta da q. 613:

    “(...) As diferentes espécies de animais não procedem intelectualmente umas das outras, mediante progressão. Assim, o espírito da ostra não se torna sucessivamente o do peixe, do pássaro, do quadrúpede e do quadrúmano. Cada espécie constitui, física e moralmente, um tipo absoluto, cada um de cujos indivíduos haure na fonte universal a quantidade do princípio inteligente que lhe seja necessário, de acordo com a perfeição de seus órgãos e com o trabalho que tenha de executar nos fenômenos da Natureza, quantidade que ele, por sua morte, restitui ao reservatório donde a tirou”.




    O LIVRO DOS ESPÍRITOS
    PARTE TERCEIRA - Das leis morais
    CAPÍTULO I — Da lei divina ou natural - (questões 614 a 648)


    PREÂMBULO – Sobre as leis (humanas)
    (Preâmbulo = A parte preliminar de uma lei, decreto ou diploma).


    Pedimos licença a quem esteja lendo estas linhas para antes deste estudo registrarmos alguns comentários sobre as leis humanas .

    Por definição, lei é a “regra relativa ao comportamento dos membros de um grupo ou sociedade que cria obrigações para aqueles sobre quem recai e é determinada segundo os costumes do grupo ou estabelecida pela autoridade”.

    De um modo mais geral, é o conjunto de regras vigentes numa sociedade. Do ponto de vista sociológico, considera-se que a lei corresponda às expectativas relativas ao modo de resolução de conflitos internos na sociedade, o que gera costumes específicos e os sistemas de decisão judicial baseados em julgamentos anteriores, chamados precedentes. Os teóricos do direito romano deram a essas práticas uma exposição sistemática, que acabou por adquirir autoridade em si mesma.

    A codificação do direito romano, o Corpus Juris Civilis (Código de Lei Civil), do século 6° d.C., é a base dos sistemas jurídicos da maioria dos países europeus [o Reino Unido é a principal exceção. Muitos desses países codificaram suas leis durante ou após o período napoleônico (1799-1815), mas tais códigos preservaram muitas noções do direito civil de origem romana].

    No Reino Unido e nos EUA, vigora a chamada Common Law (Lei Comum), que em lugar de se basear em princípios jurídicos teóricos (como é o caso do direito civil), desenvolveu-se pragmaticamente, a partir das resoluções de conflitos anteriores e de reinterpretações e adaptações que visam manter os princípios que orientaram os julgamentos precedentes.

    Em muitos outros países, os preceitos que orientam as comunidades religiosas e os costumes tribais (que definem o que se chama direito costumeiro ou consuetudinário) coexistem com a lei oficial do Estado em muitos aspectos da vida (principalmente na organização familiar).

    Assim é que temos as seguintes legislações específicas:

    - “Lei Hindu” (para os seguidores do Hinduísmo), constante dos shastras (tratados), dentre esses o Dharmashastra, composto entre os séculos 6°a.C. e 18 d.C., sendo o que mais se aproxima do sentido ocidental de lei e direito;

    - “Lei Judaica” (consubstanciada no Talmude = compilação das interpretações e comentários da lei oral judaica, com base na tradição oral dos cinco séculos que vão da época do último dos profetas bíblicos até o fim do século 2° d.C.; de um modo geral as leis essenciais dos judeus constam do Torah, referente ao Pentateuco (os primeiros cinco livros da Bíblia, que se acredita terem sido revelados a Moisés, no Monte Sinai);

    - “Islamismo” - consubstanciado no Alcorão = livro sagrado dos mulçumanos, por eles (atualmente próximo a um bilhão de seguidores) considerado a palavra textual de Deus, representando, para quarenta países, a constituição e a lei civil, penal e moral.

    Para não nos alongarmos, citamos apenas que em todas as culturas acima citadas, embora todos os textos sejam considerados sagrados, há divergências interpretativas de alguns deles.

    E também para não deixar de citar o Brasil, sem levar em conta que desde a descoberta já tivemos leis vindas do Reino, lá da Europa, tivemos leis impostas pela religião, leis do Império e da República. Constituições, tivemos várias. Temos ainda as Constituições estaduais, as municipais. Todas, amiúde, sofrendo alterações. Não bastasse tudo isso, o Poder Legislativo, em âmbito federal, estadual e municipal, em conjunto, vem promulgando milhares e milhares de leis ao longo de décadas...


    * * *


    Tem este preâmbulo a finalidade de registrar a transitoriedade das leis humanas, cuja quantidade é quase impossível de ser numerada.

    Passamos agora às nossas reflexões sobre as Leis Divinas.

    Alguém já disse que se na Humanidade fossem observadas as prescrições dos Dez Mandamentos, todas as demais leis poderiam ser dispensadas. Como Jesus afirmou que “não veio destruir a lei”, parece-nos que outro não foi o intuito de Kardec ao incluir no “O Livro dos Espíritos” essa parte terceira, sugerindo, pedagógica e coincidentemente, que os ensinamentos e exemplos do Mestre nazareno fossem consubstanciados em também dez leis: As Leis Morais!


    1.1 – Caracteres da lei natural - (questões 614 a 618)

    Como o próprio nome define, “lei natural” emana da Natureza — de Deus! Por isso, não nos será difícil agasalhar na alma a certeza de que é a única lei verdadeira, eterna e imutável — perfeita e geral, para todo o Universo. Observá-la, fará feliz ao homem, ao passo que dela afastar-se trará inevitavelmente tormentos — infelicidade.

    Desde já devemos entender que Deus é o autor de tudo o que ocorre na Natureza, pelo que as leis que a regem também são divinas; nesse caso, dizemos que as que regem os fenômenos da Natureza são Leis Físicas. Da mesmo forma dizemos que as leis que balizam o reto proceder do homem são as Leis Morais. Repetindo: divinas, ambas as categorias de leis.

    Considerando a enorme gradação de desenvolvimento moral dos habitantes dos diversos e diferentes mundos, espalhados por todo o Universo, a lógica está a nos dizer que as Leis Divinas são adequadas ao nível moral daqueles que neles habitam.


    1.2 – Conhecimento da lei natural - (questões 619 a 628)

    A Lei de Deus está escrita na consciência do homem. Assim, cedo ou tarde todos a compreenderão e pautarão seu procedimentos por ela.

    Profetas, em todos os tempos e em todas as nações, pela Bondade de Deus têm vindo ao planeta Terra para ensinar, relembrar e/ou advertir os povos, quando à observância das Leis Divinas, em benefício desses povos mesmos. Sendo Espíritos ainda não de todo evoluídos, sua obra, humana, pode eventualmente conter uma que outra exacerbação. No entanto, num hipotético balanço moral, acertam no atacado e só vez ou outra se exacerbam no varejo.

    Jesus, nesse quadro, pontifica como sendo o tipo mais perfeito que Deus ofertou ao homem, para servir-lhe de guia e modelo. Seus ensinos têm a expressão mais pura da Lei de Deus. Como o Mestre empregou sempre o pedagógico sistema de lecionar por parábolas, eternizando assim as lições, tornou-se necessário que outros Espíritos, quais apóstolos modernos, estejam a explicar e desenvolver as sublimes verdades contidas naquelas lições.

    Como exemplo dessas explicações e desses desenvolvimentos modernos dos ensinos de Jesus, citamos, de passagem, a missionária obra psicográfica de Chico Xavier, Yvonne A.Pereira, Divaldo Franco, João Nunes Maia e outros tarefeiros que colocaram e colocam a sua mediunidade à causa da divulgação da Doutrina dos Espíritos, a qual Jesus consubstanciou.


    1.3 – O bem e o mal - (questões 629 a 646)

    Vamos definir:

    a. a moral: é a regra de bem proceder, isto é, distinguir o bem do mal;

    b. o bem: é tudo o que é conforme à Lei de Deus;

    c. o mal: tudo o que é contrário à Lei de Deus.


    — Como pode alguém saber se está agindo bem ou mal?

    — Recordando Jesus, veja se gostaria que lhe fizessem aquilo mesmo que está fazendo a outrem. Simples, não?

    Existem situações em que a pessoa faz mal a ela própria, por exemplo, ingerindo alimentos em excesso (ou realizando qualquer espécie de excesso).

    As dificuldades da rota evolutiva são previstas por Deus para que o homem tenha pleno entendimento do bem e do mal. Assim, a montanha a ser transposta ensina-lhe subida e descida; rochas e água definem-lhe estados diferentes da matéria. Isso justifica com meridiana clareza a necessidade das reencarnações, isto é, utilização de corpo físico para vida no mundo material.

    Bem ou mal são considerados na razão direta da intenção em praticá-los e ainda o nível evolutivo espiritual dos respectivos agentes. Em outras palavras, o homem instruído é mais culpado aos olhos de Deus do que o selvagem, pois aquele age por premeditação ou consciência plena dos seus atos e aquele, por instintos.


    Entendendo um pouco mais as considerações sobre o mal:

    - o mal recai sempre sobre quem lhe foi o causador;

    - quem pratica o mal por indução de terceiros, tem menos culpa do que estes;

    - quem se aproveita do mal praticado por outrem é tão culpado quanto este;

    - há virtude em desejar fazer o mal e não praticá-lo, por resistência moral;

    - não basta não fazer o mal: é preciso fazer o bem possível e isso ocorre diariamente diante de qualquer um — todos podem realizar o bem!

    - o mal resultante de um bem não praticado recai sobre o omisso;

    - o homem colocado no meio dos que praticam o mal quase sempre está sob provação, voluntária e destinada a conquistar o mérito da resistência.


    E agora, duas considerações sobre o bem:

    - quais lírios, em atmosferas viciosas encontraremos Espíritos missionários, aí situados, a pedido deles mesmos, para difundirem o bem!

    - maior mérito terá aquele que maior dificuldade teve para praticar o bem, tal como Jesus deixou registrado no inolvidável exemplo do “óbolo da viúva”.


    1.4 – Divisão da lei natural - (questões 647 a 648)

    Podemos afirmar que a Lei de Deus se acha contida integralmente no preceito do amor ao próximo, conforme tão bem nos ensinou exemplificou Jesus. Aí estão contidos todos os deveres dos homens, uns para com os outros.

    O cuidado que se deve ter quanto a essa verdade é que não poucos serão aqueles que, interpretando tal premissa, só a observarão em situações específicas. Tal postura, conquanto esteja correta, também estará sempre incompleta, já que as circunstâncias da vida são infinitas e não podem ficar circunscritas a um único procedimento.

    O LIVRO DOS ESPÍRITOS
    PARTE TERCEIRA - Das leis morais
    CAPÍTULO II — DA LEI DE ADORAÇÃO - (questões 649 a 673)


    2.1 – Objetivo da adoração - (questões 649 a 652)

    “Adorar”, aqui, equivale a elevar o pensamento a Deus, aproximando nossa alma d’Ele. E isso é inato no ser humano, que desde sempre — em todas as civilizações —, compenetrando-se da sua incapacidade diante do poder e da grandeza da Natureza, elegeu um Ente Supremo como detentor daquele poder.


    2.2 – Adoração exterior - (questões 653 a 656)

    Em qualquer hipótese, a verdadeira adoração é aquela que se origina na alma. Pode ser expressa verbal ou mentalmente. Não se deve negar que a oração mesmo exterior, feita em conjunto, mas com fé sincera, tem real valor, pois que isso, pelo exemplo, catalisa os não-participantes à adoração a Deus.

    Jesus não se cansou de recomendar a adoração a Deus, pela voz da alma.

    Adorar a Deus, assim, tanto pode ser comungando-se a fé com outros, quanto fazê-lo individualmente.


    2.3 – Vida contemplativa - (questão 657)

    Pensando bem, não há mérito algum em alguém se isolar para adorar a Deus, passando a vida toda nisso. A reencarnação, em todas as circunstâncias, é sempre oportunidade de crescimento moral e isso só é conseguido quando o homem utiliza os meios disponíveis a benefício do próximo. Aquele que se entrega à contemplação infinita, não terá tempo para trabalhar, para produzir, tornando-se inclusive um peso morto para a sociedade.

    Há uma grandeza inconteste na vida de todos nós: somos co-criadores, por Delegação Divina. Cada um, dentro das suas possibilidades. Isso é que vem promovendo a Humanidade e que certamente nos levará a planos cada vez mais felizes.


    2.4 – A prece - (questões 658 a 666)

    Orar é adorar a Deus, pois que direta ou indiretamente quem faz a prece pensa n’Ele. Para Deus, a intenção é tudo! Para nós, a humildade, a fé, o fervor, a sinceridade nas nossas preces! Sejam preces longas ou pequenas. São três as razões, não excludentes, para se orar a Deus: louvar, pedir, agradecer.

    Orar por nós mesmos é próprio do nosso estágio, mas orar pelos necessitados será sempre muito mais precioso. Quando oramos a benefício próprio, os bons Espíritos se aproximam e avaliam a possibilidade do atendimento aos nossos pedidos, sempre em razão do nosso merecimento e do esforço em nos melhorar.

    Embora as preces não mudem os desígnios divinos previstos pela Lei de Justiça, para nós ou outrem, indubitavelmente elas podem, e muito, aliviar ou fortalecer o ânimo e a capacidade de bem reagir às vicissitudes que a vida apresenta. Tudo isso pelo amparo dos Espíritos bondosos que ouvem nossas preces, ajuízam a sinceridade e o merecimento e a seguir agem. Invariavelmente, no Bem.

    Orar pelos mortos é ato de fraternidade que muito os amparará, caso estejam em dificuldades espirituais; não sendo este o caso, a prece muito os sensibiliza, por se saberem lembrados.


    2.5 – Politeísmo - (questões 667 e 668)

    Politeísmo = concepção filosófica e/ou religiosa que admite uma pluralidade de seres divinos (deuses).

    Os homens das remotas eras, observando o Sol, a Lua, as estrelas, o trovão, o raio, a chuva, o arco-íris, o vulcão, a colheita, etc., acharam por bem atribuir a seres sobrenaturais tal poder em produzir tais fenômenos naturais. Tais seres foram endeusados. De uma forma ou de outra, isso se generalizou.

    Foi assim que desde os tempos primitivos houve a criação de inúmeros deuses, pois a concepção de um deus único (monoteísmo) só poderia visitar a mente depois de se desenvolverem as idéias, pelo progresso humano.

    Os profetas e em especial Jesus, muito contribuíram para esse progresso.


    2.6 – Sacrifícios - (questões 669 a 673)

    Os homens primitivos, diante dos já citados acontecimentos “sobrenaturais”, particularmente os ligados aos fenômenos geológicos, concebeu que sua origem estava na “vingança” de deuses, insatisfeitos para com seu povo. Daí, pelo seu atraso moral, ideoplasmaram tais deuses, morfológica e moralmente como eles próprios, isto é, ficando contentes com presentes e irados diante de carências ou de desobediências. Por decorrência, imaginaram (em equivocada dedução, fruto da ignorância de então) que dando presentes àqueles deuses aplacariam sua ira.

    Estavam inaugurados os holocaustos...

    Holocaustos, assim, em qualquer nível de qualquer época, nada mais representaram ou representam, do que desconhecimento do Amor do Pai.

    Jamais um sacrifício qualquer — dano de alguma espécie, a si ou a outrem —, ou mesmo as chamadas “guerras santas” (?) agradarão a Deus, primeiro porque não redundam em bem para ninguém, segundo porque ao próximo se deve amar e não guerrear. Macerações e penitências, conquanto a sinceridade com que são realizadas, pouco ou nada adicionam ao progresso moral dos seus autores.

    Leciona-nos o Espiritismo, a propósito, que os melhores de todos os sacrifícios, os que são abençoados por Deus, são aqueles feitos em benefício do próximo e os que destroem nosso orgulho, nossa vaidade. Nosso egoísmo, enfim.

    O LIVRO DOS ESPÍRITOS
    PARTE TERCEIRA - Das leis morais
    CAPÍTULO III — DA LEI DO TRABALHO - (questões 674 a 685)


    Antes de entrarmos em reflexões sobre este capítulo, pedimos vênia aos leitores para nos recordarmos de uma passagem de Jesus, assaz interessante, como aliás o são todos os momentos vividos pelo Mestre dos mestres junto a nós, como encarnado. Referimo-nos àquilo que o Evangelista João (em 5:17) registrou, dizendo que após Jesus curar um homem doente há trinta e oito anos (!) os judeus O acusaram de não respeitar o sábado, tendo Jesus lhes respondido:

    “Meu Pai tem estado trabalhando até agora e eu também”.

    Outra observação nossa é sobre o tema TRABALHO.

    Na literatura espírita existem tantas referências ao trabalho que seria impossível catalogar todas. O que nos causa alguma admiração é o fato de que Allan Kardec, ao tratar da Lei do Trabalho, foi bem econômico...


    3.1 – Necessidade do trabalho - (questões 674 a 681)

    Sem que ninguém precise lecionar, antes mesmo que o indivíduo adquira a capacidade de raciocinar (primeiros tempos da reencarnação), ele trabalha.

    OBS: Não será exagero dizer que já iniciam a trabalhar pela sobrevivência os bebês que choram, tanto os que o fazem quando vêem a luz por primeira vez, quanto os que choram para mamar. De alguma forma estão informando “ao mundo” que têm necessidades. Como não podem supri-las, o chorar é uma excelente forma de comunicação (ou de trabalhar).

    Na Natureza todos os seres vivos trabalham.

    Ampliando o conceito, não nos recusa aceitar que a própria Natureza é uma trabalhadora em atividade de tempo integral — sempre a nosso favor, bem como em favor dos demais seres vivos. O Sol, por exemplo.

    Dessa forma é plenamente correto afirmar, com Kardec, que o trabalho é lei da Natureza e constitui necessidade inexorável. Se para vegetais e animais sua atividade visa a sobrevivência e perpetuação da espécie, no homem, além disso há o fator da busca permanente de maior conforto. Não fosse isso e estaríamos até hoje habitando nas cavernas, furnas e grotões e nos vestindo com pele de animais...

    Seria enganosa a concepção de que no homem só trabalha o corpo físico, até porque quem o dirige é o Espírito. Na verdade, aquele é ferramenta deste.

    É pela inteligência que o homem se põe a trabalhar, desenvolvendo a faculdade de pensar: pensar e escolher, dentre várias alternativas para solucionar problemas ou suprir suas necessidades físicas e morais, a que melhor se ajusta à sua capacidade. Tal é a tônica do progresso.

    Segundo os Espíritos que arrimaram Kardec na Codificação do Espiritismo, nos mundos mais desenvolvidos moralmente que a Terra, ali também seus habitantes trabalham. Isso não é difícil de entender, se imaginarmos que quanto mais os Espíritos se elevam, mais e mais têm condições de auxiliar os que estão à sua retaguarda. Nisso se comprazem. E essa atividade, que chamamos de caridade, é de todos, senão o mais, pelo menos um dos mais abençoados trabalhos.

    Homens de fortuna, se estão dispensados do trabalho remunerado, “do emprego”, não o estão de serem úteis ao próximo, fazendo seu dinheiro gerar empregos, com isso auxiliando não apenas a tantas famílias, mas à própria sociedade. A criação, administração e supervisão de fábricas, indústrias, estabelecimentos comerciais, educacionais, etc., eis aí uma excelente forma de trabalhar.

    Na infância pais trabalham para os filhos. Natural que, na velhice daqueles, se necessitados, os filhos trabalhem para eles.


    3.2 – Limite do trabalho. Repouso - (questões 682 a 685)

    Repousar é direito e necessidade de todos nós.

    O trabalho excessivo, voluntário (por ganância ou pobreza) ou imposto por patrões, será sempre um grave equívoco, carreando sérias conseqüências para uns e outros. Para o empregado, desgaste prematuro. Para o empregador autoritário, transgressor das Leis de Deus, débitos a reclamar duros resgates...

    Na velhice, geralmente aposentado, o homem não terá obrigação de continuar trabalhando. Contudo, isso não quer dizer que ele não possa ser útil à família e à sociedade, se tiver condições físicas para tal.

    Aqueles que não podem trabalhar, jovens ou velhos, necessariamente devem ter suas necessidades supridas, seja pela família, ou pela sociedade


    Comentários de Allan Kardec (até parece que antevendo os dias atuais):

    - não basta exigir que o homem trabalhe: necessário é dar-lhe emprego;

    - o desemprego é verdadeiro flagelo para a família toda e para a sociedade;

    - a produção deve ser proporcional ao consumo – fora desse equilíbrio ocorrerá sempre problemas trabalhistas, para os quais a sociedade deve estar preparada;

    - a educação moral é elemento fundamental para o trabalhador e isso deve acontecer nos primórdios dos bancos escolares, preparando-o para os embates do futuro;quando já trabalhando, esses conceitos não podem ficar deslembrados

    - por educação moral subentenda-se a formação de hábitos salutares:

    - respeito à ordem instituída – disciplina consciente

    - capacidade de previdência – para si e para os outros

    - hábitos que lhe fortaleçam em situações estressantes


    O LIVRO DOS ESPÍRITOS
    PARTE TERCEIRA - Das leis morais
    CAPÍTULO IV — DA LEI DE REPRODUÇÃO - (questões 686 a 701)


    Antes dos meus humildes comentários, permitam-me uma reflexão:


    O SEXO E A REPRODUÇÃO

    A idéia de que o sexo seja, assim, assim, apenas um fator a mais na vida do ser, constitui monumental engano: o sexo é, sem descolorir as demais sublimidades divinas do Criador, aquela sobre a qual se fundamenta a evolução de cada indivíduo, arrimando-o de incomparável energia, eterna, criadora.

    De início, nos reinos inferiores, garante a perpetuação das espécies.

    Já no reino da razão, qual um altar da Vida, age como laboratório das formas físicas, estrutura a família e, sobretudo, responsabiliza-se pelas abençoadas criações nas várias atividades humanas, avalizando o progresso espiritual da Humanidade. É energia da alma, para os labores da Natureza.

    E mais: pelo sexo fluem forças divinas, promovendo nascimentos e renascimentos — no santo processo da reencarnação.


    4.1 –População do globo - (questões 686 e 687)

    É pela reprodução que o mundo corporal (seres vivos) se mantém. Sem ela, pereceria. Já por isso podemos deduzir que a reprodução é Lei Divina.

    Em todos os tempos inúmeros foram os pensadores que sempre se preocuparam com a questão da excessiva população terrena, a ponto do planeta não ter meios para garantir a sobrevivência de uma eventual superpopulação.

    Kardec, como que atendendo a todos eles expôs tal questão aos Espíritos, os quais garantiram-lhe que Deus a tudo prevê e provê.

    Não deixa de ser um leve “puxão de orelhas”, não para Kardec, que bem já sabia da infalibilidade da Providência, mas sim, para quantos filhos não confiassem no Pai. E eram muitos...

    OBS: Vou citar um desses tais filhos “preocupados”. Refiro-me ao economista e religioso inglês Thomas Robert Malthus (1766-1834), que proclamou:

    (...) “pode-se seguramente declarar que, se não for a população contida por freio algum, irá ela dobrando de 25 em 25 anos, ou crescerá em progressão geométrica (1,2,4,8,16,32,64,128,256,512...8). Pode-se afirmar, dadas as atuais condições médias da terra, que os meios de subsistência, nas mais favoráveis circunstâncias, só poderiam aumentar, no máximo, em progressão aritmética (1,2,3,4,5,6,7,8,9,10... 8)”;

    (...) “o poder da população é tão superior ao poder do planeta de fornecer subsistência ao homem que, de uma maneira ou de outra, a morte prematura acaba visitando a raça humana”.

    Talvez seja oportuno registrar dois dados demográficos mundiais:

    - no ano de 1850 (pouco depois de Malthus) o mundo tinha 1.091.000 habitantes;

    - atualmente (2005) a população mundial já ultrapassou os 6.500.000!

    Errou Malthus: decorridos cerca de dois séculos da sua “profecia”, não só a Terra tem potencial para garantir a subsistência da sua atual população, como tem potencial para vê-la aumentar, isso graças aos avanços da Ciência. E para não citar outros, cito em particular o advento dos alimentos transgênicos, indenes a pragas e de muito maior produtividade.

    A fome que hoje grassa no planeta não é devida à carência de alimentos, mas sim, da criminosa distribuição de rendas, em nível mundial, gerando pobreza e miséria.


    4.2 – Sucessão e aperfeiçoamento das raças - (questões 688 a 692)

    O aperfeiçoamento das raças é dinâmico, permanente. Para não me alongar, convido o leitor a refletir que atualmente, na maioria, os jovens são longilíneos (corpos alongados e delgados). Não me refiro aos anoréxicos...

    O que acontece é que os Espíritos que reencarnam na Terra são os mesmos que reencarnavam há muitas e muitas existências. Graças à somatória dos avanços tecnológicos os hábitos alimentares se alteram e com isso o tipo físico também.

    Nos esportes, vemos as marcas serem incessantemente superadas. E aqui não me refiro apenas à altura (no basquetebol, por ex.), mas, e principalmente, à resposta física às inovações técnicas – musculação, regimes vitamínicos, etc.

    Não será condenável o homem tentar aperfeiçoar animais e vegetais, considerando que ele é co-criador quando assim age. Na verdade, torna-se instrumento de Deus, que tem o progresso por meta, em toda a Natureza.

    Com ou sem mérito, o homem labora concorre sempre para que o progresso se realize.

    A intenção desse trabalho ou de qualquer outro trabalho é que será julgada por Deus, daí resultando crédito ou débito moral para a Humanidade...


    4.3 – Obstáculos à reprodução - (questões 693 e 694)

    Sendo a reprodução Lei Divina, tudo o que a embaraçar está na contramão dos desígnios Divinos. No entanto, casos há em que o homem, a bem da coletividade, equilibra a reprodução de determinados animais e vegetais, que do contrário seria nociva, por indefinida. Eis aí o uso do poder, sem abuso.

    Impedir a reprodução, na vertente comandada pelo comodismo, aí a coisa desanda para, ou a sensualidade ou o egoísmo, em manifesto desprezo à bênção da possibilidade da paternidade/maternidade.

    No reino animal, já pelo instinto de sobrevivência, os animais agem em benefício do equilíbrio natural (caso dos chamados “predadores”, em geral).


    4.4 – Casamento e celibato - (questões 695 a 699)

    Trilhar voluntariamente pela via do celibato é trilhar em rota de colisão com a natureza... Isso, em princípio...

    Como sempre, nem nessa, como em nenhuma outra questão, se pode ou se deve radicalizar. Assim é que casos há em que o celibatarismo é profundamente abençoado, como por exemplo, para não irmos longe, o caso dos médiuns Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco, missionários da divulgação do Espiritismo.


    4.5 – Poligamia - (questões 700 e 701)

    Não haverá necessidade de maiores ilações para meridianamente se concluir que o envolvimento e relacionamento sexual de um ser humano com vários outros parceiros do sexo oposto caracteriza-se como prática observável apenas entre os irracionais...

    Sendo a família uma sublime instituição Divina e alicerçando-se sobre o amor que une um homem a uma mulher, não seria mesmo aceitável que ele ou ela mantivessem parceiros outros, no lar, ou fora dele.

    O LIVRO DOS ESPÍRITOS
    PARTE TERCEIRA - Das leis morais
    CAPÍTULO VI — DA LEI DE DESTRUIÇÃO - (questões 728 a 765)


    6.1 – Destruição necessária e destruição abusiva - (questões 728 a 736)

    Ao ler o título do presente capítulo, versando sobre destruição, justamente nesta obra que desde o início tanto exalta a obra da Criação Divina, de imediato uma certa inquietação visita nossa alma, pois, à primeira vista, sentimo-nos diante de algo paradoxal. Sim: como pode o Criador ter engendrado a “Lei da Destruição”?...

    Em demorada reflexão entendi: tudo é uma questão de raciocínio e principalmente da pobreza da linguagem humana para classificar as coisas da Natureza. Neste caso, estamos diante de mais uma bênção — a da transformação!

    OBS: Entenderemos “a destruição” lembrando da lei enunciada em 1789 por Antoine Laurent de Lavoisier (1743-1794), famoso químico francês, que preconiza:

    “Na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”.

    Essa lei ficou conhecida como a Lei da Conservação da Massa ou apenas Lei de Lavoisier. Ela se aplica muito bem ao entendimento do Ciclo Hidrológico, que corresponde ao caminho percorrido pela água no nosso planeta. Toda a água da Terra é reciclada no Ciclo Hidrológico.

    Deve-se ter em mente que a quantidade de água se mantém a mesma na Terra desde que o planeta foi formado, sempre circulando através do ciclo hidrológico, ou seja, a quantidade de água no nosso planeta hoje é a mesma do que a encontrada a 4,5 bilhões de anos atrás. O que muda é apenas o seu estado físico (sólido, líquido ou gasoso) e o local por onde está circulando. As águas evaporam-se dos mares, rios e lagos e transpiram da vegetação, formando as nuvens, que voltam à superfície sob a forma de chuvas ou neve. Ao atingir o solo, as águas das chuvas infiltram-se ou escoam para os rios, lagos e mares, onde o ciclo recomeça. O Sol é o grande motor deste ciclo.

    Outro exemplo da Lei Natural da Destruição: as baleias passam a vida toda se alimentando de milhares de peixinhos. Quanto elas morrem, milhões de peixinhos a consomem... Tudo isso, em ciclos repetidos, permanentes...

    Mais um: as grandes árvores, ao tombarem, diante do envelhecimento ou por acidentes naturais (raios, tempestades) servirão de ninho e alimento a grande quantidade de insetos, acabando por decompor-se.

    Outro: quando vemos a ação dos animais predadores, ali não está presente maldade, mas sim a “dor-evolução”, num sábio entretecimento de ações, visando o equilíbrio ecológico, ao tempo que, em vidas futuras, os papéis se inverterão. Predador e presa, presa e predador, chegados ao reino da razão, trarão insculpido no seu corpo perispiritual que a dor dói... Daí, do que fizerem, serão responsabilizados.

    Detalhe: tratando-se de animais, às questões 734 e 735, o capítulo tece duas situações diferentes, quanto a eles e o homem:

    1ª - havendo necessidade, o homem tem direito à alimentação carnívora;

    2ª - a proteção excessiva de animais (costume de alguns povos) pode espelhar mais temor supersticioso do que bondade.

    Estou me estendendo nesse primeiro item, mas meu empenho é no sentido de que, partindo de mim próprio, haja entendimento do que seria a Lei da Destruição.

    Por isso, uma derradeira ilação da minha parte:

    Assim como as águas, os minerais da Terra são, atualmente, os mesmos que eram há 4,5 bilhões de anos (idade planetária). Por infinitos e permanentes fatores físicos e químicos, naturais ou provocados pelo homem, o que ocorre é que ora são decompostos, ora transformados, ora agrupados, ora espalhados.

    O ser humano, ao nascer, em média pesa três quilos. Hoje é estimado pela Ciência (segundo artigo do doutor Marcelo Leite em “Ciência em Dia”, Caderno “mais!”, p. 9 da Folha de S.Paulo, 21.Ago.05,) que “Todos os seres humanos sobre a Terra, juntos, pesam alguma coisa da ordem de 250 milhões de toneladas.”

    Laborando sobre esses números, sabendo que a população mundial gira em torno de seis e meio bilhões de seres temos que cada indivíduo pesa, em média, 38,46 kg (250 bilhões/ton ÷ 6,5 bilhões/pessoas). Ora: como as pessoas nascem, em média, com 3 kg e têm hoje (sempre em média) 38,46/kg, apenas para efeito de cálculo verificamos que cada uma agregou cerca de onze vezes seu peso original... E como nada foi acrescentado ao planeta, temos que todos somos mesmo formados essencialmente de matéria terrena (inorgânica primordialmente e que se faz orgânica, na vida).


    6.2 – Flagelos destruidores - (questões 737 a 741)

    Os grandes cataclismos não evidenciam, de forma alguma, castigo de Deus. Ao contrário, nada mais representam do que renovação, tanto dos Espíritos, que eventualmente sofrem com eles, como também do solo.

    Quando por um cataclismo morrem adultos e crianças morrem criaturas boas e más; aquelas obtêm aprendizado e grande experiência, além de compensação no porvir; quanto a estas, desde já, abençoados resgates, além daquele aprendizado.

    OBS: A engenharia japonesa vem, cada vez mais, desenvolvendo a construção de prédios “anti-terremotos”; os EUA, a construção de abrigos seguros contra os formidáveis tornados; países com riscos vulcânicos, barreiras às lavas; grandes epidemias hoje rareiam. Em todos esses casos vemos a inteligência humana evoluindo cada vez mais, por indução da Natureza.


    6.3 – Guerras - (questões 742 a 745)

    Não há justificativa alguma para as guerras. Nenhuma guerra!

    O responsável pela guerra, objetivando lucro para si, atrai futuro de pesadíssimos ônus, demandando várias existências para expiar todo o mal que tenha causado.


    6.4 – Assassínio - (questões 746 a 751)

    Igualmente às guerras, não há justificativa para o assassinato.

    Na guerra, contudo, constrangido pelas circunstâncias, a morte “do inimigo” caracteriza ação de defesa, sem nos esquecermos que a própria guerra constitui um barbarismo.

    Vou a ponto de afirmar que até mesmo em se tratando de legítima defesa, o verdadeiro cristão (que estou longe de ser, é bom que eu o diga...) não causará a morte do agressor, nem “do inimigo”.

    OBS: O ínclito Marechal Rondon (Cândido Mariano da Silva — 1865-1958), sertanista e militar brasileiro, internacionalmente laureado por sua dedicação na proteção dos índios, incomparável desbravador do sertão brasileiro, nele edificando linhas telegráficas, determinava aos seus auxiliares, antologicamente: “Morrer, se preciso; matar, jamais!”.


    6.5 – Crueldade - (questões 752 a 756)

    Qualquer ato cruel em nada se compara à necessidade de destruição.

    Agir com crueldade denota primitivismo — ação pelo instinto bruto, em detrimento da bondade inserida por Deus em todos os Seus filhos, ao criá-los. Essa bondade, então latente, cedo ou tarde desabrocha, qual perfume das flores, no jardim ou nos pântanos.

    Há homens muito cultos e cruéis, num evidente demonstrativo de que inteligência e cultura não são avalistas de bondade, de amor. Tais indivíduos serão expurgados da Terra quando esta progredir moralmente, indo renascer em Mundos Primitivos, onde sua inteligência alavancará o progresso deles e o seu próprio.


    6.6 – Duelo - (questões 757 a 759)

    Sobre o duelo não há muito que dizer, senão que é um atestado de orgulho e vaidade. Se há ofensa, ideal será haver perdão, pedido pelo ofensor e deferido de coração, pelo ofendido. Assim se forjam as grandes amizades!


    6.7 – Pena de morte - (questões 760 a 765)

    (Este é capítulo de ações humanas sem justificativas de qualquer espécie).

    A pena de morte, aceita e praticada por alguns países, ditos “desenvolvidos”, atesta que por lá os homens tomaram o lugar de Deus, isto é, ao invés da natural, promovem a artificial. No caso, se o objetivo era a correção, incomparavelmente melhor teria sido a recuperação do criminoso, jamais eliminação sumária. Até porque, sabemos nós, os espíritas, que o Espírito é imortal e assim esse, chegando ao Plano Espiritual, quase sempre pleno de revolta e desejo de vingança, pervagará em sombrias paragens, até que venha a ser esclarecido. Sabe Deus quanto tempo isso demandará e, de entremeio, quantas obsessões...


    O LIVRO DOS ESPÍRITOS
    PARTE TERCEIRA - Das leis morais
    CAPÍTULO VII — DA LEI DE SOCIEDADE - (questões 766 a 775)


    7.1 – Necessidade da vida social - (questões 766 a 768)

    O ser humano, como de resto quase todos os demais seres vivos, mantém-se agrupado aos seus iguais, durante a vida toda, ou na maior parte dela. Essa peculiaridade, sobre ser uma questão de sobrevivência, seja pelo apoio recíproco, seja por sintonia de instintos, no caso humano é acrescida do fato de que ter companhia representa permanente oportunidade de novos aprendizados.

    O homem, em particular, é essencialmente gregário. Assim Deus o fez. Tal visa o progresso, que como já vimos, é Lei Moral, inexorável, para tudo e todos.

    OBS: Uma pessoa que do nascimento à morte não tivesse qualquer companhia humana, certamente não evoluiria. Uma ou outra eventual ocorrência nesse sentido, de que a história já tem registro, restou demonstrado que se instala degradação do ser humano — caso dos denominados “meninos-lobo”, que andam de quatro, emitem sons estranhos e não têm qualquer cuidado físico, agindo apenas por instinto.


    7.2 – Vida de insulamento. Voto de silêncio - (questões 769 a 772)

    O indivíduo que preferir a solidão à companhia de seus semelhantes estará agindo por egoísmo. Temos exemplo disso pelos eremitas, que vivem isolados ou apenas com outros de igual pensamento isolacionista, vivendo eles em lugares ermos, afastados, distantes do convívio social e da própria civilização.

    OBS: Sempre a Humanidade devotará gratidão ao ínclito Dr Albert Schweitzer (1875-1965), francês, médico, escritor, teólogo protestante, organista de nomeada e musicólogo. Jovem ainda, ao tomar conhecimento da miséria reinante na região de Lambaréné, no Gabão (África), decidiu estudar Medicina. Formado, desligou-se da civilização e internou-se naquela sofrida região, onde fundou um hospital para leprosos. Ali permaneceu por cinqüenta anos, atendendo enfermos de praticamente todas as patologias, numa sublime lição de humanismo! O que glorifica a vida desse missionário é o fato de que, sendo organista de fama mundial, trocou os holofotes dos grandes palcos europeus pelo brilho das estrelas em plena selva bruta. Em 1952 recebeu o Prêmio Nobel da Paz.

    Quanto aos que inclusive fazem o chamado “voto de silêncio”, entregando-se em clausura às preces e à mortificação, causa espanto ao bom senso que praticamente ignorem (para não dizer “desprezem”) as bênçãos divinas da palavra, da convivência em família e da participação social — sublimes fatores catalisadores da evolução.

    OBS: “A palavra é de prata, o silêncio de ouro”. Eis um aforismo popular que, como todos os demais, não deve ser aplicado como regra geral, senão sim, como um sábio conselho para que a palavra só seja utilizada em atos e fatos de valor moral (difícil...).

    Em última análise, a reclusão e o mutismo, com ausência de convivência e sem obras, em vida apenas contemplativa, impedem também o progresso, não só do praticante, mas de toda a sociedade.

    OBS: Mas, peço licença para duas outras reflexões a respeito do afastamento da civilização ou da reclusão social, espontaneamente ou não:

    1ª - Nós, os espíritas, temos por convicção que trazemos para cada existência terrena todo um acervo de comportamentos e tendências, acumulado em vidas passadas. Aí, talvez nos seja permitido inferir que o eremita seja aquele indivíduo que em outras vidas tenha vivenciado pródiga atividade social, senão com luxúria e futilidade, ao menos com desperdício de oportunidades evolutivas. No Plano Espiritual, conscientizando-se disso, requer vida distante do rebuliço social, podendo ser então programado para viver em regiões remotas, quais a dos esquimós, dos caiçaras, dos ruralistas de pequenos e distantes povoados.

    2ª - Numa outra hipótese, sem que tenha havido tal programação, de “motu próprio” o indivíduo decide afastar-se do meio social, partindo quase sempre sozinho para longínquas regiões. Assim procede para ir conviver com pequenos aglomerados de famílias, onde impera a simplicidade e cujos modos de viver proporcionem tranqüilidade. Pressente que lá encontrará a paz que sua alma deseja, ao tempo que poderá ser útil a alguém...

    Num caso ou no outro, nada impedirá que o Espírito aproveite para evolver moralmente nas oportunidades que se lhe apresentem e que invariavelmente surgem.


    7.3 – Laços de família - (questões 773 a 775)

    Observando a Natureza muitas pessoas se espantam ante o fato de que os animais, uma vez crescidos, separam-se indissoluvelmente das respectivas famílias. Tais pessoas apóiam-se nisso para deduzir que os laços familiares são uma criação social, afastando o homem da sua própria natureza...

    Grave engano, primeiro porque o animal não raciocina, não vive vida espiritual, apenas vida material, regida pelo instinto. Verdade é que quase que na totalidade as crias são protegidas pela mãe ou pai, que lhes garantem a manutenção da vida — crescimento. No entanto, uma vez adultos, cessa tal proteção e os já crescidos descendentes espontaneamente se separam, para que ambos, filhos e pais, dêem vazão aos seus instintos, agindo precipuamente pela sobrevivência e em garantia da perpetuação da espécie.

    Não bastasse o conforto moral e físico que de forma inigualável o lar proporciona, nós espíritas sabemos que é na família que se reencontram Espíritos fortemente ligados, positiva ou negativamente por laços do passado.

    Sim... É ali, no palco humilde do casebre ou no esplendor do palácio que se vêem, frente a frente, velhos amores ou velhos rancores. No primeiro caso desaparece a saudade e no segundo, inaugura-se a abençoada oportunidade de reconciliação.

    A abolição do laço familiar representaria grave retrocesso moral para a Humanidade, expondo os homens a uma existência com pilares no egoísmo.


    O LIVRO DOS ESPÍRITOS
    PARTE TERCEIRA - Das leis morais
    CAPÍTULO VIII — DA LEI DO PROGRESSO - (questões 776 a 802)


    8.1 – Estado de natureza - (questões 776 a 778)

    O progresso é inexorável. É lei — Lei Divina.

    Para entendermos o progresso da Humanidade, no coletivo, e do homem, no individual, precisamos conceituar que em a Natureza tudo segue um curso harmônico, planejado meticulosamente, onde o dinamismo é a tônica.

    Progridem seres e mundos. Disso não há duvidar.

    Quaisquer que sejam os ângulos pelos quais o progresso seja focalizado, qualquer que seja a latitude intelectual ou racional do examinador, sejam enfim quais sejam os enfoques (científico, filosófico ou apenas didático), sempre restará inquestionavelmente exposto que uma Inteligência Superior — de inimaginável superioridade — programou-o (ao progresso).

    Assim, toda essa dinâmica se rege por leis, pré-elaboradas, isto é, antecedem à sua origem. Essa sublime atividade é a obra da Criação.

    Da criação à chegada à angelitude, o Princípio Inteligente percorre infinitos caminhos evolutivos, sempre sob e ao amparo (invisível) de Entidades Siderais, cuja ação se dá por delegação de Deus, cujas ordens conhecem e cumprem, com extremado Amor e competência, absolutamente fora da capacidade humana de serem avaliados.

    Na infância da Humanidade tudo é primitivismo e o homem, ali, pouco tem com que se preocupar; o progresso, contudo, potencialmente inserido no seu Espírito, o induzirá a mudanças, tendentes a melhoria, algo assim como o percurso que o levou da caverna ao apartamento “de cobertura”, da canoa tosca ao transatlântico, da lente de aumento ao telescópio e da visão apurada ao microscópio.

    Definitivamente: o homem jamais retrograda, isto é, seu caminho é direcionado para o progresso.

    OBS: Não são poucos os que discordam dessa última assertiva, diante de procedimentos nefandos, cruéis, bárbaros, sendo os agentes qualificados, ou melhor, desqualificados, como “abaixo do nível dos animais”. Enganosa, essa reflexão, pois o progresso é patrimônio intocável. Nesses tristes procedimentos o que se verifica é a ação infeliz de Espíritos crestados no mal, cujo proceder, cedo ou tarde, será freado, seguindo-se longo tempo de expiações e provações, sob a pedagogia da dor — professora inigualável nesses casos. Deve-se ter em conta que Deus “não necessita de secretários” para que expiações se efetivem, contudo, se há ação malvada, certamente a vítima expia, isto é, quita débito e o que a pratica o assume.


    8.2 – Marcha do progresso - (questões 779 a 785)

    No longo desfile de existências o indivíduo vai naturalmente aumentando seu estoque de aprendizados. O que quase sempre se observa é que o progresso intelectual, na maioria dos homens, antecede ao moral. Isso acontece porque, desenvolvendo a inteligência, o homem adquire melhor capacidade de julgamento, de comparação, vindo a perceber que o Bem supera ao mal. Num exemplo simplista: agindo mal, logo o remorso se apresenta e causa desconforto; já ao contrário, quando é caridoso, indizível bem-estar o visita.

    O progresso tem potencial imbatível. Nada, absolutamente nada, obsta-o.

    O orgulho e o egoísmo são obstáculos à marcha apenas do progresso moral, já que o intelectual se efetiva, a despeito de tão nefasta postura humana. Citamos, como outro breve exemplo, o caso dos criadores da bomba atômica: muita intelectualidade e nenhuma fraternidade...

    OBS: Tal ocorrência (essa do progresso intelectual acontecer a despeito de erro no moral) vem confirmar um aforismo pelo qual “De todo mal Deus tira um bem”. Óbvio que tal estado de coisas é passageiro, eis que o homem não tarda a se dar conta de que o gozo terreno é efêmero, ao passo que o moral lhe traz duradoura felicidade.

    Interessante notar que Kardec, a propósito, comparou os dois progressos, o moral e o intelectual, citando o patamar em que a Humanidade se encontrava no século dezenove, relativamente ao século décimo quarto; e depois, mesma coisa, indagando qual será o progresso do vigésimo quarto século, comparativamente ao século dezenove...


    8.3 – Povos degenerados - (questões 786 a 789)

    Quando observamos um determinado povo agindo com barbárie, durante uma ou algumas gerações, podemos conjeturar que são Espíritos assim aglomerados por Benfeitores Celestes, que os reúne segundo seu nível moral, similar. Incoercivelmente o progresso os alcançará e assim, adiantando-se, deixarão tal procedimento. Inconteste que a Terra é sublime escola na qual, “ano a ano”, são matriculados alunos “analfabetos do Evangelho”, para aprenderem e praticarem a moral cristã, que é universal. É assim que todos nós progredimos...

    O progresso terreno, de povo a povo, levará a Humanidade, um dia, à prática constante da caridade, em nível de “globalização”. Até que isso aconteça não é de se objetar que muitos serão os Espíritos terrenos rebeldes que episodicamente estagiarão em mundos primitivos, só retornando à Terra, quando seu procedimento não mais obstaculizar o progresso geral. Por si só tal premissa avaliza a reencarnação e a sublimidade das vidas sucessivas, plenas de infinitas oportunidades de progresso.

    Fôssemos nos apoiar na teoria da vida única, como entender que há pessoas que são boas e outras que são más? Se Deus criou a todas, como pode ser que aquele nasce em nação pacífica e este em povo guerreiro? Como é que um traz boas tendências comportamentais e este outro só procede mal? Onde a Justiça Divina?...


    8.4 – Civilização - (questões 790 a 793)

    Civilização é a ação de civilizar um país, um povo, de aperfeiçoar as condições materiais e culturais em que vive. Envolve o estado de desenvolvimento econômico, social e político de um país ou sociedade, e que é considerado como ideal, aí se incluindo as características próprias à vida intelectual, artística e moral.

    Verificamos, assim, que a civilização não é homogênea na Terra...

    E mais: as civilizações terrenas que não se enquadram no mural acima não podem e nem devem ser consideradas decadentes, menos ainda serem condenadas. Não. O que se deve ter em conta sobre a civilização — qualquer civilização — é que ela foi formada e reúne o somatório do comportamento dos membros que a compõem. Em outras palavras, e sem radicalizar, podemos inferir que uma civilização exprime a tendência moral da maioria dos homens que nela vivem.

    A intelectualidade de um povo não é aval de sua grandeza moral. O que define uma civilização completa é a exposição de que dela estão banidos os vícios que a maculam e os seus componentes vivem como irmãos que se amam, sobre serem praticantes permanentes da caridade. Não é o caso, ainda, da Terra...

    Civilização completa, pois, é aquela onde inexistem o egoísmo, a cobiça e o orgulho e onde a lei do amor ao próximo, inserta na consciência da população é espontaneamente respeitada e mais que isso, praticada, pela consciência de que “o que sobra em sua casa, com certeza está faltando na casa de alguém” (essa eu ouvi do saudoso Chico Xavier).


    8.5 – Progresso da legislação humana - (questões 794 a 797)

    Neste planeta a evolução da humanidade apresenta variados graus, em razão de que as leis terrenas são cambiantes, isto é, adequam-se a cada uma das fases de uma mesma sociedade; aí, advindo progresso intelectual e moral, elas são repensadas e substituídas por outras, consentâneas com o novo patamar.

    Por mais severas sejam as leis humanas, tendentes a punir réus, ideal seria que elas se voltassem para a educação, de forma que os crimes cessariam, ou no mínimo, escasseariam e seriam de menor gravidade.


    8.6 – Influência do Espiritismo no progresso - (questões 798 a 802)

    Considerando que a Doutrina dos Espíritos constitui uma releitura fiel da moral cristã nada objeta que ela venha a se tornar unanimidade neste mundo. Isso porque os Espíritos que formam a humanidade terrena, cedo ou tarde, terão que pautar seu comportamento moral pelos ensinos de Jesus, que são universais.

    Obviamente isso demandará grandes porfias, seita a seita, filosofia a filosofia religiosa, tema a tema moral, assunto a assunto coletivo. Tudo, de início, visando a destruição do materialismo e abrindo um leque de infinitas hastes para o futuro, individual e coletivo. Futuro esse que terá foco no Plano Espiritual, com entendimento da Justiça Divina, máxime da reencarnação.

    À questão 802 Kardec indaga por que os Espíritos “não apressam” o progresso, visto que ele será marcado pelo Espiritismo.

    Responderam-lhe os Espíritos elevados que, como ponto alto do Amor de Deus para com nós outros, Jesus aqui veio, como homem, realizando prodígios e deixando eternas lições de amor ao próximo e informações sobre o Reino Divino, no qual todos um dia nos fixaremos. E o que aconteceu?... O Cristo convenceu a todos? O fato é que Deus não opera por milagres, e sim, deixando ao homem o mérito próprio do convencimento pela razão.

    OBS: Neste ponto peço licença para alongar um pouco essa questão dos “céus mandarem à Terra um milagre para convencer todo mundo”. Conjeturo sobre qual seria a recepção da Humanidade a Jesus, num eventual retorno, pois há uma penosa realidade para os cristãos: Ele não é, nem nunca foi unanimidade terrena... Senão, vejamos:

    - à época de Jesus na Terra, a população mundial, segundo estimativa de alguns demógrafos, oscilava de 170 a 250 milhões de habitantes: fiquemos na média;

    - nem todos O aceitaram como o Mestre dos mestres;

    - até hoje, não aceitar o Cristo como o Messias, de forma alguma exclui alguém de proceder fraternalmente, de “ser do bem”. Não! Ser bom jamais foi apanágio apenas dos cristãos ou dos seguidores de qualquer outro credo ou religião, ou mesmo de eventuais ateus;

    - em 1952, no livro “Roteiro”, Ed. de 1952, da FEB, RJ/RJ, pela psicografia de F.C.Xavier, o Espírito Emmanuel informava que para os 2 bilhões de Espíritos encarnados havia 20 bilhões desencarnados;

    - em 1964, no “Anuário Espírita de 1964”, Ed. do I.D.E., Araras/SP, também pela psicografia de F.C.Xavier, o Espírito André Luiz informava que para os 3 bilhões de Espíritos encarnados havia 21 bilhões desencarnados;

    - assim, na primeira citação (de Emmanuel), temos que para 1 encarnado havia 10 desencarnados, e na segunda (de A.Luiz), a proporção era de 1:7;

    - atualmente, 6,5 bilhões de pessoas habitam a Terra. Quantos desencarnados? Se ficarmos com o último dado, de A.Luiz: 21 + 3 – 6,5 = 17,5 bilhões; e aí, a proporção será de 1:2,7.

    - caro leitor: todos esses números (citação feita apenas como conjetura, que como tal, não passa de opinião pessoal) parecem sinalizar que o planeta Terra, do tempo de Jesus entre nós aos dias atuais, vem sendo destino de grande número de Espíritos alienígenas...(só conjeturas);

    - se volvermos ao tempo de Jesus (± 210 milhões de encarnados), imaginar qual o n° de desencarnados de então é conta que fica difícil de ajuizar, mas pela proporção, talvez seja de 10 vezes mais do que dos encarnados, isto é, algo em torno de 3 bilhões;

    - dessas reflexões temos que para mais de 20 bilhões de Espíritos, encarnados e desencarnados, sequer estariam na Terra, quando da primeira vinda de Jesus, logo, para eles, não haveria retorno, senão sim, um primeiro contato;

    - segundo o “Almanaque ABRIL-Mundo” de 2002, p. 83, em 2000 havia cerca de 2 bilhões de cristãos no mundo. Ora, dedutivamente (6,5 – 2 = 4,5) 4,5 bilhões não têm Jesus como referencial de “Salvador”.

    Triste. Mas essa é a realidade, hoje!

    Contudo, quem poderá negar que com os fantásticos meios de divulgação hoje existentes, um novo estágio de Jesus entre nós, encarnado, agirá como sublime catalisador de uma expressiva melhoria moral de toda a Humanidade? Praza aos Céus!




    O LIVRO DOS ESPÍRITOS
    PARTE TERCEIRA - Das leis morais
    CAPÍTULO IX — DA LEI DE IGUALDADE - (questões 803 a 824)


    9.1 – Igualdade natural - (questão 803)

    Perante Deus todos os homens são absolutamente iguais e submetidos ás mesmas Leis Divinas — naturais e morais. Nascimento, vida e morte sujeitam todos às mesmas ocorrências, sejam de fraqueza, de dor ou de aprendizado.


    9.2 – Desigualdade das aptidões - (questões 804 a 805)

    Conquanto todos os Espíritos tenham a mesma origem — criação Divina — acontece que, via de regra, os que foram criados há mais tempo, atualmente se encontram mais adiantados na escala moral, desde que para isso tenham se aplicado. E têm oportunidade de repartir seus conhecimentos com o próximo, situado em nível mais precário de adiantamento.

    Da diversidade de patamares morais ou intelectuais decorre o progresso terreno, que obedece a Providência Divina. Sim, porque o progresso se adianta em razão das multiplicadas aptidões. Não bastasse o progresso que os mais preparados ofertam à Humanidade, é por graça do Criador que a Terra de quando em quando recebe a visita de Mensageiros Celestes, cuja permanência entre nós resulta em largos passos evolutivos.


    9.3 – Desigualdades sociais - (questões 806 a 807)

    As diferenças sociais entre homens, países, povos e culturas se dão por obra única e exclusiva do comportamento humano. Mas tempo virá em que desaparecerá do cenário terreno quaisquer laivos de egoísmo e orgulho, quando então, o mundo será uma única grande família, na qual só se verá superioridade espiritual. E assim mesmo, essa superioridade, jamais proclamada ou sob foco de holofotes, se aplicará em ajudar aos que vêm ao encalço da felicidade e que ainda carecem desse auxílio.


    9.4 – Desigualdade das riquezas - (questões 808 a 813)

    Tanto a riqueza, quanto a pobreza, constituem difíceis provações.

    A primeira, quase sempre, tem raízes complicadas na sua origem e mesmo sendo legalmente repassada a herdeiros, não deixa de trazer estigmas.

    Em se tratando de herdeiros a eles competirá identificar a procedência da fortuna que lhe cai às mãos e se observada alguma injustiça, dever que se lhes impõe é incontinenti repará-la. Disso resultará bênçãos para as vítimas, para si e para aquele que lhes repassou os bens. Ponto pacífico entre os espíritas diz que a riqueza é empréstimo Divino para que o detentor dela (adquirida por esforço próprio ou por herança) quite pesados débitos contraídos em vidas passadas. Dentro desse parâmetro, o dinheiro se torna excepcional ferramenta de justiça, vez que proporciona ao rico inapreciadas bênçãos de resgates... (Gerar empregos, uma delas).

    É matematicamente comprovado que se todo o dinheiro mundial fosse repartido por igual, para que não existissem ricos nem pobres, em pouco tempo, pouquíssimo, logo retornaria o cenário anterior, pela irresistível força das coisas. Isso porque diferentes são as tendências, as reações, o mau uso da inteligência, além da cobiça e ambição sobrepairarem de mãos dadas sobre os gananciosos, que muito mais os há do que aqueles que se contentam apenas com o necessário... O ridículo “conto do bilhete premiado”, por exemplo, é mostra do pano da cobiça humana.

    OBS: Em Setembro/2005 a ONU (Organização das Nações Unidas) divulgou seu Relatório do Desenvolvimento Humano 2005 (sobre 177 países), do qual cito alguns detalhes:

    - se o mundo fosse um único país, seu nível de desigualdade seria tão elevado que só seria superior ao da Namíbia, nação com maior índice de desigualdade;

    - as 500 pessoas mais ricas do mundo têm renda total superior ao conjunto de 416 milhões de habitantes mais pobres do planeta; isso representa que um bilionário equivale a 820 mil pobres;

    - o IDH (Índice do Desenvolvimento Humano) expõe drásticas quedas de posições entre os países da África subsaariana, entre os países que enfrentam epidemias de AIDS ou que passaram por guerras recentemente; a maior de todas as quedas no ranking é da África do Sul e a segunda reporta-se à República da Moldova, ex-território da antiga União Soviética;

    - dos 177 países citados pela ONU, o Brasil ocupa o 63° lugar, sendo considerado de “desenvolvimento humano médio”;

    - no quesito “desigualdade” o Brasil tem um impressionante destaque internacional, sendo mostrado que de todos os países do Relatório só em cinco países os 10% mais pobres ficam com uma parcela de renda menor que a dos brasileiros miseráveis — Venezuela, Paraguai, Serra Leoa, Lesoto e Namíbia; e observa mais: em nenhum país a desigualdade de renda é tão intensa quanto no Brasil. Triste realidade... (Folha de S.Paulo – 07.Setembro.2005, p. A 20, A 21 e A 22).

    Assim, quem pensa que para todos serem felizes há necessidade de todos terem a mesma quantidade de dinheiro se engana: para a felicidade geral bastaria que cada ser se desincumbisse da atividade para a qual tem aptidão e que cada um se contentasse apenas com o necessário. Assim agindo, a humanidade poderia tranqüilamente suprir a necessidade geral e ainda sobraria tempo para mais educação, mais aprendizado — maior evolução.

    Quando miramos tanta miséria na paisagem terrestre de forma alguma podemos excluir a sociedade como co-responsável por isso, pois é a ela, sociedade, sobretudo, que incumbe zelar por todos os seus membros, assistindo-os nas suas carências quando pobres — distribuição eqüitativa de renda — ou eliminando evangelicamente más tendências, quando diagnosticadas.


    9.5 – As provas de riqueza e de miséria - (questões 814 a 816)

    Riqueza é sinônimo de autoridade, de poder, de projeção social. Nisso reside a provação do rico: ter à sua disposição tais tentações mundanas e vencê-las.

    Já a pobreza, igualmente constitui difícil provação, pois só com resignação o pobre encontrará forças para vencer o impulso da revolta, quiçá da blasfêmia...

    O homem amoedado tem por obrigação usar o poder facultado pelo dinheiro para criar oportunidades de trabalho ou de manutenção para com os necessitados. Essa é uma dura prova pela qual Deus o submete e do que deverá prestar contas, sendo severamente questionado quanto a utilização da fortuna. Imaginando o quanto de poder, o quanto de meios e o quanto de autoridade que o dinheiro confere neste mundo ao seu detentor, não nos dificulta entender porque a riqueza é mesmo uma grande prova, indutora do gozo desenfreado de prazeres mundanos, com arrastamento e vivência de paixões comprometedoras da saúde física e espiritual.


    9.6 – Igualdade dos direitos do homem e da mulher - (questões 817 a 822)

    Considerar a mulher mais fraca do que o homem é postura atualmente ultrapassada, pelo menos, na maioria dos povos. Esse equívoco adveio do fato dos homens, primitivamente, decretarem superioridade masculina em razão da sua constituição física. Ledo engano. Deus outorgou ao homem músculos mais desenvolvidos para que ele os utilizasse a bem da família, suprindo suas necessidades, no entanto, à mulher consignou funções especiais, equipando-a de maior sensibilidade e delicadeza, atributos sublimes de emprego na maternidade.

    Ideal será uma sociedade na qual homens e mulheres tenham iguais direitos, não significando isso que desempenhem mesmas atividades físicas: para o bem comum, que cada um desempenhe atividades que, no conjunto, resultem do bem de todos. Ademais, sabendo nós espíritas que o Espírito não tem sexo e que em suas vidas sucessivas, passadas ou futuras, já reencarnou ou poderá vir a reencarnar num ou noutro sexo, mais ainda pontifica que o direito de ambos é exatamente o mesmo, seja perante o mundo, seja, principalmente, perante Deus.


    9.7 – Igualdade perante o túmulo - (questões 823 a 824)

    Esse tema, em particular quando se refere à pompa dos funerais é por demais delicado e para refletirmos sobre ele necessário se faz que nos despojemos de preconceitos. Em primeiro lugar devemos nos abster de quaisquer julgamentos, nada impedindo, no entanto, que reflitamos sobre a ocorrência rotineira de faustosos túmulos serem erguidos, para bem demarcar a posição social dos que ali terão depositados seus despojos. Essa é uma ação comandada pelo orgulho. Outro poderá ser o enfoque se uma coletividade celebrar com honra o funeral de um homem de bem, com ou sem um marco físico.

    O que a ninguém deve escapar é o raciocínio de que a morte a todos os corpos nivela, sob ação da Natureza, com ou sem pompa, com ou sem obras fúnebres erigidas ao morto. De cada existência terrena o que mais dura são as boas (ou as más...) lembranças naquele que retorna á pátria espiritual aonde, ao chegar, estará tão-somente com a bagagem do bem ou do mal que tenha feito, além do ônus moral decorrente do bem que poderia ter feito e não fez...




    O LIVRO DOS ESPÍRITOS
    PARTE TERCEIRA - Das leis morais
    CAPÍTULO X — DA LEI DE LIBERDADE - (questões 825 a 872)


    10.1 –Liberdade natural - (questões 825 a 828)

    A liberdade é uma condição relativa no mundo porque todos os homens precisam uns dos outros, seja qual seja sua condição social. Na hipótese altamente improvável de que alguém pudesse sobreviver isoladamente num deserto, numa floresta, numa ilha deserta ou em região montanhosa árida e despovoada, só aí poderíamos imaginar que esse eremita teria liberdade integral.

    OBS: O item se refere ao mundo material... Nós, espíritas, cremos que até mesmo vivendo em completo isolamento, isso só será verdadeiro no plano físico, pois no espiritual, certamente tal indivíduo terá companhia...

    Já a partir de duas pessoas, ambas não têm liberdade plena, eis que ambas têm direitos que devem ser respeitados.

    O despotismo, no lar ou na profissão, praticado por quem se jactancie de ser liberal, na verdade não passa de falsidade, para não dizer de uma “triste comédia”.


    10.2 – Escravidão - (questões 829 a 832)

    A escravidão, sob qualquer ponto de vista, é absolutamente execrável. Nada há que a justifique, nem mesmo — e até principalmente, aliás — quando ela seja ou tenha sido costume de um povo.

    Quando alguém se vale de escravos por ignorância dos preceitos cristãos, isso não o exime de ser culpado de violentar a Natureza, pois a liberdade é uma Lei Natural, Divina, insculpida por Deus na consciência de todos os homens e se ouvi-la, a razão proclamará que todos somos iguais perante Deus.

    O argumento de que algumas raças humanas, de pouca aptidão, dependem das mais aptas e, portanto podem ser escravizadas não resiste á realidade espiritual do homem, segundo a qual, se há mais fracos, é dever dos mais fracos ajudá-los, e não, torná-los seus servos ou dependentes. Outro argumento falso é o de que não há nenhuma violência à Natureza se um escravo é bem tratado. Escravo é sempre escravo — não se pertence. Tratar bem se trata a objetos e animais, para serem valorizados...

    OBS: Kardec não teve a felicidade de ver a escravidão ser abolida, no mundo todo. Inclusive, o Brasil foi o último país a extirpar essa terrível chaga (13.05.1888). Refletindo sobre os males morais que a escravidão trouxe para este planeta, talvez não seja exagero de minha parte lucubrar que por causa dela a psicosfera terrena se ressente ainda hoje (contendo miasmas astrais) e assim permanecerá por mais tempo. Quanto? Só Deus o sabe...


    10.3 – Liberdade de pensar - (questões 833 a 834)

    A única atividade humana, por sinal não-física, que confere ao homem total e ilimitada liberdade é o ato de pensar. Não há como impedi-lo. Não obstante, Deus conhece todos os pensamentos e assim somente à Sua justiça o homem deles terá que prestar contas.


    10.4 – Liberdade de consciência - (questões 835 a 842)

    Por liberdade de consciência compreende-se o direito humano de proceder de acordo com o que julga ser certo, ou o mais acertado. Já se vê que tal decisão tem origem no íntimo do homem, isto é, na sua consciência.

    Ninguém tem o direito de impedir ou criar obstáculos, nem a essa nem a qualquer outra liberdade.

    Toda e qualquer crença deve ser respeitada. Isto, aliás, até consta como preceito da Constituição Brasileira, qual, aliás, nas Constituições da maioria das nações ocidentais. O que é preciso se ter em conta é se não resulta nenhum mal do exercício, prática ou vivência da crença. Nesse caso, impedir esse resultado não representará, necessariamente, impedimento à liberdade de consciência. Ainda assim, impedindo-se o mal, não há possibilidade humana de impedir o pensamento, a crença íntima...

    Diante dos despautérios decorrentes de ações movidas por essa ou aquela crença, a melhor de todas as atitudes será a de convencer seus seguidores/agentes do seu equívoco, mediante exemplos de brandura, fraternidade e amor ao próximo.

    Definir qual a melhor doutrina, a melhor crença, ou a melhor religião é tarefa razoavelmente fácil: veja se seus seguidores pregam e exemplificam o amor a Deus e ao próximo, se defendem a união dos povos e se agem sempre pensando no bem alheio.


    10.5 – Livre-arbítrio - (questões 843 a 850)

    A liberdade de escolher e agir é uma das maiores bênçãos dadas por Deus ao homem e que o acompanha, praticamente, desde o nascimento.

    À medida que o ser vai crescendo, da infância à adolescência, desta à juventude, daí à maioridade e finalmente à idade adulta, o livre-arbítrio se adequa segundo o aprimoramento - intelectual, moral e espiritual.

    As vidas passadas influenciam fortemente tal adequação e até mesmo podemos refletir que essa é mais uma das inúmeras benéficas vertentes da reencarnação, eis que, se a tendência é negativa, a oportunidade é de domá-la e, se positiva, incrementá-la.

    Obviamente, a matéria, no caso terreno, exerce apreciável influência sobre o Espírito, não a ponto de ser responsável pelos atos praticados, mas, principalmente, pelas dificuldades que impõe, em face da densidade física que tem que ser superada.

    Não se culpa o indivíduo tolhido de suas faculdades: o que fizer o torna inimputável. Na verdade, porém, já essa supressão da consciência é uma resultante de erros em vidas passadas, sendo expiada nesta. Se a matéria se livra da culpa, nem por isso o Espírito deixa de sofrer pelas aberrações.

    Bem ao contrário é o caso do alcoólatra que por esse vício compromete sua razão. Na verdade, comete dupla falta: desequilíbrio mental e danos físicos.

    Imposições do meio social não devem constituir impedimento para atos consentâneos com a consciência do homem.

    OBS: “Quebrando o protocolo”, peço licença para acrescentar algumas pequenas notas e figuras sobre livre-arbítrio e determinismo, que coexistem embora nem sempre sejam proporcionais.


    a. Livre-arbítrio: - Amplia-se pela educação e experiência e cria as circunstâncias presentes e futuras, ofertando várias opções de qual caminho seguir...


    b. Determinismo: Teoria filosófica segundo a qual os fenômenos naturais e os fatos humanos são causados por seus antecedentes. Cito algumas espécies de determinismo:

  • Natural: Expressões do mundo físico: respirar / alimentar-se / repousar

  • Humano: Expressa-se pela Lei Divina de Ação e Reação (bom carma ou mau carma).

  • É sempre conseqüência do uso do Livre-arbítrio.

  • Absoluto: segundo elaboração do mapa pré-reencarnatório:

  • - nascer com corpo físico portador de patologia(s) congênita(s)

    - vivenciar expiações mutiladoras e dilacerantes

    - vivenciar vários tipos de injunção penosa

    - vivenciar em várias áreas sociais

    - vivenciar em várias situações financeiras

  • Relativo: alterável pelo livre-arbítrio em razão das realizações eleitas


  • boas escolhas, em ordem com Deus: paz, harmonia


    más escolhas, na contramão divina: insucessos e dor


  • Filosófico:

  • A filosofia grega clássica elimina o acaso, tudo se produz mediante uma causa.

    Os fenômenos naturais e fatos humanos são causados por seus antecedentes.

    Encadeamento de causa e efeito entre dois ou mais fenômenos

    =

  • Social: É o caso, por exemplo, de alguém que numa vida inteira tenha procedido e vivenciado dentro da moral cristã, reencarnando numa próxima existência em sociedade cujos costumes colidam com tal procedimento, naturalmente terá que desenvolver enorme esforço para adequar-se a essa difícil situação-teste. Será recompensado desde que se esforce em vencer tal obstáculo.

  • Laplaciano: Dizia Pierre Simon, marquês de Laplace (1749-1827), que se conhecendo as leis do universo pode-se prever estados futuros. Sua teoria não resistiu ao avanço da ciência, primeiro porque jamais o homem terá condições de “conhecer as leis do universo” e segundo porque está evidenciado que na natureza há um “princípio de incerteza” (caso da microfísica, no exemplo do átomo: conhecer a velocidade do elétron torna impossível o conhecimento da sua posição).

  • Einsteniano: Segundo Albert Einstein (1879-1955) é indispensável a todo procedimento científico ao menos supor alguma espécie de harmonia no mundo.

  • Geográfico: O homem é fruto do meio ambiente


  • Determinismo Divino: a evolução. Uma única lei: o amor universal! Cujas resultantes são: o Bem e a Felicidade. Em todos os casos: o espírito evolui!

  • Abrimos aqui parênteses para comentar a cassação do Livre-arbítrio, sob Compulsoriedade Divina. Vamos nos lembrar da Q. 262 do “O LE”:

    “Deus pode impor uma existência ao Espírito com má-vontade”(o ser teimoso... erros sobre erros...)


    Lembrando A.Kardec, em “O Evangelho Segundo o Espiritismo”,Cap V, n° 8:

    “As tribulações podem ser impostas a Espíritos endurecidos, ou extremamente ignorantes, para levá-los a fazer uma escolha com conhecimento de causa”.


    10.6 – Fatalidade - (questões 851 a 867)

    Nem todos os acontecimentos da vida são pré-determinados.

    Mas existem sim, situações inescapáveis, como por exemplo, nascituros portando patologias incuráveis. Nesse caso, isso se dá ou por solicitação do próprio espírito ou então por ação compulsória, a seu benefício, por decisão de Protetores Siderais.

    Esses dolorosos dramas têm vertentes que só o Espiritismo explicita: quase sempre se trata de débitos em quitação; contudo, pode também acontecer que determinado espírito missionário solicite tal provação, para poder vivenciar no meio desses problemas, ajudando aos neles envolvidos.

    OBS: “Fatalidades” individuais ou coletivas:

    - Acidentes inevitáveis

    - Perda de seres amados

    - Reveses da fortuna

    - Flagelos naturais

    - Enfermidades de nascença

    - Desemprego

    - “Balas perdidas”

    - Todos esses acontecimentos são conseqüentes (efeitos), cujos antecedentes (causas) estão no passado.

    - Do contrário, não se admitiria a Justiça Divina, Perfeita!

    - Não existe maior evidência filosófica das vidas sucessivas.


    Considerando que este item é mais ou menos longo, volto a apresentar algumas figuras que ilustram a fatalidade segundo “O Livro dos Espíritos”:

  • Q. 853: De fatal, só o instante da morte


  • Q. 859: A fatalidade só consiste nestas duas horas: nascimento e morte


  • OBS: Será sempre perigoso radicalizar. Como se vê no caso “Marita”, na obra “Sexo e Destino”, de André Luiz, psicografia de F.C.Xavier/W.Vieira,Ed.FEB: tanto o instante da morte foi prorrogado, quanto a próxima reencarnação antecipada. Não há contradição: o que há é nosso desconhecimento integral das Leis de Deus. Nunca se deverá imaginar que o relógio da Espiritualidade, que determina nascimento e morte, registra o tempo no mesmo compasso terreno...


  • Q. 851, 856, 860, 862 e 866:


  • Provas físicas: escolha feita pelo Espírito antes de reencarnar


    Provas morais: poderão ser aumentadas ou diminuídas


    A maneira de morrer pode ser modificada, por lutas a sustentar.

    (Assim, há fatalidade nos acontecimentos materiais e inexiste nos atos da vida moral, os quais podem ser desviados/alterados).


    Os perigos e o Anjo Guardião

  • Q. 855: Os perigos são advertências

  • (Quanto às previsões espirituais — sonhos pré-monitórios, por ex. —, são também advertências e não certeza de acontecimentos fatais).


    Sorte - Acaso - Tentação

  • Q.261 e 865:
    Sorte no jogo: ganho como homem e perda como Espírito.

    Essa é uma espécie de alegria escolhida anteriormente (provação), sendo-lhe concedida como tentação, isto é, prova para seu orgulho e cupidez.



    10.7 – Conhecimento do futuro - (questões 868 a 871)
    Seria altamente prejudicial à evolução o conhecimento do futuro, pois isso obstaria a criatividade, na maioria dos homens. E a criatividade, pode-se afirmar com segurança, é a mola-mestra do progresso — físico e moral. Não obstante, há casos em que o futuro — parcialmente — é revelado a alguns homens, sendo isso previsto nas Leis Divinas, no sentido de que algo venha a suceder, considerando que sem essa revelação tais homens poderiam até impedir citado acontecimento.
    Deus é onisciente, isto é, tem conhecimento de tudo — passado, presente e futuro. O fato de que algum fato é revelado antecipadamente a alguém não constitui experimentação, pois que Deus já sabe de antemão qual será o procedimento desse alguém. O que há é respeito pelo livre-arbítrio. Se o agente opta por descaminho, de forma alguma o acontecimento previsto nas Leis Divinas deixará de existir, pois são infinitos e insondáveis os meios de que dispõe a Providência para sua realização.

    10.8 – Resumo teórico do móvel das ações humanas - (questão 872)
    O livre-arbítrio se resume à verdade inconteste de que o homem não precisa agir no mal, em qualquer situação, pois seus atos não foram previamente determinados. Antes de reencarnar escolhe como será sua existência física e assim, reencarnado, terá sempre opção de como proceder. Aí está seu livre-arbítrio.
    Já a fatalidade não se restringe a decisões prévias e irrevogáveis: isso, a ser verdade, reduziria o homem a um simples robô, irracional, e por conseqüência, sem responsabilidade do que viesse a fazer. A fatalidade, no nosso planeta “de provas e expiações” pode ser compreendida então como expressão do passivo moral de cada ser, espelhando seu grau evolutivo e qual está sendo seu resgate de eventuais débitos, todos de sua única responsabilidade.
    Assim, há fatalidade em acontecimentos que foram previamente escolhidos ou compulsoriamente aplicados ao ser que precisa se quitar perante a consciência. Defeitos de nascença, por exemplo, exprimem tal situação.
    Mas, do ponto de vista moral, não há fatalidade: esse mesmo indivíduo, com problemas congênitos poderá ser revoltado ou resignado, bom ou mau.
    Tratando-se da morte, aí sim, generalizando, pode-se afirmar que na Terra há uma fatalidade para todos os seres vivos: a morte. E como vimos, o momento da morte não é fatal, no sentido terreno, já que, no sentido espiritual, poderá ser antecipado ou adiado...



    O LIVRO DOS ESPÍRITOS
    PARTE TERCEIRA - Das leis morais
    CAPÍTULO XI — DA LEI DE JUSTIÇA, DE AMOR E DE CARIDADE - (questões 873 a 892)


    11.1 – Justiça e direitos naturais - (questões 873 a 879)
    O sentimento de justiça, no seu sentido mais puro, mais transcendental, constitui equipamento que Deus concede ao homem, ao criá-lo, motivo pelo qual todos nós, sem exceção, temos arraigado no nosso íntimo, essa sublime bênção.
    Para conceber e sentir a justiça, no seu verdadeiro caráter, não há necessidade de conhecimentos, de quaisquer estudos e diplomas, ou de cultura.
    As diferenças de entendimento do que seja justiça, tão patentes segundo a variação cultural de pessoas, sociedades, nações ou mesmo épocas se deve às paixões que o ser humano sempre desenvolveu e vem desenvolvendo, quando diante de um mesmo fato emite diferentes pareceres.
    A verdadeira justiça compreende o respeito ao direito dos outros.
    E, “por direito dos outros”, ninguém melhor do que Jesus o definiu: “Para o próximo, o que quero para mim”. Assim, jamais alguém poderá ter dúvida do que é justo, em qualquer situação: por empatia, basta colocar-se no lugar do outro.
    OBS: Empatia = tendência para sentir o que sentiria caso se estivesse na situação e circunstâncias experimentadas por outra pessoa.
    Não há como alguém baralhar a questão dos direitos, avocando para si mais do que faz jus, desde que faça uma análise dos seus limites, em retrospecto sincero de suas forças e de suas fraquezas, pois não há melhor juiz do que a própria consciência. Autoridade e subordinação decorrem dessa expressão.
    Mas, o que caracteriza a justiça plena, qual a que Jesus sempre vivenciou será aquela praticada com caridade, por alguém que tenha amor pelo próximo.

    11.2 – Direito de propriedade. Roubo - (questões 880 a 885)
    A Vida é o primeiro e mais sublime de todos os direitos de cada ser.
    Trabalhar pelo bem próprio e da família, na fase ativa, garantindo a madureza, através de patrimônio honestamente conquistado (sem prejuízo de outrem) é direito natural, tanto quanto a defesa desse patrimônio. E o que define o “quantum satis” desse patrimônio repousa na compreensão de que cada homem deve possuir o que lhe basta e aos seus.
    Pode-se afirmar que tudo aquilo que resultou de roubo é indevido.
    Não devemos jamais nos esquecer que na verdade tudo pertence a Deus, pelo que, na Terra, num sentido elevado, ninguém é dono real de propriedades, senão sim, apenas depositário, ou usufrutuário delas — como, aliás, todos nós...

    11.3 – Caridade e amor do próximo - (questões 886 a 889)
    Caridade = benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas.
    A prática da caridade leva o indivíduo a ser bondoso com todos, indistintamente, sejam subordinados, pares ou superiores. Diante de alguém em estado ou situação inferior à sua, procura elevá-lo, diminuindo a distância que o separa desse alguém.
    Há ainda outro enfoque para a prática da caridade: para com os inimigos...
    Obviamente, e desde já é bom ficar claro o quão difícil é, para a maioria dos homens, cumprir a recomendação de Jesus para que “amemos aos nossos inimigos”. Contudo, para que tão meritória postura seja praticada, ela requer o entendimento de que isso pode ser feito com as seguintes atitudes, não excludentes:
    - de forma alguma se vingar — sequer imaginar vingança;
    - orar por eles com sinceridade no coração, estejam ou não em dificuldades;
    - desejar que prosperem, que vençam, que sejam felizes;
    - regozijar-se quando souber que algo de bom aconteceu com eles.
    - não perder oportunidade de reconciliação, por menor que seja.
    No item da doação de esmola o doador tem que cuidar para que o ato não humilhe o pobre. Já por demais humilhante sobreviver como pedinte na via pública. Além da ajuda material, indispensável a delicadeza, uma boa palavra, um conselho evangélico. Se na sociedade houvesse amor ao próximo não haveria pedintes.
    OBS: Crianças nos semáforos, nos cruzamentos movimentados ou em pontos estratégicos do passeio público, pedindo esmola, fazendo malabarismos, limpando pára-brisas, espelham um triste quadro. E é assim que, em se tratando de esmola, quando o foco se dirige para o tema “dar esmola a crianças nas ruas“, há controvérsias... Uns defendem a doação, direta, outros a condenam.Os primeiros agem apenas por compaixão; já os segundos, defendem que tal ajuda seja indireta, admitindo-a apenas se for dirigida a Órgãos oficiais ou a ONG (Organizações Não Governamentais), ambas que tenham condições e competência para administrar as doações, mas acima de tudo credibilidade.
    — Quem está com a razão?...
    Quem dá esmola na rua considera que age por caridade. Invocam o aval de Jesus, quando bem já aconselhava (Mateus, 25:35,36) a bondade de dar comida para os famintos, água aos sedentos, agasalho para os nus ou desabrigados e visita (apoio moral) aos doentes ou presos.
    Já aqueles que discordam da doação direta contemplam a indireta, argumentando racionalmente que o objetivo é combater uma forma perniciosa de exploração da mão-de-obra infantil: o trabalho nas ruas. Pesquisas que realizaram demonstram, por exemplo, que na cidade de São Paulo, atualmente, estão cerca de 3.000 crianças e adolescentes nas ruas, pedindo dinheiro, vendendo balas ou praticando malabarismos. Dessas crianças, eis o que apuraram, em 180 cruzamentos de ruas: 85% têm casa e família; 96% estão matriculados em escolas; 10% moram na rua; 5% obedecem a aliciadores (adultos) que os dominam; em média, cada uma arrecada cerca de R$450,00 (isso é muito mais do que eventuais auxílios oficiais lhes destinam...).
    Várias cidades no Brasil têm ou tiveram campanhas visando inibir esmola a crianças: Belo Horizonte(MG), Campo Grande (MS), Curitiba (PR), Vitória (ES), Campinas (SP), Botucatu (SP), Chapecó (RS), Florianópolis (SC), Fortaleza (CE), Macaé (RJ), Maceió (AL), Maringá (PR), Mogi das Cruzes (SP), Porto Alegre (RS), Santa Bárbara do Oeste (SP), São Luis (MA), Recife (PE) e Teresina (PI). No Estado do Rio Grande do Sul mais de 15 cidades do interior aderiram a esse tipo de campanha distribuindo folhetos, adesivos e promovendo eventos, sugerindo às pessoas que qualquer contribuição deveria ser encaminhada ao Fundo Municipal dos Diretos da Criança e do Adolescente, administrado pelos Conselhos Municipais. Modo geral, todas as campanhas sugerem destinação de ajuda aos Órgãos oficiais ou que sejam autorizados legalmente, para amparo à criança e ao adolescente.
    São diversos “slogans” empregados nessas campanhas:”Dê mais que esmola, dê futuro”(São Paulo/SP); “Amigo Real” (Banco REAL); “Criança quer futuro. Não quer esmola” (Curitiba/PR); “Não dê esmola: dê cidadania”(Teresina/PI).
    Sem querer ser orientador de quem quer que seja — e já o sendo —, da minha parte, quando ajudo alguém (adulto ou criança) que aparentemente não precisa, ou que talvez não faça bom uso do que dou, evito fazer juízo de valor, na certeza de que estou fazendo a minha parte... Quanto àquele que recebe, se desvirtua tal doação, essa já não é mais responsabilidade minha, e sim, ou dele ou de terceiros que a isso o constrinjam.
    Gosto e tento praticar o seguinte conselho, de autoria atribuída ao Espírito Meimei:
    “Jamais passes distraído diante do necessitado”.

    11.4 – Amor materno e filial - (questões 890 a 892)
    O Amor é qual um leque de infinitas hastes. Uma delas, senão a mais brilhante, com certeza uma das mais, é o amor materno!
    Quanto aos animais vemos que os filhotes recebem amor semelhante a esse, havendo extremada proteção enquanto são pequenos; uma vez desenvolvidos cessa a ligação materna e cada animal parte para seu destino. Bem ao contrário ocorre com o ser humano, eis que a mãe jamais deixa de amar ao filho, a ponto de, quando um ou outro atravessa o Rio da Morte, o amor materno permanece ligado.
    Encontrar mãe que chegue até a odiar o filho, ou filho que odeie aos pais, que por isso mesmo não lhes têm ternura, tais dolorosos quadros remete-nos ao passado, onde tais espíritos se endividaram fortemente. Agora, abençoados pela Providência com o enlace familiar, objetivando aparar tais arestas e se harmonizarem, estão desprezando tal bênção.



    O LIVRO DOS ESPÍRITOS
    PARTE TERCEIRA - Das leis morais
    CAPÍTULO XII — DA PERFEIÇÃO MORAL - (questões 893 a 919)


    12.1 – As virtudes e os vícios - (questões 893 a 906)
    Falar em virtudes é falar de anjos — ambos se confundem.
    Para tanto, todo respeito, reflexões demoradas, gratidão eterna.
    Definir virtude será exercício sempre inacabado. Contudo, se imaginarmos que a virtude é a representação do Bem, não estaremos muito longe de entendimento, desde que considerando que o Bem é vitoriosa resistência ao mal.
    Virtude sublime exerceremos quando atendermos ao próximo, sem qualquer interesse que não seja o de ajuda, assim procedendo até mesmo com sacrifício próprio, se necessário.
    Praticar o bem — ser caridoso — sempre é resultante de acerbos combates contra o egoísmo... Guerrear os próprios vícios é evoluir e aproximar-se de Deus.
    O patrimônio moral de um Espírito pode ser avaliado pela ausência ou prática de ação caridosa na sua vida. E se não for desinteressada, permanente, espontânea e anônima, não será ação caridosa.
    Outro indicativo de evolução é seguramente o desapego dos bens materiais.
    Doar irrefletidamente não significa posse de virtude. Não deixa de haver algum merecimento, pelo bem que vier a ser produzido, contudo, expõe mau zelo com a confiança ou responsabilidade de que seja depositário.
    Não se configura um mal a caridade que trilha por desinteresse material, mas que, no fundo, se reveste da intenção de recompensa no plano espiritual. Com toda certeza há aferição divina de intenções em tudo o que fazemos e dessa forma ideal seria a prática caridosa sem idéia pré-concebida de dividendos celestiais. Terão maior recompensa aqueles que fazem o bem infensos à expectativa de qualquer retorno, neste ou no plano espiritual, ciosos de que apenas Deus contempla suas ações.
    A busca de conhecimentos científicos é meritória e faz com que a inteligência se aprimore cada vez mais, disso decorrendo que quanto mais o homem conhece, mais se aproxima da Natureza, que em última análise, é a grande professora da Vida. Tudo o que o homem sabe aprendeu com ela! Tudo!
    Um fato é óbvio: aquele que detém muitos conhecimentos não tarda a perceber que pela prática do amor ao próximo mais e mais se aproximará da felicidade. Assim agir será decisão exclusiva dele próprio.
    Ademais, só tudo sabendo um Espírito será perfeito.
    OBS: À questão 899 nos deparamos com uma proposição interessante:
    Dois ricos: um assim nascido e o outro nasceu pobre e depois enriqueceu. Ambos utilizam a fortuna a benefício próprio. Qual o mais culpado?...
    — O que você responderia, caro leitor?
    — Eu consignei que ambos, mas os Espíritos responderam a Kardec, com o ajuizamento superior que detêm, que o segundo é mais culpado, pois o primeiro desconheceu a dor da pobreza, ao passo que este, dela se esqueceu...
    Mal procede aquele que só pensa em acumular riquezas para legá-las aos herdeiros. Imaginando que bem procede, na verdade desliza pelo egoísmo.
    OBS: À questão 901 somos colocados diante de outra proposição intrigante:
    Dois avarentos: um nega até a si mesmo qualquer conforto e morre na miséria; o outro só é generoso para consigo mesmo, jamais fazendo favor para quem quer se seja, no entanto, dando-se a fantasias e luxos exagerados. Outra vez a mesma pergunta: qual o mais culpado e qual se achará em pior condição no mundo dos Espíritos?
    Responda, querido leitor...
    Pois é: dessa vez eu não arrisquei. Responderam os Instrutores Celestiais de Kardec que o segundo, eis que o primeiro já foi parcialmente castigado pelo próprio procedimento...
    Almejar a riqueza para com ela fazer o bem... “Há alguém aí?”
    Na Terra somos todos inquilinos de uma moradia de provas e expiações...
    Como tal, imperfeitos. Ainda...
    — Do que aproveitará descobrirmos erros alheios?
    — Um único: não cometê-los. Dito de outra forma: identificando o orgulho em alguém, impregnando nosso viver de humildade; captando mentira nas palavras de quem quer que seja, passando só a dizer verdades; se considerarmos alguém avarento, áspero, falso, tudo fazer para ser pródigo, cordial, autêntico.
    Escritores, modo geral, se provocam escândalos, por eles responderão. Ao contrário, se de seus escritos resultam bem, isso só será convertido em mérito para eles se procederem como escrevem. Se registram o bem, bem devem proceder...
    É bom, logo útil, o indivíduo auto-identificar procedimentos, no bem ou no mal para, no primeiro caso, disso não se envaidecer e no segundo, coibi-lo.

    12.2 – Paixões - (questões 907 a 912)
    Estamos novamente diante de dificuldade interpretativa. Agora é referente à paixão... Segundo os dicionários ela é “sentimento ou emoção levados a um alto grau de intensidade, sobrepondo-se à lucidez e à razão; amor ardente, afeto dominador e cego; desgosto, mágoa, sofrimento. Nos Evangelhos é descrita como o sofrimento dos santos, particularmente a Paixão do Cristo”.
    Na verdade, a paixão é um sentimento nato, acoplado à alma para o bem, mas que exige temperança e controle absoluto na administração do que dela se depreende.
    Enquanto sentimento com aura celestial é poderosa força, capaz de impulsionar a criatura a feitos extraordinários, via de regra a benefício de outrem. Imbuído desse impulso e na obra que realiza o ser é, por assim dizer, um agente de Deus, já que seus feitos obedecem aos processos dos desígnios da Providência. E nessas horas o amparo do mais Alto estará arrimando-o, invariavelmente.
    Já o excesso passional terreno, que sempre trilha pelo abuso, desemboca em prejuízo (como, aliás, ocorre com qualquer excesso). E tal prejuízo não alcança apenas o agente, mas quase sempre, os que estão à sua órbita de vida, não apenas encarnados...
    OBS: Retornando à questão 459 deste livro, temos patente que quase sempre temos companhias espirituais, que chegam até mesmo a nos dirigir. No caso da paixão fugir ao nosso controle, não objeta refletir que Espíritos pouco esclarecidos, ultra-apaixonados por causas infelizes, podem estar no governo de nossos atos, mergulhados tanto quanto nós em paixões avassaladoras. Na hipótese, usam-nos como intermediários, apossando-se das ensandecidas vertigens resultantes. Nesse contexto somos infelizes nós e eles, restando desestruturados e devedores morais, por termos nos associado e ofertado inconscientemente canal e vazão de sensações menos nobres, fugazes.
    A vontade é a mais poderosa ferramenta que o homem possui, e que o acompanha permanentemente. É por ela que o ser se liberta de todos os vícios, supera todas as tendências negativas, desenvolve e incorpora à sua vida a prática constante das virtudes. Vetor principal na subida evolutiva: a vontade!

    12.3 – O egoísmo - (questões 913 a 917)
    Em termos radicais o egoísmo é, de longe, o pior dos vícios.
    É corrosivo potente de todas as virtudes.
    Absolutamente incompatível com a justiça, o amor e a caridade.
    Tudo que no mundo atrai e excita a alma, gerando desejo de posse material tende a impedir a evolução espiritual. E são tantas essas tentações terrenas...
    O problema não é do planeta Terra e sim dos homens que nele habitam, cuja maioria está longe do desprendimento integral dos bens terrestres.
    OBS: Todos os bens materiais são efêmeros. Uma simples reflexão demonstra a veracidade dessa assertiva: onde está a casa mais luxuosa de mil anos atrás? O traje mais luxuoso do mundo manufaturado há duzentos anos como está? Onde está o automóvel mais luxuoso fabricado há cem anos? Onde está a primeira cabeça da coroa mais valiosa do mundo? E onde está o primeiro dedo do anel mais valioso do mundo? Quanto de ouro há no plano espiritual?
    A posse de bens é característica primitiva do homem e persiste.
    Não há escape: só compenetrando-se o indivíduo da importância da vida moral ele automaticamente se desvencilhará dos arrastamentos da material. E esse entendimento religião alguma oferta com tanta lógica quanto o Espiritismo, daí que não será presunção supor que a regeneração planetária a ele se condiciona.
    Obvio que muitos são os homens abnegados e desprendidos, não necessariamente espíritas ou sequer conhecedores das lições evangélicas. O que se enfatiza é que a Doutrina dos Espíritos faculta à razão compreender o porquê da existência física, que se desdobra em muitas etapas reencarnatórias, enaltecendo o valor ímpar da evolução e da vida espiritual, imensamente mais valiosa que a atual (terrena).
    Na educação do espírito reside a extirpação do egoísmo da Humanidade.
    Se o egoísmo é a fonte de todos os vícios a caridade o é de todas as virtudes.

    12.4 – Caracteres do homem de bem - (questão 918)
    Um Espírito evoluído será reconhecido quando nenhum dos seus atos na vida corporal não contrariarem a lei de Deus e, estando encarnado, compreender a vida espiritual.
    Eis como age o homem de bem:
  • pratica a lei de justiça, amor e caridade, com integral pureza;
  • está sempre perguntando à consciência se não terá, algures, transgredido essa lei;
  • ajuíza que, se não fez o mal, teria feito todo o bem que podia?...
  • interroga-se quanto à eventual existência de alguém com queixas a seu respeito;
  • pergunta-se ainda: o que vem fazendo é o mesmo que desejaria que lhe fizessem?
  • por caridade e amor faz o bem pelo bem, sem almejar retribuição;
  • sacrifica seus interesses à justiça;
  • usa de bondade, humanitarismo e benevolência para com todos;
  • vê irmãos nos homens de todas as crenças e raças, conhecidos ou não;
  • se detém poder e riqueza atribui a posse disso a Deus, por empréstimo temporário e com destinação exclusiva à prática do bem;
  • se detém chefia é bondoso para com os auxiliares, aos quais jamais subjuga;
  • jamais condena, por saber-se também frágil e passível de falhas;
  • o perdão é sua resposta para qualquer ataque, fixando-se só em benefícios;
  • mantém integral respeito ao próximo, a quem considera exatamente igual a ele quanto aos direitos naturais.

    12.5 – Conhecimento de si mesmo - (questão 919)
    A melhor maneira de evoluir e de resistir à atração do mal é o conhecimento de si mesmo. “Conhece-te a ti mesmo”, proclamava o filósofo grego Sócrates.
    — Isso é fácil?
    — De forma alguma: ao contrário, talvez seja a atitude mais difícil da vida.
    Santo Agostinho, um dos Espíritos que arrimaram Kardec na elaboração deste livro, oferta longa reflexão à presente questão e dá conselhos. Vou sintetizar:
  • ao fim de cada dia interrogar à consciência se fez algo errado ou magoou alguém;
  • nesse repasse feito a cada noite, orar a Deus e ao anjo da guarda implorando auxílio para autodefinir se suas ações daquele dia foram boas ou más;
  • nessas ações não mascarar a avareza de previdência; não se imaginar a única pessoa digna no mundo; delas o que pensam os amigos e principalmente os inimigos?
  • imaginar se determinadas ações fossem feitas por outrem não teriam sua própria condenação...
  • se desencarnasse agora: ao chegar ao plano espiritual não temeria encarar alguém “olho no olho”?
  • desse balanço moral, diário, sobre perdas ou lucros, dependerá dormir em paz e a segurança de que quando atravessar “o grande rio da Vida” lá despertar bem.
    OBS: Kardec, seguro, pragmático (aqui entendido como aquele que “ toma o valor prático como critério da verdade”) e sensato como sempre, encerra essa questão enfatizando respostas do tipo “sim” ou “não” para as interrogações que fizermos à consciência, tomando especial cuidado em não esconder ou dissimular algumas das nossas atitudes, quase sempre faltosas...


    O LIVRO DOS ESPÍRITOS
    PARTE QUARTA - Das esperanças e consolações
    CAPÍTULO I — DAS PENAS E GOZOS TERRENOS - (questões 920 a 957)


    1.1 – Felicidade e infelicidade relativas - (questões 920 a 933)
    Na Terra o homem só encontrará felicidade parcial, eis que as provas e expiações não permitem a total. A prática do bem carreará bem-estar e paz de consciência, fatores que, de alguma forma, representam felicidade relativa.
    A resignação das vicissitudes terrenas e a fé na vida futura consolam o passageiro, comparando-as a nada mais que eventuais transtornos de uma viagem com destino a local aprazível.
    À questão 922 encontramos memorável resposta (dentre tantas desta obra) dos Tutelares da Vida Maior, refletindo sobre o que seria a felicidade para todos:

    Com relação à vida material, é a posse do necessário.
    Com relação à vida moral, a consciência tranqüila e a fé no futuro.

    Vamos repetir o conselho do saudoso Chico Xavier: “tudo o que estiver sobrando em nossa casa com certeza estará faltando na casa de alguém”.
    Dito isso, nada mais seria necessário aduzir quanto ao supérfluo, senão e apenas como figura de retórica lembrar que, se só temos dois pés, para quê manter dezenas de pares no porta-calçados? Se só moramos numa casa, para quê possuir incontáveis imóveis residenciais? Se só podemos dirigir um carro, para quê estacionar muitos deles na garagem? E a conta no Banco: exclusive o que seja previdente, para quê amontoar mais ouro?
    A riqueza é prova difícil. Atrai inveja, desperta o poder do mando, oferta facilidades e mordomias incontáveis, confere poder e autoridade... E, na verdade, não passa de um empréstimo de Deus.
    A pobreza extrema induz ao raciocínio de que quem a padece expia falta cometida, contudo e obviamente, jamais essa reflexão excluirá o dever cristão da ajuda.
    Chegada a época de trabalhar o homem já tem estruturado em sua mente um projeto vocacional, que deverá auscultar. Desviar-se dessa espécie de intuição só trará aborrecimentos, deslocamento profissional, revezes e humilhação. Por ex: talvez onde há um mau advogado, existe em potencial um excelente mecânico... Assim, os anos na faculdade de Direito podem ser taxados de desperdício (de tempo e de vocação).
    Assim, não há profissão desprezível. O que há é profissionais sem vocação.
    Ao incapaz o mundo deve — repito: deve — prover.
    Invejar os ricos é desconhecer suas vidas, de forma integral. Quem assegura que todos são felizes e que a paz lhes é companhia?
    OBS: No capítulo anterior (3ª. Parte, XII) vimos conceituações de paixão. Agora, neste capítulo, à questão 933, encontramos esse registro:
    “(...) os sofrimentos materiais algumas vezes independem da vontade; mas, o orgulho ferido, a ambição frustrada, a ansiedade da avareza, a inveja, o ciúme, todas as paixões, numa palavra, são torturas da alma” (Grifei). E fiz essa observação para frisar como paixão é coisa complicada...

    1.2 – Perda de entes queridos - (questões 934 a 936)
    Grande é essa dor. Alcança pobres e ricos. Na Terra, opino que é a maior.
    Contudo, o Espiritismo, em particular, oferta consolo possível, pela crença na imortalidade, na vida espiritual e principalmente na mediunidade, que pode aproximar Espíritos, de várias formas. Uma delas, dulcíssima consolação, a possibilidade de comunicação entre mortos e vivos!
    Conquanto a Codificação não proíba a evocação, em alguns casos até mesmo indicando-a, resta claro que deve ser feita com o máximo cuidado e respeito.
    Quando os encarnados se mortificam em pranto intenso e ininterrupto de saudade do ser querido que desencarnou, com isso demonstrando inconsciente revolta contra os desígnios de Deus e Suas sábias leis, essa postura alcança o Espírito daquele que transpôs a “grande fronteira”, prejudicando-o, e muito.
    OBS: A nós, espíritas, socorre grande amparo nesses transes: o conhecimento de que no desdobramento do sono, assim que possível, nos encontraremos com aqueles que partiram à nossa frente rumo ao plano espiritual. Em nosso coração deve ser reservado um cantinho exclusivo para os que já não estão fisicamente conosco, contudo, o dinamismo da Natureza nos impele a que prossigamos cumprindo nossas obrigações, dentre as quais a de incessantemente buscar o progresso espiritual, ao contrário de nos tornarmos presa de lamúrias crônicas, que a nada conduzem.

    1.3 – Decepções. Ingratidão. Afeições destruídas - (questões 937 e 938)
    Quem sofre ingratidão e comprova a fragilidade de amigos está sendo testado pelas sábias leis do progresso moral. Não sei se erro, mas tenho para mim que dez em dez pessoas que recebem ingratidão diante do bem que fazem experimentam amargura. Nesse caso, só há um meio de se libertar dos efeitos corrosivos de tal estado: lembrar-se dos beneméritos vultos da humanidade que passaram por isso mesmo, só que em grau muito mais elevado, nenhum deles se deixando afogar em mágoas. Como Jesus é o modelo de comportamento para a humanidade (questão 625 desta obra) será extremamente salutar, nessas condições, recordar o que fizemos diante da sua Caridade...
    Assim, nada de endurecer o coração diante da ingratidão.
    Nada de optar por menos caridade, para diminuir amarguras.
    Registraram os Espíritos para Kardec e para nós que o ingrato um dia se envergonhará de sua atitude, entrará em remorsos, precisará modificar suas atitudes, principalmente o egoísmo, pai da ingratidão. Terá dias difíceis...
    Fica aqui uma pergunta: será que nós, alvo de ingratidão hoje, não teremos sido o ingrato de ontem?...
    Amar e ser amado é felicidade plena para a qual fomos criados. Assim, se o “sermos amados” ainda não visita nossa existência, contabilizemos que os primeiros 50% de felicidade não é difícil de serem conquistados: basta amar. Os outros 50% estão a caminho. Chegarão, cedo ou tarde.
    Prudente, pois, prosseguirmos amando.

    1.4 – Uniões antipáticas - (questões 939 e 940)
    Se houve união de dois seres houve alguma atração, encantamento ou interesse, tudo isso por parte de um ou dos dois, união essa que pode durar pequeno ou grande espaço de tempo.
    O Espírito é quem ama e não o corpo, contudo, a afeição pode ser de um ou do outro — ou dos dois. Se a alma é afetiva a duração tende a ser duradoura. Se foi o corpo quem ditou afetividade, o provável é que dure curto tempo, sendo inaugurada antipatia, quase sempre.
    A reciprocidade de sentimentos sinceros e puros efetiva ternos amores.
    Em contraposição, a disparidade tende a ceder espaço à desilusão e não raro ao ódio, de uma ou de ambas as partes.
    Uniões forçadas ou que tenham por aval o orgulho e a ambição causam dissabores que resultam em expiação que poderia ter sido evitada, houvessem leis terrenas que as coibissem ou melhor postura moral dos envolvidos.
    OBS: De minha parte, à luz da Lei Divina de Justiça, questiono sempre se há inocência em quem expia... Uma certeza me visita, nessas reflexões: quem sofre, se o faz resignadamente, livra-se de débito, quiçá contraído em vidas passadas, no entanto, quem faz sofrer está inaugurando amarga colheita para seu porvir...

    1.5 – Temor da morte - (questões 941 e 942)
    Temer a morte expõe desconhecimento da imortalidade do Espírito e das vidas sucessivas. Educação infantil veiculando a existência de céu e inferno fará com que, na fase adulta, o homem que viu e vê tantos dissabores no mundo (nunca nos esquecendo que estamos num “mundo de provas e expiações”) terá mesmo arraigado à mente o medo de morrer... e de ir para o inferno.
    O justo e caridoso jamais abriga receio de morrer. A fé no futuro o ampara.
    O que se entrega aos prazeres mundanos bem cedo se depara com a temporalidade deles e aí sua alma se desgoverna diante do desconhecido para o qual a vida física inexoravelmente lhe conduz: a morte.

    1.6 – Desgosto da vida. Suicídio - (questões 943 a 957)
    A ociosidade responde pela maioria das pessoas que se desgostam da vida.
    O trabalho, ao contrário, é forte antídoto contra essa fraqueza.
    A Vida é supremo bem e dela só há um dispenseiro: Deus! Assim, só a Ele assiste direito sobre ela. A transgressão desse direito caracteriza, ou insensatez ou loucura, humanas. Pensar que a morte abre as portas para vida melhor: outra loucura.
    Se o suicídio foi fomentado (e nós espíritas não desconhecemos que via de regra isso acontece, quando não por parte de encarnados, seguramente sob infeliz assessoria de desencarnados...) os que o aconselharam ou induziram pagarão caro por isso. Conquanto o suicida não deixe de ser um transgressor das Leis Divinas, perante a Justiça Maior aqueles são considerados assassinos.
    Fugir da vida, deixando-se morrer de fome por causa de penúria, ou para livrar-se de vergonha pública, expõe fragilidade moral no primeiro caso e império do orgulho, no segundo.
    São tantas as hastes do “leque suicídio” que somente mesmo Deus pode ajuizar e abrandar culpa, já que conhece integralmente a intenção do suicida.
    Não expor a si mesmo ou aos familiares à vergonha e fugir da vida caracteriza que esse infeliz mais contemplou o apreço terreno, em detrimento do celestial.
    Perder a vida objetivando unicamente salvar a de outrem expõe grandeza espiritual.
    OBS: Tal fato pode acontecer em duas hipóteses: num ato reflexo, como por exemplo na iminência de um acidente com alguém, ou, num segundo caso, após demorada reflexão; mas será sempre prudente ajuizar que ao invés de tal sacrifício melhor seria prestar atendimento com sua vida e não com sua morte.
    Paixões e vícios que levem à morte, que claramente não ocorreria se inexistissem, caracterizam suicídio moral, ou suicídio indireto. De minha parte considero que se pode, ademais e com segurança, enquadrar todos os excessos nessa categoria.
    A eutanásia, em qualquer circunstância, não tem amparo nas Leis de Deus. Sua prática acarretará culpa para os agentes e, eventualmente, para o que a solicitou ou mesmo a aceitou, passivamente. E toda culpa requer reparação...
    OBS: Faço e abro aqui uma reflexão, quanto à questão nº 954:
    [— Será condenável uma imprudência que compromete a vida sem necessidade?
    “Não há culpabilidade, em não havendo intenção, ou consciência perfeita da prática do mal”].
    Eis a reflexão: quando uma pessoa se dedica, por paixão ou por dinheiro ( ou pelos dois) à prática de atividades de alto risco (autos velocíssimos, esportes radicais e quebra de recordes, etc.) e disso resulta sua morte, muitos indagam: houve ou não suicídio, mesmo que indireto?
    Deixo ao leitor a resposta. A minha é sim. De antemão me penitencio se estiver equivocado.
    Há suicídios provocados por costumes arraigados em várias sociedades:
  • mulheres que se queimam sobre os corpos dos maridos;

  • aviadores militares que projetam seus aviões contra alvos inimigos;

  • autoridades, nobres ou políticos que cometem deslizes ou falcatruas e que são descobertos pela sociedade a que pertencem;

  • encarregados de determinada missão na qual contavam com a vitória e que sem que possam impedir ela fracassa, disso julgando-se responsáveis diretos.

  • OBS: Aqui mesmo, no Brasil, vários são os casos de suicídio de índios, deprimidos ante a perda de seus costumes, motivada pelas transformações decorrentes do avanço da moderna civilização.
    A Revista VEJA de 22 de fevereiro de 2006 estampa reportagem sobre um fenômeno que assombra o Japão: internautas que usam a rede (Internet) para tramar suicídios coletivos. Em 2003 foram 34 pessoas que suicidaram nesse sinistro tipo de pacto; já em 2004 foram 55 e em 2005 foram 91.
    Como sempre, aos olhos de Deus não deixam de ser transgressores, mas, no caso, tudo leva a crer que há atenuantes, seja pela ignorância moral de toda a sociedade a que pertencem, seja pelo preconceito e pressão que essa mesma sociedade impõe aos seus membros.
    Todo suicídio se reveste de equívoco, oriundo da falta de fé no futuro e desconhecimento do Amor de Deus para com Seus filhos.
    Pessoas há que se matam após a perda de um ente amado, na expectativa de que assim procedendo irão a ele se juntar. Penosa ação. Terrível erro.
    Em qualquer suicídio há uma realidade da qual nenhum suicida escapa: o desapontamento, ao constatar que ao invés de resolver um problema, na verdade acrescentou para si mesmo um outro, quiçá muito maior.
    Cada suicídio se reveste de circunstâncias especiais, em muitos casos havendo diferentes efeitos. Nos casos de mortes violentas, em geral, com a brusca interrupção da existência terrena, os laços que unem o perispírito ao corpo físico não se desfazem por completo. A terrível conseqüência disso para o suicida será a nítida impressão de que está vivo, só que o tormento do momento da morte não se desfaz, daí resultando inenarrável sofrimento...
    Até mesmo a decomposição orgânica será testemunhada e mais que isso, partilhada, carreando horror indescritível.
    Não há suicídio sem expiação, esta em diferentes gradações.

    Considerando a gravidade do tema “suicídio”, peço permissão para aduzir às reflexões acima trechos de um artigo que a propósito elaborei:
    a. Todas as civilizações ocuparam-se em estudar o suicídio, isso porque em todas elas ele ocorreu e vem ocorrendo, desde os tempos antigos;
    b. A moderna Psicologia considera difícil determinar as causas da maioria dos suicídios, podendo apenas explicitar vertentes dos casos de crises agudas, delirantes, ou flagrantes de ruina. Assim, evitá-lo com plena consciência, ou convencer outrem a não cometê-lo, nem sempre é tarefa fácil. Não obstante, existem Entidades filantrópicas voltadas exclusivamente para isso.
    c. Já o Espiritismo, porém, radiografa integralmente o suicídio, ampliando substancialmente o tema, propiciando reflexões úteis, não só para os suicidas em potencial, como também para todos aqueles que caridosamente queiram e possam ajudá-los, com argumentos racionais, impeditivos de tão equivocada "solução". Para tanto:
        1° - torna visíveis as nubladas causas que o cercam (reflexos de vidas passadas, distanciamento do Evangelho, desconhecimento da reencarnação, etc.);
        2°- apresenta meios seguros de defesa contra tão grande anomalia espiritual: a prece, o principal deles, além do amparo de um anjo guardião, pessoal;
        3°- sugere a solidariedade para com aquele que sinaliza o desejo de se matar, através de ensinamentos espirituais convincentes;
        4° - de forma racional, lógica, esclarece o que é e adverte sobre os riscos do quase sempre ignorado "suicídio indireto", aquele que é cometido sem intenção, mas com inteira responsabilidade de quem o pratica (vícios, intemperança e excessos de toda natureza).
    "CAUSAS PRIMÁRIAS" E "CAUSAS SECUNDÁRIAS" DO SUICÍDIO
    Separadas ou juntas, tais causas resultam na depressão — tristeza profunda e prolongada —(doença que sempre acometeu o homem), atualmente cognominada de doença do século.
    E da depressão ao suicídio... um passo.
    É fato comprovado que a maioria dos suicidas, senão todos, deram e dão "sinais indiretos" — avisos —, de que pretendem se matar. Captar tais sinais nas pessoas à sua volta e envidar todos os esforços para que isso não aconteça, esse o dever não apenas do cristão, mas que se impõe a todos.
    É fato também que nem todas as pessoas que são atingidas por crises ou que apresentam tais sinais, irão sequer pensar no suicídio, tentando, isto sim, soluções racionais para os problemas.
    A seguir, eis alguns desses sinais, que podem levar algumas pessoas a desvalorizar a vida:
        a. Causas primárias - que podem ser consideradas indutoras ao suicídio:
    - Decepções / Frustrações: diante de perdas (amorosas, profissionais, familiares)
    - Dificuldades financeiras (endividamento, insolvência / crises inopinadas no mercado, etc.)
    - Desemprego (perda abrupta ou continuada)
    - Solidão / Tédio: ausência de objetivos existenciais
    - Doenças graves : busca de "ida" para um lugar sem dor
    - Vícios: alcoolismo / toxicomania / jogar compulsivamente, com perdas irreparáveis
    - Neuroses: auto-piedade exacerbada do tipo : "todo mundo está contra mim"
    - Psicoses: suicídio, como vingança, para fazer sofrer alguém ("os que ficam")
    - Receio manifesto de ser preso, após ter cometido delitos graves
    - Materialismo acentuado: desconhecimento da imortalidade do Espírito
        b. Causas secundárias - manifestas por diversos sintomas, tais como:
    - Queda de produção do trabalho ou do rendimento escolar
    - Mudanças súbitas de comportamento e/ou de personalidade
    - Descuidos com: compromissos / horários / a aparência física, etc.
    - Sinais de (auto)mutilação
    - Choro ou risos inexplicáveis / falta ou excesso de apetite / sonolência ou insônia
    - Uso de álcool e/ou de drogas ilegais ou mesmo uso exagerado de remédios
    - Distanciamento de amigos e familiares
    - Frases do tipo: "não agüento mais viver assim"; "...prefiro morrer"; "essa vida é uma droga".

    ANTÍDOTO CONTRA O SUICÍDIO
    Três são os poderosos antídotos contra o suicídio:
    1°- Amizade: oferta solidária de ajuda, feita por aquele que perceber o estado alterado de pessoa do seu relacionamento (apresentando depressão), com ou sem histórico de suicidomania;
    2°- Calor humano: acompanhamento desinteressado, sincero e fraternal durante a crise desse alguém, mostrando a ele que não está sozinho, que pode contar com seu apoio incondicional;
    3°- Espiritualização: o mais eficaz de todos os antídotos.
        Compreende, basicamente, a exposição da visão espírita da existência de todos nós:
        - O homem não é apenas o corpo físico: o verdadeiro ser é o Espírito, imortal!
        - O Espírito é criado "simples e ignorante" por Deus, para progredir e ser feliz
        - O Espírito evolui através de várias vidas (reencarnação)
        - A Justiça Divina faz com que todos sejam iguais - deveres e direitos
        - A Lei de Ação e Reação, que expressa a Justiça Divina, faz com que "a cada um, seja dado segundo suas obras", isto é, tudo o que nos envolve ou nos alcança é fruto que estamos colhendo, de nossas próprias pretéritas plantações
        - Berço e túmulo — nascimento e morte — são episódios inúmeras vezes repetidos pelo Espírito imortal, na senda do progresso moral, consubstanciada na Lei Divina de Evolução
        - A descrença no Amor a Deus sobre todas as coisas, e a falta de amor ao próximo como a si mesmo, trazem dificuldades vivenciais, gerando débitos conscienciais, que cedo ou tarde terão que ser resgatados; as vidas múltiplas ensejam tal resgate, que se manifestam ora por expiações (sofrimentos), ora por provações (testes de comportamento moral)
        - A Vida é sublime oportunidade de crescimento, através de aprendizados
        - A prática desses aprendizados nos proporcionará paz ou sofrimentos, conforme exercitemos o Bem ou o Mal, respectivamente
        - Sofrimentos são resultantes de nossos erros, geratrizes de débitos, que também nós próprios, cedo ou tarde, iremos pedir a Deus a oportunidade de resgatá-los
        - O Amor de Deus é tanto que Ele nos concederá tantas oportunidades quantas sejam necessárias; tais oportunidades se manifestarão na proporção direta do merecimento alcançado através do arrependimento sincero e da vontade inabalável de reconstrução moral
        - O suicídio, como busca de solução para qualquer crise ou problema, é o mais equivocado dos caminhos, eis que, longe de resolvê-los, na verdade aumenta-os devastadoramente
        - Testemunhos de Espíritos que suicidaram demonstram que seus problemas permaneceram "do lado de lá", aliás, com gravames quase que insuportáveis
        - A tendência atual para o suicídio, em muitos casos, reflete atavismo (a pessoa já o terá cometido em vidas passadas e agora surge a tendência a essa anomalia comportamental)
        - Há sempre a possibilidade de influências obsessivas, induzindo/incentivando o suicídio
        - O Tempo — para quaisquer problemas — é bênção máxima, capaz de resolver, a contento, todos eles. Jamais houve um único problema que o Tempo não resolvesse!
        - A confiança no Amor de Deus e na Caridade de Jesus, expressa pela fé, em oração, é o mais eficaz meio de administrar a crise, por mais trágica que ela possa parecer.


    Leituras a serem sugeridas àqueles que tentaram ou pensam no suicídio:
        a. "O Céu e o Inferno", de Allan Kardec (2ª Parte - Exemplos, Cap V - Suicidas), registrando os depoimentos pungentes de 9 (nove) Espíritos suicidas;
        b. "Memórias de um Suicida", do Espírito C.C.Branco, psicografia de Yvonne do Amaral Pereira, edição da Federação Espírita Brasileira.
        c. "Viver Ainda é a Melhor Saída", de Jacob Melo, Edit. Mnêmio Túlio.



    O LIVRO DOS ESPÍRITOS
    PARTE QUARTA - Das esperanças e consolações
    CAPÍTULO II — O NADA. VIDA FUTURA - (questões 958 a 1019)


    2.1 – O Nada. Vida futura - (questões 958 e 959)
    — O nada... O que é o nada?
    — Nada!
    Parece brincadeira, mas há quem tenha pavor do nada. Obviamente, quem assim se comporta, terá eclipsado o sentimento inato de que a existência física não é a única, bem como terá fechado as portas à fé na(s) vida(s) futuras(s).
    OBS: Não se pense que tais descrentes sejam pessoas incultas. Ao contrário, muitas delas são homens de grande intelectualidade, e pior que tudo, formadores de opinião. Senão, vejamos:
    - Arthur SCHOPENHAUER (1788-1860), filósofo alemão, contemporâneo de Kardec, pregando que o "querer-viver é a raiz de todos os males". A ser verdade, o "querer-morrer", representaria então a libertação dos sofrimentos. Triste apologia ao suicídio ...
    Que encontrou adeptos, muitos adeptos.
    Tentou o filósofo remendar sua teoria, apontando a salvação à entrega total às artes (contemplação da beleza), à piedade (combate ao egoísmo) e ao ascetismo (imersão no nada).
    - Friedrich Wilhelm NIETZSCHE (1844-1900), também filósofo alemão, que ignorando as excelsitudes do Espiritismo então já implantado, afirmou a negação do bem, a negação da vida e que os valores morais deviam ser tidos à conta da reação dos fracos.
    Ouçamos Kardec, em “Obras Póstumas”, 22ª Ed., 1987, FEB, Rio/RJ, à p. 386:
    " A doutrina do nadismo é a paralisia do progresso humano, porque circunscreve as vistas do homem ao imperceptível ponto da presente existência ... Com essa doutrina, o homem nada sendo antes, nem depois, cessando com a vida todas as relações sociais, a solidariedade é vã palavra, a fraternidade uma teoria sem base, a abnegação em favor de outrem mero embuste, o egoísmo, com a sua máxima - cada um por si, um direito natural, a vingança um ato de razão; a felicidade, privilégio do mais forte e dos mais astuciosos; o suicídio, o fim lógico daquele que, baldo de recursos e de expedientes, nada mais espera e não pode safar-se do tremedal ".
    Arremata o mestre lionês magistralmente:
    "Uma sociedade fundada sobre o nadismo traria em si o gérmen de sua próxima dissolução ".
    Via de regra, ao crer em Deus o homem crê na imortalidade e almeja uma vida melhor, quando esta terminar. Essa postura mental é quase que unanimidade.
    Conquanto ao nascer todos sejamos contemplados com a bêncão divina do esquecimento das vidas anteriores, essa supressão não apaga de todo lembranças daquelas vidas, mesmo que difusas, algo nebulosas. Mas isso já é o suficiente para a certeza na imortalidade da alma.
    No planeta Terra há uma certeza integral para todos os homens: a morte!
    Assim, à maioria deles, à medida que a existência física vai se prolongando, visita-lhes naturalmente uma pergunta: quando eu morrer o que me aguarda?
    Esse questionamento se compara ao do viajante que vai a país distante, viagem essa sem certeza da data do embarque, que pode ser o dia de amanhã, além do desconhecido que lá o espera, bem como da permanência não definida. É aí que o homem deduz que a vida futura é uma realidade.

    2.2 – Intuição das penas e gozos futuros - (questões 960 a 962)
    À proximidade da morte os descrentes emperdenidos duvidam; os culpados temem e os homens de bem fortalecem a esperança.
    O ceticismo não encontra abrigo na maioria dos homens e sua manifestação só expõe uma falsa fortaleza, que se esboroa no momento da morte.
    A Natureza é pródiga em exemplificar que o que se planta se colhe, princípio esse que induz o homem que crê na Justiça de Deus ao raciocínio de que o mesmo acontece no moral, já que ambos os processos são divinos.
    Crédito ou débito, bênçãos ou problemas, eis as resultantes de nossas ações.

    2.3 – Intervenção de Deus nas penas e recompensas - (questões 963 e 964)
    — Será que Deus, tão grande, tem olhos postos em cada um de nós, tão pequeninos?
    Essa interrogação, se algures feita, se a princípio contempla a grandeza divina, na verdade ignora-a. Ante a imensidão do Universo, onde o macro e o micro expõem uma inimaginável inteligência, como questionar a visão de Deus?
    Num exercício primário de lucubrar sobre o alcance do olhar divino, imagino que se colocarmos um átomo na palma da mão e refletirmos que Deus, estando além do Infinito o vê, vê detalhes de cada um dos prótons e elétrons...
    Agora, não se cometa o raciocínio primário de pensar que Deus, a cada mínima ação individual profere um decreto de pena ou recompensa. Não. O que há é que as Leis Morais, implantadas na consciência de todos os Espíritos, submetem regem e respondem, respectivamente, pelo ativo e passivo morais de cada um nós, segundo cada uma das nossas ações.

    2.4 – Natureza das penas e gozos futuros - (questões 965 a 982)
    Após a morte as impressões visitam o Espírito de maneira muito mais intensa do que quando revestido do corpo físico, posto que, estando ele mais impressionável, não há a matéria para amortecê-las.
    Somente o desconhecimento das Leis Morais, principalmente da Lei de Ação e Reação justifica o juízo errôneo que o homem faz da vida futura.
    Os bons Espíritos sentem-se felizes por fazer o bem e principalmente por terem extinguido de sua vivência o ciúme, a inveja, a ambição e as paixões que induzem à infelicidade.
    Pressuposto equivocado seria aquele que deduzisse quanto à satisfação das necessidades materiais proporcionarem felicidade, já que a ausência delas acarreta infelicidade: na verdade, quando as coisas do mundo atendem por completo ao homem, tal felicidade proporciona um gozo material.
    A felicidade, na completa acepção do termo, só é própria dos Espíritos puros, aqueles que podemos considerar “Ministros de Deus”, que se ocupam em espalhar pelos diversos mundos os sublimes conhecimentos que por esforço próprio integralmente conquistaram. Para eles, alavancar o progresso constitui gozo e ocupação permanentes.
    Já os Espíritos moralmente inferiores, por ignorância ou perversidade, estão sempre tentando desviar do bem e do arrependimento quem lhes dê ouvidos. Para tanto incensam as paixões desvairadas (ouro inatingível, orgias sem participação e inveja por honras negadas). Dessa forma portam-se quais guias para aqueles que, desguarnecidos de virtudes, por eles se deixam conduzir e se supliciar, pela excitação dos apetites carnais, a nenhum deles satisfazendo.
    Considerar tais sofrimentos como as dores de “fogo eterno” não passa de pobreza de linguagem, muito usada comparativamente na antigüidade.
    No plano extra-corpóreo o Espírito quase sempre não tarda a descortinar sua existência, entendendo que seu presente é reflexo do passado e que o futuro só dele depende.
    OBS: Kardec comenta, após a resposta à questão nº 975 que “Na erraticidade, o Espírito descortina, de um lado, todas as suas existências passadas”.
    Considero que essa afirmação não deve ser levada “ao pé da letra”, já que alguns autores espirituais têm dito que o conhecimento integral do passado, em muitos casos, poderia levar o Espírito recordante à loucura, como por exemplo, se visse eventuais crueldades que houvera então praticado, contra pessoas que agora fazem parte do próprio círculo familiar. (O Ministro Clarêncio, com registro de André Luiz e psicografia de F.C.Xavier, em “Nosso Lar”, Cap. 21 e em “Entre a Terra e o Céu”, Cap. 26, deixa patente o grande risco das vidas passadas serem recordadas).
    Prefiro ficar com a resposta da questão nº 308 deste livro que estamos comentando (“O LE”): “Todo o seu passado (do Espírito recém desencarnado) se lhe desdobra à vista (...) mas não se recorda, de modo absoluto, de todos os seus atos”.
    Os bons Espíritos, ante a visão do sofrimento dos devedores morais, não se afligem por isso pois sabem perfeitamente que os sofrimentos destes terá fim, desde que suportados sem revolta. Afligem, sim, se perceberem desânimo dos retardatários, cuja situação se expressa por inteiro, sendo esse mais um sofrimento.
    OBS: Aqui, deduzo que aqueles que têm débitos morais, quando na Espiritualidade, não conseguem ocultar essa situação nem a eventuais inimigos e principalmente aos bons Espíritos. Uns e outros, vendo-lhes a aura, respectivamente os reconhecem e os identificam como transgressores das Leis Morais.
    Os erros do passado não constituem turvação da felicidade aos que os tenham devidamente resgatado, purificando-se. Dessa forma, de um certo nível evolutivo em diante o Espírito não mais sofre ante a expectativa de débitos seus ainda a serem saldados, perante as Leis Divinas e à própria consciência.
    Os Espíritos voltados para o bem são felizes em se unirem a semelhantes.
    Temer a morte ou desejá-la configuram situações diferentes: a intenção, no caso, determina as conseqüências, quando ela ocorrer, sendo certo que na segunda hipótese parece estar evidente uma revolta diante da Vida...
    O Espiritismo é incomparável bênção para arrimar o progresso moral do homem, contudo, não é a única alternativa da evolução espiritual. A resignação diante dos sofrimentos e a prática do bem, seja do espírita ou de qualquer outro homem, esse será o caminho que levará o Espírito a progredir.

    2.5 – Penas temporais - (questões 983 a 989)
    A morte do corpo físico, se exime o Espírito faltoso de sofrer as tribulações materiais (rol de exigências, fisiológicas, sociais, financeiras, profissionais, etc.), não o livra de dores morais, mais lancinantes do que eventuais sofrimentos decorrentes da vida material.
    Ciente de suas faltas entende que só numa próxima existência física poderá repará-las. Assim é que os abusos de uma vida encontrarão a bênção reparadora em outra: o rico avarento de ontem virá a ser o pedinte de hoje, o orgulhoso retornará debatendo-se em humilhações e o autoritário tendo por chefe alguém até mais ríspido do que tenha sido.
    Nem todos os problemas refletem erros de vida(s) passada(s), pois muitas dificuldades espelham imprevidências na vida atual.
    Falando-se de problemas, tanto podem ser impostos pelas Leis Morais quanto serem deferimento de petição do próprio infrator delas — questão de merecimento.
    Avançando em evolução o Espírito pode reencarnar em mundos menos grosseiros do que a Terra, nada impedindo, contudo, que aqui mesmo retorne, agora sem roteiro expiatório, senão sim missionário.
    Já o Espírito estacionário, que nada produz, nenhum bem faz, ficando no entanto igualmente distante do mal, este é um preguiçoso moral e que estacionou seu progresso, do que terá que prestar contas em nova existência.

    2.6 – Expiação e arrependimento - (questões 990 a 1002)
    Arrepender-se é atitude meritória que pode ocorrer na vida material ou na espiritual. No entanto, numa ou noutra circunstância, o erro redundará em expiação, além de exigir ação: reconstruir aquilo que tenha destruído ou danificado, em termos materiais ou morais!
    OBS: Exemplo de arrependimento nos dois casos:
    - Danos físicos: alguém joga uma pedra na vidraça do outro e se arrepende; necessário, além do arrependimento, que providencie a colocação de novo vidro, o que demanda trabalho perigoso (retirar os cacos remanescentes na vidraça e juntar com os que caíram e dar-lhes destino seguro), além de comprar novo vidro e aplicá-lo no local do que quebrou;
    - Danos morais: alguém ofende a outrem e se arrepende: é necessário manifestar ao ofendido o seu arrependimento e mais que isso, se o fato ocorreu em público, publicamente agora testemunhar que erro. Indispensável fazer isso com humildade.
    Como se nota, em ambos os casos houve expiação do culpado — e progresso!
    Ninguém erra permanentemente. A Lei do Progresso, no tempo certo, impõe correção de procedimento. Amiúde, no Plano Espiritual é onde mais ficam evidentes os erros, quando então o empedernido se dá conta do mal que vinha praticando, ocasião que pede oportunidade de reparação — essa a abençoada constante das vidas sucessivas, via reencarnação, mostrando o Amor de Deus.
    Orar pelos infelizes é dever de todos, sendo que as preces podem ou não sensibilizá-los, dependendo do seu grau de humildade, ou de orgulho...
    O que não escapa às Leis de Deus é que uns e outros, mais dia, menos dia, trilharão o caminho da própria reconstrução moral, com expiações no plano físico, pelas provas a que será automaticamente submetido ou pelas dores morais, quando no Plano espiritual.
    Já a partir da atual existência o Espírito pode iniciar a expiação de suas faltas.
    Esmolas e privações, disso ou daquilo, não constituem expiação: o que resulta em quitação de débitos morais (perante a consciência), caracterizando reforma moral é atitude de constante refazimento.
    OBS: Nesse tópico, à questão nº 1000 deste livro, está registrado que a perda de um dedo mínimo em serviço de auxílio ao próximo apaga mais faltas do que “suplícios da carne”, impostos por anos, só com objetivo pessoal.
    Parece-me que vem daqui a fábula exaustivamente proclamada nos Centros Espíritas, a respeito de um homem que perdeu um dedo na marcenaria em que ajudava jovens a se profissionalizarem e que numa reunião mediúnica perguntou aos Mentores “como é que Deus permitira aquilo, justamente com ele”, obtendo como resposta que “era para ele perder o braço inteiro...”.
    Ainda nesse grande capítulo é enfocado o caso dos testamentos...
    Sugerem os bons Espíritos que o ideal é que em vida saibamos repartir aquilo que a Providência nos confiou (bens materiais), isentando-nos de tal preocupação quando da transferência para o Plano espiritual.
    OBS: É oportuna tal recomendação, pois não são poucos os Espíritos que, manifestando-se em reuniões mediúnicas, mostram-se agoniados quanto ao emprego dos bens deixados para seus herdeiros...

    (A seguir, os três últimos itens deste capítulo têm quase todas as questões comentadas ou respondidas por Espíritos que deixaram seus nomes: São Luís, Santo Agostinho, Lamennais, Platão, Paulo – apóstolo. Como já se constituem em comentários — verdadeiras luzes filosóficas e evangélicas — de minha parte apenas me atrevo a apresentar síntese de tais claridades).

    2.7 – Duração das penas futuras - (questões 1003 a 1009)
    As Leis de Deus são universais, infinitamente sábias e bondosas.
    Quando alguém erra há todo um vasto rol de circunstâncias, agravantes ou atenuantes, levadas em consideração para que o ressarcimento se dê, invariavelmente, dentro da capacidade daquele que errou. Isso envolve o tempo que for necessário para que sejam reunidas, sempre, condições adequadas de suporte e de auxilio externo. Tal é o Amor do Pai!
    A medição do tempo para os desencarnados, no caso de inocência ou culpa, alterna-se respectivamente em brevidade ou alongamento: as horas felizes parecem minutos e os minutos de dor parecem horas...
    Dessa forma, mesmo em arrependimentos tardios, não há dor eterna: o sofrimento dura enquanto o culpado não se corrige, sendo proporcionalmente aliviado na razão direta dos esforços próprios em melhorar-se.
    Comentários dos luminares da Codificação à questão nº 1009 (penas eternas):
    - Santo Agostinho:
    Jamais poderíamos supor que o Criador do Universo houvesse imposto às suas criaturas sofrimentos perpétuos. A razão repele energicamente tal idéia!
    - Lamennais:
    A idéia da perpetuidade das penas é blasfematória, negação da bondade de Deus.
    - Platão:
    Guerras de palavras! A duração das penas decorrerá da existência do mal.
    - Paulo, apóstolo:
    A idéia das caldeiras do inferno a ferver só foi tolerável num século de ferro.
    Hoje (século XIX) não passa de vão fantasma. Castigos só existem para reabilitação da alma, que pela dor inexoravelmente buscará porto de salvação.
    - Kardec (em nota subseqüente aos comentários acima):
    Crer em penas eternas é reduzir o Supremo Criador a um deus implacável, qual um senhor que paralelamente a ser bom, justo, protetor, seria igualmente vingativo e de inflexível rigor diante de descaminhos dos que o cercam.

    2.8 – Ressurreição da carne - (questões 1010 e 1011)
    OBS: Até a 81ª edição desta obra a FEB figurou as questões 1010 a 1019 sob os nºs 1010 a 1018, sem ter sido atribuído número à questão imediatamente seguinte à de nº 1010. Esse lapso remonta ao tempo de Kardec, a partir da 2ª edição francesa, definitiva, de março de 1860. Atualmente, muitas são as versões que figuram o nº 1011 à questão que naquela versão (a francesa) aparecia como 1010.a.
    - São Luis:
    Não tomadas ao pé da letra, as palavras do dogma da “ressurreição da carne”, em sendo devidamente analisadas e interpretadas, conduzirão à compreensão da doutrina da “pluralidade das existências”, consentânea à justiça de Deus.
    Dessa forma, é a própria Igreja (católica) que, desapercebidamente promulga a reencarnação.
    - Kardec (em nota subseqüente aos comentários acima):
    Com efeito, a própria Ciência demonstra ser impossível que despojos humanos específicos venham a se reunir e recompor um corpo. O que resta cientificamente comprovado é que uma vez decomposto o organismo, uma ou outra moléculas podem, sim, algures, servir à formação de um novo corpo.

    2.9 – Paraíso, inferno e purgatório - (questões 1012 a 1019)
    Paraíso, inferno e purgatório não passam de alegorias. O homem, na ânsia de estabelecer comparações emulou o Plano espiritual símile ao material: paraíso para os bons, inferno para os maus e purgatório como estágio temporário, doloroso, para quitação.
    Se um Espírito moralmente elevado se utiliza de alguma dessas expressões o faz para que seja entendido aos que naquele momento o ouvem; já se tratando de um Espírito sofredor, ao dizer que está penando expressa idéias arraigadas quando de sua existência terrena e foi nesse caso que popularizou-se a expressão “alma penada”.
    “Céu” é uma outra expressão que longe de simbolizar local de aglomeração de Espíritos em gozo eterno, na verdade exprime a grandeza do Universo, sendo que em qualquer espaço os Espíritos tenham ampla liberdade de locomoção, isentos de tribulações da vida material. Se um Espírito se comunicar e se dizer habitando o quarto ou quinto céus, está adequando a realidade ao entendimento humano, significando que no Plano espiritual há diferentes graus de purificação.
    OBS: Na série “A Vida no Mundo Espiritual” (13 livros), de André Luiz e psicografia de F.C.Xavier/W.Vieira, encontrará o leitor inúmeras referências às esferas espirituais. De forma rasante cito as obras, com os respectivos capítulos e páginas: Nosso Lar (3/27, 7/48); Os Mensageiros (15/85); Obreiros da Vida Eterna (3/49); No Mundo Maior (Prefácio/11); Libertação (1/16); Entre a Terra e o Céu (33/213); Evolução em Dois Mundos (1ªP., 13/97); E a Vida Continua (9/70).
    Quando Jesus proclamou “meu reino não é deste mundo”, referia-se ao mundo dos que não se apegam aos bens terrestres e fazem do amor ao próximo a sua norma de conduta moral. Aliás, vêm de longe predições de que o planeta Terra se regenerará, isso representando que a Humanidade coletivamente vivenciará praticando o bem, progredindo moralmente cada vez mais.


    O LIVRO DOS ESPÍRITOS
    CONCLUSÃO

    1
    Observação e análise

    Assim como uma criança brinca com o magnetismo, utilizando um imã e com isso fazendo dois patinhos se moverem numa bacia, quem do Espiritismo apenas cuidasse de ver mesas se movimentando, ambos estariam imensamente distantes de uma verdade fantástica: no primeiro caso está o segredo do mecanismo do Universo e do segundo saiu uma ciência que resolveu os problemas que nenhuma outra filosofia a ela pôde ou poderá se comparar: o Espiritismo!
    Kardec conclama a todos os homens de juízo e bom senso que estudem o que contém o “O Livro dos Espíritos” e depois, só depois então, digam de consciência se o que ele contém é matéria para zombaria.

    2
    Espiritismo e materialismo

    “O Espiritismo é o antagonista mais terrível do materialismo”!
    Óbvio que, seus maiores inimigos sejam justamente... os materialistas.
    Uns até lançam mão de argumentos religiosos (do sobrenatural) e dizem que o Espiritismo se vale do maravilhoso, o que o invalida.
    Se por sobrenatural isso diz respeito às religiões, na verdade todas elas se valeram dele, de Moisés aos autores sagrados, passando pelos “milagres”.
    O Espiritismo não examina se há ou não milagres, isto é, se Deus vez por outra derroga Suas próprias leis (as conhecidas pelos homens...): ele afirma e comprova que de sobrenatural nada têm tais acontecimentos. Todos os fenômenos espíritas, sem exceção, resultam de leis gerais.

    3
    O vasto campo do futuro

    A ausência de crença vem levando a Humanidade a relaxar os laços de família, causando com isso desordens sociais de todo tipo. Já o Espiritismo reaviva a fé no futuro, demonstra a existência e a imortalidade da alma, levanta ânimos caídos e fornece sublime analgésico moral aos infortúnios humanos: a resignação e a confiança na Justiça Divina.
    Onde a razão: na pregação de que com a morte tudo se acaba ou na certeza de que os Espíritos prosseguem “vivos”, amando ou odiando, acertando ou errando, nascendo, morrendo e renascendo, mas progredindo sempre?
    Onde a mais preciosa e consoladora das virtudes — a esperança —, no aniquilamento total ou na continuidade da Vida?
    Deus teria criado Seus filhos para depois os relegar aos monturos, quais máquinas imprestáveis, a se decomporem com o tempo?
    E se tudo acaba com a morte, para quê viver virtuosamente, ou com sacrifícios ao permanente prazer?
    Na verdade, e aí está o perigo do que se propague sem base, essas idéias materialistas causam grande mal à razão e à dignidade de cada ser.

    4
    Progresso moral

    A Humanidade só progredirá se tiver por princípio a aplicação da lei de justiça, de amor e de caridade, lei que se baseia na certeza da existência do futuro. Essa lei, em qualquer época que se situem os povos que a praticam, responde pelo progresso de cada um deles. Todos os tratados internacionais modernos se baseiam na igualdade dos direitos humanos, embora nem sempre, na prática, isso aconteça. Mas, aos poucos, o homem vai compreendendo que é melhor fazer alianças do que guerras, melhor desatar nós do que cortá-los...
    O certo é que pela força do progresso, razão à frente, o homem tenderá a praticar essa Lei Divina. Para tanto o Espiritismo se constitui em alavanca incomparável a esse soerguimento moral planetário.

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    Confiança em Deus

    O Espiritismo jamais será uma ameaça de “invasão” do mundo.
    Aliás, nenhuma concepção terá tamanho poder se destituída de lógica e razão.
    Os Espíritos alertaram mesmo a Kardec que os inimigos do Espiritismo, ao invés de sabotar a Doutrina, na verdade, suas críticas, sua oposição, estariam trabalhando a favor de sua causa. Verdadeira profecia...
    OBS: Lembro, a propósito, o “auto de fé de Barcelona”, quando em 1861 o bispo daquela cidade queimou em praça pública vários escritos espíritas e principalmente uma encomenda de vários exemplares de “O Livro dos Espíritos”. O mundo todo, ao conhecer o episódio, quis saber qual o conteúdo do que tinha ido para a fogueira inquisitorial. Resultado: divulgou-se bastante o Espiritismo, de forma inesperada, confirmando o aforismo tantas vezes proclamado pelos Espíritos: “de todo mal Deus tira um bem”.
    O Espiritismo, quase sempre, se alicerça no fato de que os que o esposam, na busca da felicidade (busca humana) primeiro vão a ele com curiosidade, depois raciocinam com a filosofia que encontram e então, por fim, se põem a aplicar o que viram, analisaram, compreenderam e aprenderam.
    Encontram motivo para calma, para resignação e com isso fortalecem a fé.
    A contraposição filosófica de que tudo se acaba com a morte, que esperanças oferta, que consolos diante das provações apresenta, que bálsamo dá aos que sofrem as perdas de entes amados?

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    Razão e bom senso

    A força do Espiritismo não provém da prática das manifestações materiais. Nada mais falso do que quem o afirmasse.
    “Na verdade, sua força está na sua filosofia, no apelo que faz à razão, ao bom senso”.
    Longe da crença cega, a Doutrina dos Espíritos é de claridade linear, simples, sem mistérios, sem falsas interpretações e a todos deseja a luz de crer sabendo porque crê.
    Impedir manifestações espirituais seria acabada tolice, principalmente as públicas, pois os Espíritos se manifestam de médium a médium e até de forma mais fácil num grupo recatado, sério, respeitoso e sem publicidade.
    Se fosse decidido encarcerar todos os médiuns da Terra seria preciso prender, no mínimo, metade da raça humana...
    “O Espiritismo não é obra de um homem”. “É tão antigo quanto a criação”.
    Aliás, seus princípios encontram-se em todas as religiões, proclamando a existência dos Espíritos, bons ou maus, anjos guardiães, a reencarnação, a emancipação da alma durante a vida, a dupla vista, todos os gêneros de manifestações, as aparições e até mesmo as materializações (aparições tangíveis).
    — Não é isso que há bastante no Catolicismo, por exemplo?

    7
    Os espíritas

    Três são as classes, ou graus, ou características de espíritas:
    1ª - crêem nas manifestações dos Espíritos; para eles o Espiritismo é uma ciência experimental:
    2ª - compreendem as conseqüências morais do Espiritismo;
    3ª - praticam ou se esforçam para praticar a moral espírita.
    Nos três casos encontram-se novas ordens de idéias, tendentes a melhorar a humanidade, pela prática do bem.
    Os contrários ao Espiritismo, também podem ser categorizados de três maneiras:
    1ª - negam sistematicamente tudo o que é novo e do que falam não têm conhecimento, menos ainda base filosófica; para eles, só o que os sentidos evidenciam e assim, o Espiritismo não passa de fantasia... Orgulho e presunção os dominam;
    2ª - sabem que o Espiritismo existe e o compreendem, contudo o consideram um inimigo, por contrariar seus interesses pessoais (nestes, a ambição fala alto);
    3ª - seus atos são energicamente censurados pelo Espiritismo, o que os incomoda sobremaneira (nestes, o egoísmo dita procedimentos).
    O Espiritismo, certamente, não corrigirá o mundo, da noite para o dia.
    Cedo ou tarde, desenvolvendo o sentimento religioso nuns e noutros, a todos acabará por trazer serenidade diante das agruras da vida e os “mistérios da morte”, adicionando resignação e coragem e a certeza de um futuro feliz.

    8
    Espiritismo: moral cristã

    A moral dos ensinos contidos no Espiritismo, na verdade, há tempos está na humanidade, seja pelas leis do Decálogo (Moisés), seja pelas sublimes lições passadas e exemplificadas por Jesus.
    Considerando as turbulências havidas na humanidade desde então, muitas delas sob a égide do Cristianismo, o Plano Maior julgou oportuno que fosse relembrada e melhor explicada a moral cristã e esse foi e é exatamente o objetivo do Espiritismo.
    Dezoito séculos separaram Jesus de Kardec e nesse período a Ciência evoluiu a passos largos, fazendo não poucas idéias errôneas sobre o Universo se curvarem e se modificarem diante da evidência científica.
    A previsão da Espiritualidade é que o mesmo aconteça com o Espiritismo, já que, se a Ciência cada vez mais progride e entende as propriedades da matéria. Poderá ser pela mediunidade, ou mesmo reencarnando entre nós Instrutores Celestiais, que virá a ser demonstrada e comprovada a existência do Espírito imortal.
    Isso elucidará, senão todos, a grande maioria dos acontecimentos da Vida, sob a ótica da Justiça Divina.

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    Aproximação a Jesus

    Na humanidade, praticamente todas as idéias novas foram e são combatidas de início, para só depois comprovarem sua veracidade e aí sim, serem aceitas.
    Com o Espiritismo não foi diferente: de saída, foi considerado “obra de Espíritos do mal”, por adversários insensatos quanto ignorantes.
    A esse respeito bons Espíritos advertiram que a seu tempo emergiria a pureza dos ensinamentos espíritas, qual “a luz mais pura não é obscurecida por nenhuma nuvem”.
    No planeta Terra a humanidade sempre vem aprendendo com os erros. A unidade terrena da verdade será alcançada cedo ou tarde e a união dos povos ocorrerá por um pensamento comum: “o amor de Deus e a prática do bem”.
    Entre os próprios espíritas há discordâncias, contudo, são mais de forma do que de conteúdo, só em pontos secundários, nunca na base fundamental da moral de Jesus. Em última análise, sempre no varejo, jamais no atacado.
    A razão será sempre a suprema ferramenta da verdade.

    Encerrando as sublimidades de “O Livro dos Espíritos” Kardec houve por bem transcrever (o que também ora faço) palavras de Santo Agostinho:
    “Por muito tempo, os homens se estraçalharam e se amaldiçoaram em nome de um Deus de paz e de misericórdia, ofendendo-o com semelhante sacrilégio. O Espiritismo é o laço que os unirá um dia, porque mostrará onde está a verdade e onde está o erro.Mas haverá ainda por muito tempo escribas e fariseus (figuras do Evangelho. Neste caso, gente falsa, fingida, pérfida, traiçoeira) que o negarão, como negaram o Cristo. Quereis saber sob a influência de que Espíritos estão as diversas seitas que dividiram entre si o mundo? Julgai-as por suas obras e princípios. Nunca os bons Espíritos foram os instigadores do mal; nunca aconselharam nem legitimaram o assassinato e a violência; nunca excitaram os ódios dos partidos, nem a sede das riquezas e das honras, nem a avidez dos bens da Terra.
    Somente aqueles que são bons, humanos e benevolentes para com todos são seus preferidos e são também os preferidos de Jesus, porque seguem o caminho indicado para chegar até ele”.




    Ribeirão Preto/SP - Outono de 2006

    Eurípedes Kühl

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